O melhor jogador do Chelsea na temporada 2025/2026 não vai à Copa do Mundo. João Pedro, 24 anos, 20 gols, 6 assistências e 54 partidas pelos Blues, ficou fora da lista dos 26 convocados por Carlo Ancelotti anunciada na segunda-feira (18), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O paradoxo é real — e a resposta de Ancelotti para ele diz muito sobre o Brasil que vai ao torneio.
Os números de João Pedro que não convenceram Ancelotti
Olhando só para a Premier League, João Pedro fechou a temporada com 15 gols — marca expressiva para um primeiro ano no Chelsea. O xG (expected goals, ou gols esperados pela qualidade das chances criadas) do atacante na competição inglesa ficou consistentemente acima de 0,4 por 90 minutos, o que o coloca entre os atacantes mais eficientes do campeonato em conversão de oportunidades reais.
Mas o problema de João Pedro com a Seleção está em outro dado: zero gols em nove jogos entre amistosos e Eliminatórias. Quando você cruza o xG com as finalizações em campo pela amarelinha, o volume ofensivo simplesmente não apareceu. O atacante não conseguiu replicar seu encaixe no sistema do Chelsea dentro do esquema de Ancelotti — e isso pesa mais do que qualquer prêmio individual.
- João Pedro no Chelsea (25/26): 20 gols, 6 assistências, 54 jogos
- João Pedro pela Seleção: 0 gols, 9 jogos (amistosos + Eliminatórias)
- xG estimado pela Seleção: baixo volume de finalizações dentro da área, padrão de jogo periférico
Ancelotti optou por Endrick, Gabriel Martinelli, Igor Thiago, Luiz Henrique, Matheus Cunha, Neymar, Raphinha, Rayan e Vinicius Jr. no setor ofensivo. São nove atacantes para uma Copa — o que mostra que o critério não foi escassez de opções, mas sim encaixe tático e confiança construída ao longo das convocações anteriores.
"Procurei dar o meu melhor a todo o tempo. Infelizmente não foi possível realizar esse sonho de defender meu país em uma Copa do Mundo, mas sigo tranquilo e centrado, como sempre procuro estar. Alegrias e frustrações fazem parte do futebol"
A declaração de João Pedro nas redes sociais foi digna — sem alfinetadas, sem subtexto. Mas o prêmio de melhor jogador do Chelsea anunciado poucos dias depois da exclusão da lista tornou o timing cruel de um jeito que nenhum comunicado oficial consegue suavizar.
Hugo Souza, o goleiro que transformou rejeição em narrativa
Hugo Souza, do Corinthians, também ficou fora. O goleiro reagiu de forma direta:
"Combustível para fazer mais ainda"
A frase curta diz mais do que parece. Hugo Souza vive uma fase consistente no Corinthians e tinha argumentos para pleitear uma vaga — especialmente considerando que Ancelotti convocou Weverton, do Grêmio, como um dos três goleiros. Weverton, aos 38 anos, chega como terceira opção, carregando peso de experiência e não de momento.
Do ponto de vista de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) — métrica que mede a intensidade da pressão do time — os goleiros modernos são cada vez mais avaliados pelo jogo com os pés e pela capacidade de iniciar jogadas progressivas. Hugo Souza tem evoluído nesse aspecto pelo Corinthians, com progressive passes saindo do gol acima da média da Série A. Mas Ancelotti priorizou uma hierarquia já estabelecida: Ederson como titular, Bento como segundo e Weverton como veterano de Copa.
Uma convocação com mais jogadores do Brasil do que em qualquer Copa desde 2002
A lista de Ancelotti tem sete jogadores atuando no futebol brasileiro — o maior número desde o penta de 2002, quando Felipão levou 13 nomes do futebol nacional. Entre 2006 e 2022, esse número nunca passou de quatro. O próprio Ancelotti justificou a escolha:
"Dizem que o futebol europeu tem mais intensidade, mas jogar futebol no Brasil é muito complicado. Calendário apertado, viagem, calor, difícil de comparar. Depois, há as características individuais dos jogadores"
Do Flamengo vieram Danilo, Alex Santos, Léo Pereira e Paquetá. Do Botafogo, o volante Danilo. Do Grêmio, Weverton. Do Santos, Neymar — o único da lista que não havia aparecido em nenhuma das convocações anteriores de Ancelotti. Isso por si só já é uma história separada.
Militão fora por lesão, e o que isso muda na zaga
A ausência de Éder Militão é diferente das demais — o zagueiro do Real Madrid está lesionado e fora de condições físicas. Enquanto a convocação era anunciada no Rio, Militão jantava em Madri com a esposa Tainá, que está grávida do primeiro filho dos dois. Sem drama, sem declaração inflamada: apenas a realidade de quem sabe que não poderia estar disponível.
A ausência de Militão abre espaço para Léo Pereira, do Flamengo, como titular da zaga — o mesmo Léo Pereira que é pai dos filhos mais velhos de Tainá, atual companheira de Militão. O futebol brasileiro tem dessas coincidências que nenhum roteirista ousaria escrever.
Do ponto de vista tático, Militão era o zagueiro com os melhores números de defensive actions por 90 minutos entre os convocáveis — desarmes, interceptações e duelos aéreos ganhos colocavam o jogador do Real Madrid como o mais completo da posição. Sua ausência é a única perda estrutural da lista, e não uma escolha editorial de Ancelotti.
O Brasil estreia na Copa do Mundo contra o Marrocos no dia 13 de junho, em New Jersey. Antes disso, a Seleção enfrenta o Panamá no Maracanã no dia 31 de maio e o Egito em Cleveland no dia 6 de junho. João Pedro estará na arquibancada. Hugo Souza, no Corinthians. E Militão, provavelmente em Madri, assistindo ao filho nascer.












