Gianni Infantino já disse que o Irã jogará nos Estados Unidos. Donald Trump, em um de seus momentos mais improváveis como comentarista esportivo, confirmou: "Faça o que quiser. Você pode ficar com eles. Acho que eles devem poder jogar." O calendário está fixado, o grupo está sorteado, o uniforme foi lançado em cerimônia na Praça da Revolução, em Teerã, com multidão, música e exibição da nova camisa. Todo mundo sabe que o Irã vai à Copa. O que ninguém consegue explicar com clareza é como, exatamente, essa delegação vai cruzar a fronteira americana.
Mehdi Taj, o presidente que não conseguiu entrar no Canadá
O protagonista desta história tem nome e cargo: Mehdi Taj, presidente da Federação de Futebol do Irã, ex-integrante da Guarda Revolucionária Islâmica — organização classificada como terrorista pelo governo canadense. Em 28 de abril de 2026, Taj foi impedido de entrar em Toronto para participar do Congresso da AFC. No dia seguinte, 29, o secretário-geral da Fifa, Mattias Grafström, escreveu pessoalmente a Taj lamentando o ocorrido e pedindo que indicasse um substituto para o Congresso da entidade, marcado para 30 de abril em Vancouver. Outros dois membros da delegação iraniana tiveram a entrada autorizada no Canadá — e mesmo assim escolheram retornar. O Irã foi a única federação sem representante no encontro.
A ausência não passou despercebida. Infantino abriu o 76º Congresso com uma declaração que soou mais como promessa pública do que constatação administrativa:
"Quero confirmar, sem ambiguidades, que o Irã vai participar da Copa do Mundo de 2026. E, com certeza, o Irã jogará nos Estados Unidos. E a razão é simples: precisamos nos unir. É minha responsabilidade, nossa responsabilidade", declarou o presidente da Fifa em Vancouver.
De volta ao Irã, Taj foi direto ao ponto. Em declaração à imprensa local após o retorno forçado, o dirigente anunciou que uma reunião decisiva com a Fifa estava marcada para os dias seguintes — encontro que a entidade propôs realizar em Zurique, na sede da federação, antes do dia 20 de maio, a menos de três semanas da abertura do Mundial em 11 de junho. "Temos uma reunião com a Fifa depois de amanhã. Acho que é uma reunião decisiva. Eles precisam nos dar algumas garantias, porque os problemas dos vistos ainda não foram resolvidos", afirmou Taj, acrescentando que tentativas de regularizar a situação seriam feitas em Antalya, na Turquia.
Quando a geopolítica já entrou em campo antes do apito inicial
A memória do futebol guarda precedentes que iluminam o tamanho do risco. Em 1992, a Iugoslávia foi banida da Eurocopa por sanções da ONU em meio à guerra civil — a federação tinha classificado a seleção, mas o comitê político foi mais rápido que o regulamento esportivo. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro, a própria Ucrânia enfrentou dúvidas sobre sua participação nos playoffs da Copa do Mundo, com jogadores saindo de abrigos antiaéreos para treinar. A Fifa suspendeu a Rússia em questão de dias — decisão que inverteu o polo da exclusão e preservou os ucranianos.
O caso iraniano de 2026 é estruturalmente diferente: aqui, não é a federação do país em conflito que enfrenta sanções esportivas, mas sim a federação de uma nação em guerra com o país-sede do torneio. O paralelo mais próximo na história da Copa é 1978, quando o Irã participou da edição argentina poucos meses antes da Revolução Islâmica que derrubaria o Xá Reza Pahlavi — o país estava em ebulição interna, mas a fronteira geopolítica com a sede do torneio era neutra. Desta vez, a fronteira é literalmente a linha entre dois países em conflito armado desde fevereiro de 2026, quando bombardeios de Israel e Estados Unidos atingiram território iraniano.
O que para o torcedor argentino de 1978 era uma Copa marcada pelo contexto da ditadura Videla — tensão política absorvida pelo espetáculo em campo —, para o torcedor americano de 2026 é algo qualitativamente distinto: a seleção de um país com o qual seu governo está em guerra vai jogar em Los Angeles, em 16 de junho, contra a Nova Zelândia. A diplomacia do futebol nunca foi testada com essa equação específica.
O Grupo G e o relógio que corre contra Teerã
O regulamento da Fifa é implacável em datas e cifras. Seleções que desistirem da Copa até 30 dias antes do início pagam multa mínima de 250 mil francos suíços — aproximadamente R$ 1,6 milhão. Se a retirada ocorrer dentro do período de um mês que antecede a partida de abertura, o valor dobra. O Irã reservou um centro de treinamentos em Tucson, no Arizona, e o regulamento exige que a delegação esteja em solo americano até 10 de junho — seis dias antes da estreia contra a Nova Zelândia, em Los Angeles.
O Grupo G está definido: Bélgica, Nova Zelândia, Egito e Irã. Todos os três jogos iranianos acontecem nos Estados Unidos — Nova Zelândia em 16 de junho em Los Angeles, Bélgica em 21 de junho também em Los Angeles, e Egito em 27 de junho em Seattle. Não há jogo iraniano no México ou no Canadá, o que elimina qualquer alternativa geográfica simples. A Fifa já rejeitou o pedido iraniano de transferir as partidas para território mexicano.
"Não se tornou uma crise porque não houve nenhuma informação útil sobre a entrega dos vistos. Não deram nenhum visto para as nossas pessoas", disse Taj após o retorno ao Irã, evidenciando que o impasse vai além da questão de sua entrada pessoal no Canadá.
A reunião em Zurique, prevista para antes de 20 de maio, é o nó central da trama. Se a Fifa não conseguir garantias concretas do governo americano sobre a concessão de vistos para toda a delegação iraniana — jogadores, comissão técnica e dirigentes —, o prazo regulamentar de chegada em 10 de junho transforma o impasse diplomático em crise esportiva com multa acoplada. Quem quiser acompanhar o desfecho em tempo real deve marcar a semana de 19 a 23 de maio no calendário: é quando a reunião em Zurique deve acontecer e quando a Fifa precisará apresentar algo mais concreto do que as declarações de Infantino em Vancouver.









