Confesso: eu errei sobre Leonardo Jardim em 2024. Quando o nome surgiu como candidato ao Flamengo, minha leitura era de um treinador excessivamente defensivo para o DNA atacante do clube. Hoje, com 9 jogos de invencibilidade — 7 vitórias e 2 empates — vejo exatamente onde errei a análise.

O Flamengo visita o Independiente Medellín nesta quinta-feira (07), às 21h30 (horário de Brasília), pela 4ª rodada do Grupo A da Copa Libertadores. Uma vitória garante a classificação antecipada para as oitavas e abre seis pontos de vantagem sobre o terceiro colocado colombiano.

O que os 9 jogos invictos revelam sobre o sistema de Jardim

A sequência cobre três competições distintas: Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil. Isso não é detalhe menor — significa que o padrão tático se sustenta contra diferentes tipos de oponente, ritmo e pressão contextual.

Nas 7 vitórias, o Flamengo bateu Santos, Fluminense e Atlético-MG pelo Brasileirão; Cusco (PER) e o próprio Medellín pela Libertadores; e o Vitória pela Copa do Brasil. Os dois empates vieram contra Estudiantes (ARG) e Vasco — ambos adversários com linha de pressão alta e proposta de compactação no terço médio.

O padrão que emerge é claro. Jardim opera com um bloco médio que oscila entre 4-4-2 e 4-2-3-1 conforme a posse. A transição ofensiva é o vetor principal: o time recupera a bola no próprio campo e acelera em quatro a seis segundos para criar situações de finalização. A posse média do Flamengo nessa sequência gira em torno de 54-57%, o que indica controle sem estéril circulação de bola.

Os dois empates, contra Estudiantes e Vasco, têm explicação tática comum. Ambos os adversários usaram pivô fixo para segurar a segunda bola e bloquearam as linhas de passe verticais. O Flamengo perdeu fluidez na transição e teve que construir de forma posicional — exatamente o cenário menos favorável ao sistema atual.

O Medellín que o Flamengo vai encontrar em Medellín

O técnico do Independiente Medellín confirmou a escalação: Chaux; Leyser Chaverra, Londoño, José Ortiz e Fabra; Loboa, Didier Moreno, Mena e Alexis Serna; Yony González e Fydriszewski. O time entra em campo com três desfalques por lesão — Leider Berrio, Kevin Mantilla e De la Rosa —, o que compromete a rotatividade no meio e no ataque.

A ausência de Berrio é a mais sensível. O atacante é referência na pressão alta do Medellín e no acionamento do pivô. Sem ele, a equipe colombiana tende a recuar a linha de pressão para o terço médio, o que paradoxalmente pode favorecer o contra-ataque flamenguista — justamente o forte da equipe de Jardim.

O meio-campo com Loboa e Didier Moreno é fisicamente robusto, mas tem limitação na saída de bola sob pressão. Se o Flamengo conseguir aplicar uma linha de pressão alta nos primeiros 20 minutos, o Medellín tende a errar passes no campo de defesa. Esse dado foi observado no primeiro confronto entre as equipes nesta fase de grupos, quando o Flamengo venceu.

O Atanasio Girardot, em Medellín, é um fator ambiental real. A altitude de 1.495 metros reduz a capacidade aeróbica em cerca de 8-10% nos primeiros 30 minutos para atletas não aclimatados. A gestão física de Jardim nos primeiros 45 minutos será determinante.

Liderança isolada e o que os números dizem sobre a trajetória

Com 7 pontos no Grupo A, o Flamengo lidera a chave. Uma vitória nesta quinta eleva a vantagem sobre o Medellín — terceiro colocado — para 6 pontos, tornando matematicamente impossível para o clube colombiano ultrapassar o time brasileiro considerando o critério de confronto direto.

No Brasileirão, o clube ocupa a segunda colocação, atrás do Palmeiras, mas com uma partida a menos. Isso significa que a pressão de calendário é real: o Flamengo gerencia três frentes simultaneamente, e a gestão de elenco de Jardim tem sido um dos pontos mais comentados no SportNavo ao longo desta temporada.

Há um dado que merece atenção. Como o trânsito da Avenida Paulista às 18h, a sequência invicta tem um congestionamento embutido: os dois últimos resultados foram empates. Quando uma equipe passa de vitórias sequenciais para empates consecutivos sem perder, geralmente indica ajuste tático dos adversários à proposta do time — ou leve queda de intensidade na pressão. No caso do Flamengo, a leitura mais provável é a primeira.

A questão que os dados levantam é direta: o Flamengo consegue manter a eficiência ofensiva quando o adversário fecha os espaços de transição? Contra Estudiantes e Vasco, a resposta foi parcialmente negativa. Contra o Medellín, desfalcado e jogando em casa, a prova será diferente — mas não necessariamente mais simples.

Jardim não falou publicamente sobre a escalação para esta quinta, mas o histórico recente indica preferência por manter o bloco titular nas partidas de Libertadores, com rotações mais agressivas no Brasileirão. Se o padrão se mantiver, o Flamengo entra em campo com seu onze de maior confiança do treinador.

O que os 9 jogos invictos revelam sobre o sistema de Jardim O Flamengo de Jardim
O que os 9 jogos invictos revelam sobre o sistema de Jardim O Flamengo de Jardim

O jogo começa às 21h30 (horário de Brasília), com transmissão pela ESPN e Disney+. Em caso de vitória, o Flamengo se classifica para as oitavas de final com duas rodadas de antecedência — e Jardim vai silenciar de vez análises como a que eu fiz há um ano e meio.