Cinquenta e nove anos. Quatro ouros paralímpicos. Zero pernas abaixo do joelho desde setembro de 2001. Três dados que não se encaixam num modelo de carreira — e que, juntos, definem por que Alessandro Zanardi foi a figura mais improvável do esporte mundial nos últimos 25 anos.

Hoje: o que já é fato

A família de Alex Zanardi confirmou sua morte na manhã de sábado, 2 de maio de 2026, em comunicado oficial:

"Com profundo pesar, a família anuncia o falecimento repentino de Alessandro Zanardi na noite de ontem, 1 de maio. Alex faleceu em paz, cercado pelo amor de seus entes queridos."
Nascido em Bolonha em 23 de outubro de 1966, Zanardi completaria 60 anos em outubro deste ano. O comunicado pediu respeito à dor e à privacidade da família durante o período de luto.

A ironia calendárica é difícil de ignorar com elegância: Zanardi morreu em 1º de maio — a mesma data que, em 1994, levou Ayrton Senna no Autódromo de Imola. O automobilismo tem um relacionamento complicado com essa data. Decidiu.

Na análise do SportNavo, a trajetória de Zanardi é única na história do esporte motorizado precisamente porque ele construiu dois currículos paralelos e igualmente respeitáveis: um como piloto profissional de alto nível, outro como atleta paralímpico de elite. Poucos nomes no esporte mundial conseguem sustentar essa dualidade com dados concretos em ambas as colunas.

Esta semana: o que se desdobra

Para compreender a dimensão do que se perdeu, é preciso remontar ao percurso técnico de Zanardi ao volante. Ele chegou à Fórmula 1 em 1991 pela Jordan e disputou 44 Grandes Prêmios ao longo de quatro temporadas — passando ainda por Minardi, Lotus e Williams até 1999. Os números na categoria máxima nunca foram extraordinários, mas a transição para a CART norte-americana revelou um piloto de categoria diferente: bicampeão em 1997 e 1998, com 15 vitórias na categoria e uma agressividade ofensiva nas ultrapassagens que o tornavam um produto de TV por si só.

O circuito alemão de Lausitzring foi o ponto de inflexão. Em 15 de setembro de 2001, durante uma saída dos boxes, Zanardi perdeu o controle do carro, que foi cortado ao meio pelo impacto de outro veículo a alta velocidade. Internado em Berlim em coma induzido, sobreviveu à amputação de ambas as pernas — uma intervenção cirúrgica de emergência que os médicos descreveram como a única alternativa viável para salvar sua vida. A recuperação levou meses. O retorno às pistas, surpreendentemente, levou menos de dois anos.

"Não vim aqui para fazer turismo"
— era o espírito implícito em cada aparição pública de Zanardi após o acidente, mesmo que a frase em si fosse paráfrase de sua postura documentada em diversas entrevistas ao longo dos anos 2000. Em 19 de outubro de 2003, ele voltou a Monza ao volante de um BMW adaptado no Campeonato Europeu de Turismo, competindo na categoria com modificações nos pedais até 2009 no Mundial de Turismo com um BMW 320.

Próximas 4 semanas: o que vai mudar

O legado imediato de Zanardi será sentido nos dois mundos que ele habitou. No calendário paralímpico, seu nome está associado diretamente à modalidade de handbike — o ciclismo de propulsão manual — que ele ajudou a projetar globalmente. Em 2011, venceu a Maratona de Nova York na categoria, estabelecendo um novo recorde da prova. Um ano depois, nos Jogos Paralímpicos de Londres 2012, conquistou duas medalhas de ouro. Em 2016, no Rio de Janeiro, somou mais um ouro, totalizando quatro medalhas douradas paralímpicas ao longo de sua carreira.

O levantamento do SportNavo mostra que o impacto de Zanardi sobre a visibilidade do esporte paralímpico italiano é comparável, em termos de audiência e patrocínio, ao que Valentino Rossi representou para o motociclismo na mesma época — dois atletas que transformaram suas modalidades em entretenimento de massa. A diferença é que Zanardi fez isso duas vezes, em esportes diferentes, separados por uma cirurgia de amputação dupla.

Nos próximos 30 dias, o Comitê Paralímpico Internacional e a FIA devem emitir notas oficiais de homenagem. O GP da Emilia-Romagna de Fórmula 1, programado para o final de maio em Imola, terá pressão natural para algum gesto simbólico — dado que a corrida acontece na região onde Zanardi nasceu, Bolonha, a menos de 40 km do autódromo. A Itália, que já perdeu Senna como ídolo adotado em 1994, despede-se agora de um dos seus próprios com um currículo esportivo que nenhum roteirista teria coragem de inventar.