Confesso: eu errei quando disse, em 2024, que o UFC havia abandonado definitivamente o Brasil como praça de eventos. Achei que o silêncio de três anos sem um card em solo brasileiro era uma sentença — e não era. A declaração de Charles Oliveira nos bastidores do UFC 328 me obrigou a rever essa leitura.
Do Bronx afirmou, em entrevista após o evento, que o UFC pode retornar ao Brasil ainda em 2026. Não foi uma frase solta. Foi uma afirmação com o peso de quem dialoga diretamente com a organização e conhece os bastidores melhor do que qualquer analista externo.
O que Oliveira disse e por que merece atenção
A declaração de Oliveira não foi um desejo vago de torcedor. Nos bastidores do UFC 328, o peso-leve brasileiro sinalizou que conversas internas apontam para um possível retorno da organização ao país ainda no segundo semestre de 2026. Nas palavras do próprio lutador, há uma expectativa concreta de que o anúncio aconteça em breve.
"O Brasil merece um evento, e as conversas estão acontecendo. Tenho esperança de que isso vai acontecer ainda esse ano", disse Oliveira na zona mista do UFC 328.
Oliveira tem 34 anos, mora no Brasil, treina no Brasil e tem um interesse direto nisso — seja como headliner de um possível card nacional, seja como embaixador da marca. Quando ele fala que há movimentação real, não dá para descartar.
O histórico do UFC no Brasil e o peso de uma ausência prolongada
O UFC realizou seu primeiro evento no Brasil em outubro de 1994, no Rio de Janeiro — foi o UFC 4, com Royce Gracie vencendo o torneio. De lá para cá, o país se tornou uma das praças mais lucrativas da organização. Entre 2011 e 2019, foram realizados mais de 20 eventos em solo brasileiro, com cards em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte e Curitiba.
O UFC Fight Night 237, realizado em outubro de 2023 em São Paulo, foi o último evento da organização no Brasil até agora. Naquele card, Maurício Shogun se despediu do MMA diante de mais de 15 mil pessoas no Ginásio do Ibirapuera. Desde então, passaram-se mais de dois anos sem um card em território nacional — a maior lacuna desde o início da era de expansão do UFC no país.

Para efeito de comparação, nos anos 90, quando o UFC ainda engatinhava nos Estados Unidos, o Brasil já lotava ginásios para eventos de vale-tudo. O Pride FC, que competia diretamente com o UFC na época, realizou seu único evento no Brasil em 2005 com 16 mil pessoas no Ginásio do Maracanãzinho. A demanda sempre existiu. O que muda é a equação comercial.
Quais fatores vão definir se o evento acontece em 2026
O UFC não é filantropia. A decisão de trazer um card ao Brasil depende de três variáveis objetivas: patrocínio local, capacidade de venda de ingressos e a força do card principal para justificar a operação logística.
No lado positivo, o Brasil tem hoje pelo menos oito lutadores no top-15 de suas divisões, o maior número desde 2016. Alexandre Pantoja é campeão dos moscas, Renato Moicano está no top-5 dos leves, e o próprio Oliveira permanece entre os cinco melhores da divisão. Um card com dois ou três brasileiros em lutas de alto nível preenche o requisito de torcida facilmente.
O mercado de patrocínio, entretanto, é o ponto de atenção. Em 2023, o UFC enfrentou dificuldades para fechar cotas de naming rights para o evento de São Paulo — o card foi anunciado com menos de 60 dias de antecedência, o que limitou a janela comercial. Se a organização quiser repetir em 2026, precisa anunciar com pelo menos quatro meses de antecedência para viabilizar o pipeline de patrocinadores.
Há também a questão do local. São Paulo é a praça mais óbvia — o Allianz Parque comporta até 43 mil pessoas em configuração de arena e já recebeu eventos de grande porte. O Ginásio do Ibirapuera, com capacidade para 18 mil, é uma alternativa mais controlada e com histórico comprovado de operação para o UFC. Rio de Janeiro entrou no radar em 2025, mas a infraestrutura hoteleira e logística da cidade favorece São Paulo para um evento desse porte.
"São Paulo tem tudo para receber um grande evento. O torcedor brasileiro é apaixonado e sabe reconhecer uma boa luta", declarou Oliveira ao ser questionado sobre o possível local do card.
Se o evento sair, a luta principal quase se escreve sozinha. Oliveira como headliner em casa, disputando ou defendendo uma posição de top-3 nos leves, com Pantoja como co-main event nos moscas — esse card enche qualquer arena do país em menos de 48 horas de venda.
A janela mais provável no calendário é outubro de 2026. O segundo semestre do UFC costuma concentrar eventos internacionais fora dos Estados Unidos, e outubro historicamente foi o mês escolhido para os cards brasileiros — foi em outubro de 2011 que o UFC realizou seu primeiro evento moderno no Brasil, com Nogueira e Shogun no card principal, diante de 14 mil pessoas no HSBC Arena, no Rio de Janeiro.
O próximo passo concreto é o anúncio oficial da organização. Se a declaração de Oliveira reflete conversas reais com a cúpula do UFC, a confirmação deve vir até o final de julho — prazo mínimo para viabilizar a operação comercial de um card no Brasil ainda em 2026.








