Quando o árbitro apitou o fim do jogo no City Ground na última quinta-feira (30), o silêncio durou apenas um segundo — o tempo que a torcida do Nottingham Forest precisou para processar o que acabara de acontecer. 1 a 0 sobre o Aston Villa na semifinal da Liga Europa. Um resultado que, três meses atrás, soaria como ficção científica para qualquer torcedor do clube de Nottingham.
O homem que chegou na tempestade
Fevereiro de 2025. O City Ground respirava tensão. O Forest havia demitido três técnicos em uma única temporada — Nuno Espírito Santo, Ange Postecoglou e Sean Dyche — e ocupava a 17ª posição da Premier League, apenas três pontos acima da zona de rebaixamento. Foi nesse cenário de urgência que Vítor Pereira desembarcou na Inglaterra, no dia 15 daquele mês, com a missão mais ingrata do futebol inglês: salvar o que parecia estar afundando.
O técnico português não chegou prometendo revolucionar. A primeira fala nos bastidores, segundo apuração do SportNavo, foi direta e sem ornamentos: o foco imediato era organização defensiva e identidade coletiva. Nada de experimentos. O elenco já existia — faltava estrutura para usá-lo.
Da UTI à semifinal europeia
O calor tático que Vítor Pereira trouxe ao vestiário começou a aparecer nos números. Em 15 jogos sob seu comando, o Forest registrou sete vitórias, quatro empates e quatro derrotas. Isoladamente, os números são modestos. Mas o contexto transforma tudo. O clube passou a vencer onde não deveria: 3 a 0 sobre o Tottenham em Londres, empate por 2 a 2 no Etihad contra o Manchester City e uma goleada de 5 a 0 sobre o Sunderland fora de casa formam um retrato de uma equipe que encontrou seu eixo.
Na Premier League, o time subiu para o 16º lugar, agora com cinco pontos de vantagem sobre a zona de rebaixamento e quatro rodadas pela frente. A margem ainda é fina, mas a curva ascendente é inegável.
Na Europa, a campanha ganhou corpo próprio. O Forest eliminou o Fenerbahçe na fase inicial do mata-mata, passou pelo Midtjylland nos pênaltis e despachou o Porto nas quartas de final — clube pelo qual o próprio Vítor Pereira nutria relação de respeito histórico. Agora, com a vantagem conquistada diante do Aston Villa, o clube enxerga algo que não sentia desde 1980: a possibilidade real de erguer um troféu internacional.
A lógica tática por trás da virada
A base do trabalho de Vítor Pereira tem sido um 4-2-3-1, com Ibrahim Sangare e Elliot Anderson como dupla de meio-campo responsável pela saída de bola. A proposta não é dominar a posse pelo domínio em si — é controlar transições, dar linhas claras de progressão e eliminar o jogo direto sem critério que marcava a equipe nos meses anteriores. O Forest que Vítor Pereira encontrou defendia baixo por necessidade e era desorganizado por hábito. O que ele trouxe foi precisamente o oposto: disciplina posicional e critério ofensivo.
A análise exclusiva do SportNavo sobre os jogos do Forest desde fevereiro mostra que o time reduziu em mais de 30% os erros de saída de bola em relação ao período anterior à chegada do português — um dado que explica, em parte, a solidez defensiva que permitiu o 1 a 0 sobre o Villa sem sustos no segundo tempo.
"Arrumar a casa antes de encantar" — essa expressão circulou nos bastidores do City Ground nas primeiras semanas de Vítor Pereira, segundo relatos do entorno do clube, sintetizando a filosofia do treinador para reconstruir o time.
Um troféu que o Forest não conquista há 45 anos
O Nottingham Forest não levanta um título europeu desde o bicampeonato da Champions League em 1979 e 1980. São 45 anos de espera. A geração atual de torcedores, em sua maioria, nunca viu o clube erguer uma taça continental. A semifinal da Liga Europa é o ponto mais próximo que o Forest chegou desse sonho em décadas.
O segundo jogo da semifinal contra o Aston Villa acontece na próxima semana, em Birmingham, no Villa Park. O Forest joga com a vantagem do 1 a 0 e precisa apenas evitar ser eliminado por dois gols de diferença para chegar à final. Vítor Pereira, o português que chegou para apagar um incêndio, agora segura nas mãos a possibilidade de reescrever a história de um clube que o futebol inglês havia quase esquecido.









