O barulho das bolas na trave ressoa diferente quando o placar ainda está 1 a 0 aos 42 minutos do segundo tempo. Naquela fração de segundo em que a finalização de Thauvin beijou o poste do PSG e saiu, Matvei Safonov já havia feito o suficiente para que o gol anulado — e a sorte — fossem apenas detalhes de uma noite que sempre lhe pertenceu. O Paris Saint-Germain venceu o Lens por 2 a 0 nesta quarta-feira (13) e conquistou o quinto título consecutivo da Ligue 1, com Kvaratskhelia abrindo o placar aos 28 minutos do primeiro tempo e Ibrahim Mbaye selando a vitória num ângulo perfeito aos 48 do segundo. Mas o protagonismo da noite pertenceu ao goleiro russo, que acumulou oito defesas e neutralizou ao menos onze finalizações enquadradas de um Lens que tentou de tudo.
Da reserva de luxo ao guardião do título
Há algo de irônico — do tipo que se aprecia com um copo de vinho tinto e não com gargalhada — na trajetória de Safonov no PSG. Contratado em 2024 para compor o elenco de Luis Enrique, o russo chegou com a etiqueta de backup colada nas costas: Gianluigi Donnarumma era o titular incontestável, um dos melhores goleiros da Europa, com o ego proporcional ao palmarès. Safonov era, na leitura mais pragmática, uma apólice de seguro. Decidiu.
A lesão de Donnarumma abriu a porta, mas abrir portas e atravessá-las com autoridade são gestos completamente distintos. O que Safonov fez ao longo da temporada 2025/26 foi atravessar essa porta, reorganizar os móveis e colocar o próprio nome na placa. O goleiro alcançou 66% de aproveitamento ao longo da Ligue 1 — dado que o portal SportNavo cruzou com o desempenho histórico de titulares do PSG na competição — e foi peça central na campanha que colocou o clube parisiense na final da Champions League, com atuações decisivas na fase eliminatória europeia, incluindo o trabalho tático para neutralizar Michel Olise.

O momento que reconfigurou a percepção pública sobre Safonov, porém, foi anterior: no Torneio Intercontinental contra o Flamengo, ele defendeu quatro pênaltis numa sequência que beirou o surreal, foi eleito o melhor jogador da decisão e consolidou de vez sua posição na titularidade — inclusive desbancando Lucas Chevalier, o goleiro-sensação do Lille na temporada anterior, que havia sido cogitado como alternativa ao esquema de Luis Enrique.
O Lens pressionou como se o título não fosse do PSG
A partida desta quarta-feira no Stade Bollaert-Delelis não foi o passeio protocolar que títulos matematicamente encaminhados costumam ser. O Lens entrou em campo com a intensidade de quem não leu o script, acumulou ao menos 25 finalizações ao longo dos 90 minutos e, especialmente no segundo tempo, criou sequências que deixariam qualquer torcedor parisiense de cabelo em pé — se ainda houvesse cabelo a levantar depois de cinco anos de domínio doméstico.
A entrada de Allan Saint-Maximin aos 15 minutos da etapa final mudou o ritmo do Lens de maneira perceptível. O atacante criou três grandes chances consecutivas em pouco mais de dez minutos, num pressing alto que lembrou, em estrutura, o gegenpressing que Klopp popularizou no Dortmund e que hoje é referência para qualquer equipe que queira pressionar com coerência posicional. O PSG, por sua vez, jogou no modo contenção — um tiki-taka defensivo, se a expressão fizer sentido — e dependeu de Safonov para que o 1 a 0 de Kvaratskhelia sobrevivesse até Mbaye fechar o placar já nos acréscimos.
Nas palavras do técnico Luis Enrique, a temporada foi construída sobre a capacidade do elenco de responder a adversidades com coletividade — e Safonov encarna essa narrativa melhor do que qualquer outro jogador do grupo neste ciclo.
O que o quinto título consecutivo muda no mapa do PSG
Cinco títulos seguidos da Ligue 1 colocam o PSG numa conversa que vai além da França. Não há tragédia: há contabilidade. O clube parisiense transformou o campeonato nacional numa formalidade administrativa enquanto concentra energia real na Champions League, e a consolidação de Safonov como titular é parte essencial desse projeto de longo prazo. Um goleiro de alto nível que chegou jovem, adaptou-se ao sistema e cresceu em jogos decisivos é exatamente o perfil que clubes como o Bayern de Munique e o Manchester City levaram anos para construir nas últimas décadas.
A comparação com Donnarumma, inevitável nos bastidores, é menos sobre qualidade individual e mais sobre adequação ao momento. O italiano, quando saudável, segue sendo um dos melhores do mundo na função. Mas Safonov, com 26 anos e uma temporada de protagonismo no currículo, construiu algo que nenhum contrato garante: a confiança do vestiário e a certeza do técnico. Num clube onde a pressão chega antes do aquecimento, isso vale mais do que qualquer cláusula de renovação.
O PSG volta às atenções europeias com a final da Champions League no horizonte — e Safonov, que já se provou capaz de segurar noites como a desta quarta-feira diante do Lens, chega a Budapeste não como o goleiro que substituiu Donnarumma, mas como o arqueiro titular de um clube que quer muito mais do que cinco títulos franceses consecutivos.












