Diz-se, no futebol de alto rendimento, que o corpo do atleta pertence ao clube. Que é o departamento médico da instituição que define protocolos, determina retornos e controla a carga de treino. No caso de Neymar, essa lógica nunca foi completamente verdadeira — e o abraço dado a Rafael Martini no momento da convocação para a Copa do Mundo, na última segunda-feira (18), expõe com precisão cirúrgica por quê.

O vídeo de bastidores divulgado pelo próprio Neymar mostrou uma sequência que poucos esperavam: antes da esposa Bruna Biancardi, antes de familiares, antes de qualquer amigo, o atacante foi direto a Martini. O abraço foi longo, emocionado, acompanhado de uma frase que o próprio jogador deixou registrada:

"Obrigado, tá? Por tudo!"
Ricardo Rosa, preparador físico que compõe a mesma equipe particular, foi abraçado na sequência. A cena, com menos de 30 segundos de duração, sintetiza mais de dez anos de uma parceria construída fora dos holofotes e dentro dos vestiários de recuperação.

A estrutura que nenhum clube contratou

Martini e Rosa não constam na folha de pagamento de nenhum clube. São funcionários diretos de Neymar — uma distinção que, no futebol profissional, é rara e reveladora. Enquanto a maioria dos atletas de elite depende integralmente do departamento médico do contratante, o camisa 10 da Seleção montou, ao longo dos anos, uma infraestrutura própria que viaja com ele para compromissos do Santos no Brasil e no exterior, opera fora dos horários convencionais de treino e responde exclusivamente ao jogador.

A origem dessa estrutura remonta a 2014. Após desentendimentos com o departamento médico do Barcelona — clube pelo qual defendia à época —, Neymar decidiu centralizar a gestão do seu corpo fora das estruturas institucionais dos times. A partir dali, Martini e Rosa passaram a atuar como uma comissão técnica paralela e personalizada, com planos específicos de prevenção, resistência ao contato físico e recuperação pós-lesão.

No período em que Neymar jogou pelo PSG, a negociação foi conduzida pelo próprio estafe do atacante: os dois profissionais foram integrados ao quadro do clube francês em 2018, mas mantiveram o vínculo primário com o jogador, não com a instituição. A mesma lógica se repete agora, com a comissão técnica da Seleção Brasileira incorporando Martini e Rosa à rotina de preparação para o Mundial.

Martini e os anos no Santos antes do mundo saber o nome de Neymar

A relação entre Martini e Neymar não começou nas grandes ligas europeias. O fisioterapeuta tem passagem documentada pelo Santos entre janeiro de 2010 e agosto de 2014 — exatamente o período em que o atacante consolidou sua carreira no clube que o revelou e se tornou referência global. Foi nesse intervalo que a confiança entre os dois foi construída, antes das lesões de alta complexidade, antes do PSG, antes das Copas do Mundo.

Neymar chegou profissionalmente ao Santos aos 17 anos, em 2009, e coleccionou passagens pelo sub-17 e sub-20 do clube antes de se firmar no elenco principal. Martini acompanhou de perto esse processo de transição, o que explica a solidez do vínculo que persiste até hoje — quando o atacante soma 33 anos e se prepara para disputar seu quarto Mundial consecutivo, depois de ter jogado em 2010, 2014 e 2022.

No Barcelona, a parceria ganhou uma camada técnica mais sofisticada. Martini passou a desenvolver atividades específicas na casa do atleta, com protocolos desenhados para aumentar a resistência ao contato físico sem comprometer a velocidade ou a explosão que definem o estilo de jogo do atacante. O objetivo declarado era simples na teoria e complexo na execução: manter Neymar disponível por mais tempo, reduzindo o índice de lesões musculares e articulares que haviam marcado sua trajetória.

O que os dados de disponibilidade revelam sobre a metodologia

O SportNavo levantou o histórico de lesões de Neymar nas últimas temporadas europeias, e o padrão é consistente com a narrativa de uma preparação cada vez mais especializada. Entre 2017 e 2023, o atacante somou seis lesões de médio a alto impacto, com destaque para o tornozelo direito operado em 2023 e que o tirou da Copa América daquele ano. A recuperação, conduzida em grande parte por Martini e Rosa, foi concluída em tempo dentro do cronograma estabelecido pela equipe particular — não pelo Al-Hilal, clube saudita ao qual estava vinculado.

A convocação por Carlo Ancelotti — que escolheu 26 atletas para o Mundial sediado em Estados Unidos, México e Canadá — chegou com Neymar acumulando 42 jogos oficiais pelo Santos na temporada 2026, um número que o próprio técnico italiano citou como critério de elegibilidade. O atacante foi o jogador mais buscado no Google após o anúncio da lista, com volume dez vezes superior ao de Endrick e doze vezes ao de Vinicius Jr., segundo dados do buscador referentes ao intervalo entre 18h04 e 19h04 do dia 18 de maio.

A pressão sobre Neymar nesta Copa — a quarta de sua carreira — é proporcional ao contexto histórico que a Seleção carrega: caso o Brasil não conquiste o título, o país igualará matematicamente o maior jejum de sua história, de 24 anos sem o troféu, período anterior registrado entre 1970 e 1994. Seis edições consecutivas sem o título já estão acumuladas desde 2006.

O que uma equipe particular representa para a longevidade de um atleta

Atletas que chegam aos 33 anos disputando Copas do Mundo — Neymar estará com essa idade durante o torneio — representam uma minoria estatística no futebol de elite. O que diferencia os que chegam inteiros dos que chegam remendados não é apenas genética: é a qualidade da gestão do corpo ao longo de uma década de alta performance. Martini e Rosa representam, nesse sentido, uma aposta estrutural feita por Neymar muito antes de qualquer clube recomendar.

A Seleção Brasileira se apresenta na Granja Comary, em Teresópolis, no dia 27 de maio. Antes do embarque para os Estados Unidos, o Brasil disputa um amistoso contra o Panamá, no dia 31, no Maracanã. O primeiro jogo oficial no Mundial está marcado para 6 de junho, contra o Egito, em Cleveland — e Rafael Martini, com toda a probabilidade, estará nos bastidores.

No vídeo da convocação, depois que as câmeras se afastaram e o abraço terminou, Neymar sorriu. Martini ajustou a camiseta e voltou ao trabalho.