O Irã estará em campo no dia 15 de junho, diante da Nova Zelândia, em Los Angeles — ou a Copa do Mundo terá seu maior vazio geopolítico desde a exclusão da África do Sul em 1964? A pergunta não é retórica vazia: ela percorre as chancelarias, os corredores da Fifa e, nos últimos dias, uma sala de reuniões em Istambul onde o secretário-geral Mattias Grafstrom se sentou com Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI).

A tensão começou a ganhar contornos concretos quando os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã no final de fevereiro de 2026. Desde então, a presença iraniana no torneio — programado para ocorrer entre 11 de junho e 19 de julho nos EUA, Canadá e México — passou a ser contestada em múltiplas frentes. O próprio Taj enfrentou recusa de entrada no Canadá para o Congresso da Fifa em Vancouver, no início de maio, por causa de suas ligações com a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), classificada tanto por Washington quanto por Ottawa como entidade terrorista. Futebol, neste caso, entrou num corredor tão estreito quanto o pulmão de um tatu — sem espaço para manobra, com a pressão aumentando de todos os lados.

Historicamente, o futebol já navegou por águas geopolíticas turbulentas. Na Copa de 1978, a Argentina sediou o torneio sob uma junta militar. Em 1982, a Polônia de Zbigniew Boniek participou da Copa na Espanha enquanto a lei marcial ainda ecoava em Varsóvia. Em 1994, os próprios Estados Unidos receberam seleções de países com os quais mantinham relações diplomáticas delicadas. Nenhum desses precedentes, porém, envolveu uma seleção cujo dirigente máximo foi barrado na fronteira de um país co-sede semanas antes do torneio.

O que a reunião de Istambul revelou sobre o caminho iraniano até junho

Grafstrom descreveu o encontro de sábado, 16 de maio, com uma escolha vocabular deliberada:

"Tivemos uma excelente reunião, uma reunião construtiva com a federação de futebol do Irã. Estamos trabalhando em estreita colaboração e ansiosos para recebê-los na Copa do Mundo da Fifa."

A palavra "construtiva" no léxico diplomático raramente significa que tudo está resolvido — significa que as partes ainda estão construindo. Quando questionado diretamente sobre a garantia de vistos para os jogadores iranianos, Grafstrom recuou para a linguagem das negociações em curso: "Discutimos todos os assuntos relevantes, mas acho que não é o momento de discutir os detalhes. No geral, foi uma reunião muito positiva e estamos ansiosos para continuar o diálogo." A ausência de uma confirmação explícita sobre vistos é, por si só, um dado relevante.

O Irã integra o Grupo G ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia, com todos os três jogos da fase de grupos marcados para território americano. A seleção iraniana tem história consistente em Copas do Mundo: participou de seis edições (1978, 1998, 2006, 2014, 2018 e 2022), com a campanha mais notável em 1998 na França, quando venceu os Estados Unidos por 2 a 1 — resultado que ganhou dimensão muito além do esporte. Em 2022, no Catar, os iranianos chegaram às oitavas de final, eliminados pela Inglaterra de Marcus Rashford. Jogar nos EUA em 2026 carrega, portanto, um peso simbólico que a Fifa claramente não quer desperdiçar.

A insistência de Infantino nos locais originais e o pedido iraniano recusado

A FFIRI havia solicitado formalmente a transferência de seus jogos da fase de grupos para o México, o único país co-sede sem conflito diplomático aberto com Teerã. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, recusou categoricamente, mantendo a posição de que todos os jogos serão disputados nos locais originalmente programados. É uma decisão que tem precedente institucional — a Fifa raramente altera sedes de grupo após o sorteio — mas que neste caso adiciona uma camada de risco operacional considerável.

O cronograma iraniano já está em movimento: a seleção deixará Teerã na segunda-feira, 18 de maio, em direção a um campo de treinamento na Turquia. De lá, seguirá para o Complexo Esportivo Kino, em Tucson, no Arizona, no início de junho — base americana confirmada para a preparação final. Que a Turquia tenha sido escolhida como escala não é coincidência: Ancara mantém relações diplomáticas com ambos os lados do conflito e foi justamente onde a reunião entre Grafstrom e Taj aconteceu neste sábado.

O SportNavo acompanhou os registros históricos de participações em Copas do Mundo sob tensão geopolítica, e o padrão é consistente: quando a Fifa sinaliza publicamente com a palavra "construtiva", o torneio raramente perde uma seleção classificada. Em 1974, a URSS se recusou a jogar a repescagem no Chile de Pinochet e foi eliminada — mas foi a seleção soviética que desistiu, não a Fifa que a excluiu. O precedente mais próximo do caso iraniano atual seria o da Iugoslávia, banida em 1992 por sanções da ONU, mas naquele caso havia resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, algo que não existe no contexto de 2026.

O que ainda precisa ser resolvido antes de 15 de junho em Los Angeles

O nó central permanece sem solução pública: a concessão de vistos individuais para os 26 jogadores convocados e a comissão técnica iraniana. O governo americano não se pronunciou formalmente sobre o assunto, e o Departamento de Estado tem o poder discricionário de negar entrada mesmo a atletas sem vínculo com o IRGC. A situação de Taj — que não poderá acompanhar a delegação nos EUA caso a vedação canadense se repita em solo americano — é um sinal de que a questão vai além do campo.

A delegação iraniana chegará a Tucson, no Arizona, no início de junho. Se os vistos forem concedidos sem restrições, o Irã estreia contra a Nova Zelândia em Los Angeles no dia 15 de junho. Se houver qualquer impedimento de última hora para jogadores ou membros da comissão técnica, a Fifa precisará decidir em horas se aplica o regulamento de exclusão por impossibilidade de participação — ou se convoca uma reunião de emergência ainda mais urgente do que a de Istambul. Você acha que os EUA concederão vistos sem condições para toda a delegação iraniana, ou haverá cortes na lista por pressão política?