35 minutos do segundo tempo. Riccardo Calafiori e Antoine Griezmann disputam a bola dentro da área do Arsenal no Emirates Stadium, e o que acontece a seguir será debatido em Madri por muito tempo. O árbitro alemão Daniel Siebert havia assinalado uma falta de Pubill instantes antes — e essa decisão prévia, contestada pelos próprios colchoneros, serviu de escudo para que Siebert ignorasse o contato subsequente de Calafiori sobre Griezmann. O Arsenal avançou à final da UEFA Champions League com placar agregado de 2 a 1, mas a pergunta que ecoa nas redações de Madri é outra: o que teria acontecido se o pênalti tivesse sido marcado?
Como o Arsenal construiu a classificação antes da polêmica
A narrativa do jogo, antes do lance que consumiu toda a análise pós-jogo, foi relativamente linear. Na primeira etapa, o Arsenal exerceu aquele pressing alto que Mikel Arteta aperfeiçoou ao longo de três temporadas na Premier League, circundando a área do Atlético com paciência cirúrgica. Os Colchoneros, fiel ao estilo de Diego Simeone, recuaram em bloco e apostaram nas transições rápidas — uma postura que, por muito tempo, bloqueou a maioria das finalizações dos Gunners.
O gol que decidiu o confronto chegou aos 44 minutos do primeiro tempo. Viktor Gyökeres cruzou pela direita para Leandro Trossard, que bateu a queima-roupa em Jan Oblak. O goleiro esloveno defendeu, mas Bukayo Saka aproveitou o rebote para marcar e abrir o placar. Com o empate de 1 a 1 no jogo de ida, na capital espanhola, bastava ao Arsenal não ser vazado para garantir a vaga.
O Atlético tentou reagir logo no início do segundo tempo. Le Normand lançou Giovanni Simeone em profundidade, aproveitando um erro de William Saliba, mas Gabriel Magalhães apareceu para desarmar o atacante argentino. Griezmann também chegou a parar em Raya em outra oportunidade clara. O roteiro parecia controlado — até o minuto 35 da etapa final.
O lance que Siebert não apitou e que a imprensa espanhola não vai esquecer
A descrição do Marca foi direta:
"Uma falta marcada de Pubill impediu que o árbitro assinalasse um pênalti clamoroso em Griezmann. O francês reclamou tanto que o árbitro acabou se explicando com o camisa 7. Os rojiblancos vão se lembrar disso por muito tempo."
O As foi igualmente contundente na sua leitura:
"O Arsenal é finalista da Champions com a vitória de 1 a 0 com um justo gol de Saka antes do intervalo. Depois, o resultado foi condicionado pela arbitragem, que não marcou um pênalti claríssimo de Calafiori em Griezmann."
O que torna o episódio especialmente sensível é a sequência de decisões. Siebert havia interrompido o jogo para marcar falta de Pubill — uma decisão que os espanhóis também questionaram — e, ao fazê-lo, encerrou o lance que poderia ter levado ao pênalti em Griezmann. A interpretação da arbitragem, portanto, não foi apenas sobre um contato isolado, mas sobre uma cadeia de decisões que, combinadas, definiram o resultado de uma semifinal de Champions League.
Griezmann e o Atlético pagam o preço de uma noite que não controlaram
Antoine Griezmann, aos 34 anos, provavelmente disputou sua última semifinal de Champions League com a camisa do Atlético de Madrid. O francês havia declarado antes da partida que queria encerrar a carreira no clube, e a eliminação desta forma — com um lance que o próprio vestiário considera roubado — transforma essa despedida em algo próximo de uma tragédia shakespeariana. Ou, para usar uma referência mais contemporânea, lembra aquela cena de No Country for Old Men em que o destino se decide numa moeda jogada ao ar: você faz tudo certo, e ainda assim perde.
Diego Simeone, que construiu um dos projetos mais sólidos do futebol europeu nos últimos quinze anos, vê sua equipe eliminada numa semifinal pelo segundo ano consecutivo. O Atlético havia investido pesado na temporada 2025/2026, apostando na experiência de Griezmann e na explosão de Julián Álvarez para finalmente romper o teto que separa os semifinalistas dos finalistas. O pênalti não marcado se torna, agora, o símbolo de um projeto que continua estacionado a um passo da decisão.
Sorloth ainda teve uma última chance nos minutos finais, recebendo dentro da área, mas Ben White apareceu para desarmar o norueguês. A partir dali, o Arsenal esfriou o jogo com competência — aquele game management que os clubes ingleses dominam com uma naturalidade que os times continentais ainda tentam aprender.
O Arsenal na final e o efeito cascata que Arteta construiu em silêncio
Para o Arsenal, a classificação representa um retorno histórico a uma final de Champions League pela primeira vez em 20 anos — a última havia sido em 2006, no Stade de France, quando o clube perdeu para o Barcelona. Arteta, que chegou ao Emirates em dezembro de 2019 como aposta arriscada do próprio clube, transformou uma equipe instável numa máquina de pressing que agora compete de igual para igual com as melhores da Europa.
A vitória por 2 a 1 no agregado não foi dominante, e o próprio Arteta sabe disso. O Arsenal sofreu, especialmente no segundo tempo, e dependeu de uma combinação de eficiência ofensiva — o gol de Saka foi a primeira finalização no alvo da equipe no jogo — e de uma decisão arbitral que a imprensa espanhola classifica como determinante para o resultado. Esse é o desconforto que acompanhará a classificação: os Gunners avançam, mas com um asterisco que Madri não vai ignorar.
Na final, o Arsenal aguarda o vencedor da outra semifinal. Arteta terá pouco tempo para preparar o time — a decisão está marcada para o final de maio, e o calendário da Premier League ainda exige atenção nas rodadas finais da temporada 2025/2026. Para Daniel Siebert, o debate sobre o pênalti em Griezmann provavelmente chegará à UEFA nas próximas semanas, alimentado pelos protestos formais que a federação espanhola já sinalizou que pretende registrar.









