Quatro a zero em Belo Horizonte. O placar do último domingo contra o Atlético-MG funciona como um cartão de visitas do momento que o Flamengo atravessa no Campeonato Brasileiro — e, dentro desse resultado, há um nome que merece ser lido com atenção: Evertton Araújo, 23 anos, camisa 52, produto legítimo do Ninho do Urubu. O jovem volante não apenas substituiu Erick Pulgar como ocupou o espaço com uma autoridade que ninguém, talvez nem ele próprio, esperasse com tanta rapidez.
Da base ao centro do jogo rubro-negro
Há algo de simbólico na trajetória de um cria que sobe, espera, observa e, quando a chance aparece, não a desperdiça. Evertton Araújo viveu exatamente esse arco narrativo. Formado nas categorias de base do Flamengo, o volante acumulou minutos pontuais nas temporadas anteriores, suficientes para mostrar qualidade, insuficientes para cravar uma titularidade. O ponto de inflexão foi o dia 2 de abril: Erick Pulgar sofreu uma lesão na articulação acromioclavicular do ombro direito na derrota por 3 a 0 para o Red Bull Bragantino, e desde então não voltou a campo. A partir dali, Evertton não saiu mais da equipe.
A evolução já era perceptível desde o início do ano, ainda sob o comando de Filipe Luís. Mas foi com Leonardo Jardim que o jovem encontrou o ambiente ideal para florescer. O treinador português, que vem moldando o Flamengo com ênfase na compactação defensiva e no controle do meio-campo, enxergou em Evertton características que se encaixam como uma peça precisa em seu esquema: movimentação intensa, capacidade de recuperar a bola e transitar com segurança para o ataque.

Gol, assistência e números que contam a história
Nas duas últimas rodadas do Brasileirão, Evertton Araújo foi além do trabalho invisível que se exige de um primeiro volante. Marcou um gol diante do Vitória e distribuiu a assistência que abriu caminhos no massacre sobre o Atlético-MG — contribuições diretas para o resultado que colocou o Flamengo a seis pontos do líder Palmeiras, com um jogo a menos. Números que, segundo levantamento do SportNavo, configuram sua melhor temporada individual desde que integrou o profissional rubro-negro. A comparação com as estatísticas de 2025 é contundente: mais minutos em campo, mais participações em gols, e uma constância que os anos anteriores não registravam.
Arrascaeta e Pedro, veteranos do elenco estrelado, também voltaram a ter protagonismo nesse ciclo positivo. Mas é a segurança transmitida pelo volante cria da casa que tem dado ao time aquela sensação de equilíbrio entre os setores — o tipo de organização que Leonardo Jardim busca construir desde que assumiu o comando técnico do clube.
O dilema agradável de Jardim
Erick Pulgar está na fase final de recuperação. O chileno já realiza trabalhos no campo com fisioterapeutas e preparadores físicos, e a tendência é que retorne aos treinos com o grupo em breve. Havia expectativa de que estivesse disponível para o duelo desta quarta-feira contra o Estudiantes, em La Plata, pela terceira rodada do Grupo A da Copa Libertadores. A boa fase do clube, no entanto, convida à cautela: a viagem ao interior da Argentina deve acontecer sem o camisa 5.
Há ainda um dado que torna a equação mais complexa: Pulgar cumpre suspensão em competições nacionais, o que o impede de atuar no clássico contra o Vasco, no próximo domingo, pelo Brasileirão. A perspectiva é que o chileno retorne ao time apenas para o jogo diante do Independiente Medellín, na Colômbia, no dia 7 — o que significa mais rodadas para Evertton Araújo consolidar seu argumento dentro de campo.
Segundo apuração do SportNavo, o ambiente interno no Ninho do Urubu reconhece que Jardim tem nas mãos um problema que todo treinador desejaria ter: dois volantes de alto nível disputando a mesma posição com méritos equivalentes.
A questão tática que se impõe ao português não tem resposta fácil. Pulgar é experiente, titular histórico recente, peça de referência no sistema. Evertton Araújo é jovem, está em crescimento acelerado e carrega o peso simbólico de ser um produto da própria casa — algo que o torcedor rubro-negro nunca recebe com indiferença. A solução pode passar por uma convivência de ambos no meio, mas Jardim precisará encontrar o equilíbrio certo para não perder o que o time ganhou nessas últimas semanas.
O Flamengo que reencontrou um rumo
O clube carioca superou, com a sequência recente, o melhor momento de Filipe Luís à beira do campo nesta temporada — referência que o próprio rendimento coletivo foi estabelecendo. De um início marcado por oscilações e pressão por resultados, o Flamengo chegou a um ponto em que os 4 a 0 sobre o Atlético-MG parecem menos surpresa e mais consequência. A regularidade, palavra que custou muito a este elenco nos últimos meses, começa a ganhar forma concreta na tabela.
O próximo capítulo desta história se escreve em La Plata, na Argentina: quarta-feira, Estudiantes x Flamengo, Libertadores da América, com Evertton Araújo na provável titularidade — e a missão de mostrar, agora no continente, que o Garoto do Ninho não trouxe apenas uma solução emergencial, mas uma presença definitiva.









