Há algo perturbador na lista de convocados do Haiti para a Copa do Mundo de 2026: ela funciona. Um país que mandou seus jogos das eliminatórias no exterior por razões de segurança pública, que não pisava num Mundial desde julho de 1974, que tem entre suas opções de goleiro um atleta que defende o FC Cosmos Koblenz na quinta divisão alemã — e chegou lá mesmo assim. O paradoxo não é decorativo: é a própria matéria da história haitiana.

Um país que jogou em campo neutro e ainda assim venceu

A classificação histórica foi confirmada em novembro de 2025, mas o caminho percorrido para chegar até ali exigiu uma adaptação que poucos selecionados precisaram fazer. A crise de segurança que assola o Haiti obrigou a federação a transferir os jogos das eliminatórias para fora do país — uma solução que, paradoxalmente, revelou a coesão do grupo. Jogar sem torcida própria, sem o calor de casa, sem o território familiar, e ainda avançar: há uma contabilidade emocional nessa conta que nenhuma planilha de scout consegue medir.

O técnico francês Sébastien Migné, que integrou a comissão técnica de Camarões na Copa do Mundo de 2022 — edição em que os africanos derrotaram o Brasil por 1 a 0 — foi o arquiteto dessa coesão. Segundo a Fifa, Migné foi explícito sobre sua filosofia ao anunciar os 26 convocados na última sexta-feira, dia 15 de maio:

"A convocação priorizou a força do grupo em vez de talentos individuais."

A frase soa quase como um manifesto político num país acostumado a ver o coletivo ser solapado pelo individual. No futebol, porém, ela tem consequências táticas concretas.

Josué Duverger e a aritmética improvável do futebol caribenho

Entre os 26 nomes convocados, o que mais captura a imaginação é o do goleiro Josué Duverger. Nascido no Canadá e naturalizado haitiano, Duverger defende o FC Cosmos Koblenz, clube da quinta divisão do futebol alemão — o equivalente, em termos de distância da elite, a um jogador do interior paulista sendo chamado para a Seleção Brasileira. Ele não será titular: a posição de capitão e guarda-redes principal pertence a Johny Placide, que atua no futebol francês. Mas a presença de Duverger na lista diz algo sobre o alcance geográfico e a generosidade de critério com que Migné montou seu elenco.

Na avaliação do SportNavo, essa composição plural — jogadores espalhados pelo Canadá, França e Alemanha, em divisões que vão da elite ao semiprofissional — é o retrato fiel de uma diáspora que encontrou no futebol um idioma comum. Não há tragédia nisso: há identidade.

Os 26 convocados formam um grupo com passaportes de pelo menos três países

  • Goleiro titular: Johny Placide (futebol francês, capitão)
  • Goleiro reserva: Josué Duverger (FC Cosmos Koblenz, 5ª divisão alemã, nascido no Canadá)
  • Técnico: Sébastien Migné (francês, ex-comissão de Camarões na Copa de 2022)

O Grupo C e a estreia diante da Escócia em Boston

O sorteio colocou o Haiti no Grupo C ao lado de Brasil, Escócia e Marrocos — uma sequência que exige realismo sem abrir mão da ambição. A estreia acontece no dia 13 de junho contra a Escócia, em Boston. Na sequência, no dia 19 de junho, vem o confronto com o Brasil, na Filadélfia. O encerramento da fase de grupos será no dia 24 de junho, diante do Marrocos, em Atlanta.

Cinquenta e dois anos separam a única participação haitiana num Mundial — a Copa de 1974, na Alemanha Ocidental, onde a seleção perdeu os três jogos e foi eliminada na fase de grupos — desta nova aparição. Naquela edição, o Haiti enfrentou Itália, Argentina e Polônia. Desta vez, o calendário reserva Brasil e Marrocos, duas seleções que chegam ao torneio entre as favoritas de seus respectivos grupos. A missão não é simples, mas a equipe de Migné já demonstrou que sabe operar sob pressão: afinal, chegou até aqui jogando em campo neutro, sem casa, e mesmo assim fez o caminho de volta.