Classificar e ser vaiado ao mesmo tempo é uma contradição que o Fluminense protagonizou no Maracanã na última rodada da Copa do Brasil. O Tricolor avançou para as oitavas de final, mas saiu do gramado sob o som de desaprovação da própria torcida — e o técnico Luis Zubeldía, em vez de celebrar, foi direto ao ponto que explica o desconforto coletivo: a defesa voltou a rachar no momento errado.
O erro que Zubeldía não consegue explicar
O gol sofrido diante do Operário-PR não foi fruto de uma jogada ensaiada do adversário nem de um domínio prolongado sobre o setor defensivo do Flu. Foi um erro individual, pontual e evitável — e isso, para um treinador que preza pela organização, é o tipo de problema mais difícil de resolver. Jemmes, zagueiro que integra o trio titular desde janeiro ao lado de Juan e Ignácio, falhou num cruzamento que parecia controlado.
"Alguns gols são evitáveis. A verdade é que eu não conversei com o Jemmes sobre o que aconteceu naquele cruzamento, quando parecia que ele tinha a bola controlada para afastar. Não sei o que ele pensou naquele lance", disse Zubeldía em entrevista coletiva após a partida.
A declaração pesa mais do que parece. Quando um treinador admite publicamente que não entende a decisão de um atleta em campo, está sinalizando algo além do erro em si: há uma quebra de leitura entre o que é treinado e o que é executado sob pressão. Zubeldía reconheceu que o trio de zagueiros titular foi definido desde o início da temporada de 2026, com Millán recebendo oportunidades pontuais e outros jogadores com minutagem ainda menor — mas a estabilidade da escalação não se traduziu em estabilidade defensiva.
Um padrão que já se repetiu antes no Tricolor
Quem acompanha o Fluminense há mais de uma temporada reconhece o roteiro. Em 2023, o time de Fernando Diniz também oscilava defensivamente ao longo da Copa Libertadores — e ainda assim foi campeão. A diferença é que naquele ano o ataque produzia volume suficiente para absorver os erros atrás. No ciclo atual, com Zubeldía construindo um estilo mais pragmático, cada gol sofrido de forma evitável custa mais caro porque o Tricolor não tem a mesma capacidade de resposta ofensiva que tinha há três temporadas.
O próprio técnico reconheceu a insegurança como fator determinante, sem conseguir apontar uma causa única:
"Pode ser um pouco de insegurança, porque não vínhamos vencendo, pode ser o momento da temporada. Existem momentos em que o time tem segurança, ou em que as coisas acontecem a favor, você tem sorte e não sofre gols. Mas, evidentemente, é algo que precisamos melhorar", afirmou o treinador argentino.
A honestidade de Zubeldía é um traço que diferencia sua gestão de comunicação — mas também expõe a ausência de uma solução clara. Admitir o problema sem apresentar o remédio é um sinal de que o trabalho defensivo ainda está em construção… e aí vem o problema.
A pressão sobre Zubeldía e o que os números dizem
A Copa do Brasil de 2026 é, neste momento, o principal termômetro da gestão Zubeldía no Fluminense. A vaga nas oitavas foi conquistada, mas o caminho até ela passou por atuações que não convenceram. A torcida que foi ao Maracanã naquela noite esperava, no mínimo, uma exibição que justificasse o otimismo — e saiu vaiando. Segundo apuração do SportNavo, essa foi a segunda vez consecutiva que o Tricolor foi alvo de vaias em seu próprio estádio em jogos da competição nacional em 2026, o que coloca Zubeldía numa posição delicada mesmo com resultados classificatórios.
A diferença entre a confiança que o Fluminense transmitia na campanha da Libertadores de 2023 e o que apresenta agora é da ordem de grandeza da distância entre Manaus e Salvador — mais de 3.600 quilômetros de sensação de time, de identidade, de certeza coletiva. Não é só tática; é a percepção de que o grupo ainda não encontrou seu melhor futebol na temporada.
Sobre a cobrança de pênaltis, Zubeldía também foi questionado pela presença de Savarino em campo quando John Kennedy converteu a segunda penalidade. O treinador explicou que a comissão técnica sempre designa dois cobradores — o número um e o número dois — justamente para situações em que dois pênaltis sejam marcados ou o cobrador principal não queira bater novamente. A estratégia funcionou, mas o fato de a decisão precisar de explicação pública mostra o nível de escrutínio ao qual Zubeldía está submetido.

O que as oitavas exigem de uma defesa que ainda erra o básico
Nas oitavas da Copa do Brasil, o nível dos adversários sobe consideravelmente. O Operário-PR, clube da Série B, já foi capaz de explorar uma falha individual para marcar. Times da elite nacional, com jogadores mais qualificados e esquemas mais elaborados, vão pressionar o setor defensivo do Flu com muito mais consistência. Juan, Jemmes e Ignácio são experientes — o próprio Zubeldía ressaltou isso ao justificar as escolhas — mas experiência não blindou o trio contra erros que o técnico classificou como situacionais e, ao mesmo tempo, recorrentes.
A classificação existe, a vaga nas oitavas é real, e o Fluminense tem condições técnicas para avançar na competição. Mas o paradoxo da noite no Maracanã — passar e ser vaiado — só será resolvido quando o time mostrar que sabe defender com a mesma determinação com que busca os resultados. O próximo compromisso do Tricolor pelo Brasileirão Série A de 2026 acontece antes do sorteio das oitavas da Copa do Brasil, e Zubeldía precisará apresentar respostas concretas em campo antes que as perguntas se acumulem além do ponto de controle.









