É uma bomba-relógio guardada no vestiário. Robert Arboleda, 32 anos, zagueiro titular da seleção equatoriana e peça habitual da defesa tricolor por quase uma década, treina separado do grupo principal do São Paulo após sumir por cerca de um mês, descumprir prazo de reapresentação e ser multado pelo clube. A situação já seria grave em qualquer contexto. Numa semana em que o Tricolor demitiu Roger Machado depois de uma derrota por 3 a 1 para o Juventude que custou a vaga na Copa do Brasil, ela se torna o termômetro mais preciso da crise que consome o Morumbis por dentro.
O caso Arboleda antes mesmo de Dorival pisar no gramado
Antes de assinar o contrato — feito de forma eletrônica na manhã desta sexta-feira, 15 de maio — Dorival Júnior já havia pedido explicações sobre o equatoriano. No jantar de negócios realizado na noite de quinta-feira, em Florianópolis, com o diretor executivo Rui Costa e o coordenador técnico Rafinha, o treinador colocou o caso Arboleda na mesa como ponto de interesse, não de descarte. Segundo apuração do SportNavo com base em informações da ESPN, Dorival se colocou à disposição para recuperar o zagueiro — desde que o jogador desejasse voltar ao grupo.
Dorival se colocou à disposição para recuperar Arboleda, se o jogador assim desejar. O treinador prometeu conversar com o equatoriano sobre o tema.
A frase resume um método. Dorival não chegou ao Morumbi com um laudo disciplinar sobre o zagueiro. Chegou com uma pergunta. E essa distinção, aparentemente sutil, é o que separa um gestor de elenco de um simples escalador de times. Em sua segunda passagem pelo clube, entre abril de 2023 e janeiro de 2024, o treinador registrou 25 vitórias, 13 empates e 16 derrotas em 54 partidas — números que sozinhos não explicam o título inédito da Copa do Brasil conquistado sobre o Flamengo na final, após eliminar Palmeiras e Corinthians ao longo da campanha. O que explica é exatamente essa capacidade de reorganizar ambientes antes de reorganizar esquemas táticos.
O que Arboleda representa taticamente para o tricolor
Afastado do grupo principal, o defensor equatoriano é hoje um custo sem retorno: treina em separado, recebe salário, e sua situação contamina o cotidiano do elenco como o trânsito da Avenida Paulista às 18h contamina o humor de uma cidade inteira. A pressão sobre o São Paulo em 2026 não é apenas de resultados — é financeira, política e emocional ao mesmo tempo. O clube vive uma crise que Roger Machado, com apenas dois meses de trabalho, claramente não criou sozinho.
Na defesa, Arboleda acumula anos de experiência no sistema tricolor e conhece a estrutura do elenco como poucos. Zagueiro com saída de bola qualificada e liderança dentro da área, sua eventual reintegração resolveria um problema concreto: o São Paulo enfrenta o Fluminense neste sábado, 16, às 19h, no Maracanã, pela 16ª rodada do Brasileirão, e ainda tem pela frente Millonarios, pela Sul-Americana, em 19 de maio, e o Botafogo, em 23 de maio. Uma sequência pesada que exige profundidade no setor defensivo.
Ao longo de sua carreira, Dorival construiu títulos com elencos que incluíam peças em conflito com a instituição. No Flamengo, em 2022, conquistou a Libertadores e a Copa do Brasil num ambiente que era descrito pelos bastidores como politicamente explosivo. O histórico sugere que ele não teme a complexidade — desde que o jogador esteja disposto a ceder tanto quanto o treinador.
A decisão que o São Paulo precisa tomar antes de dezembro
O contrato de Dorival foi firmado até 31 de dezembro de 2026. O prazo curto não é apenas financeiro — há uma eleição presidencial no clube que paira sobre qualquer planejamento de médio prazo. O treinador, que chegou a pedir cerca de R$ 3 milhões mensais, aceitou reduzir a pedida para algo na casa dos R$ 2 milhões após deixar claro que queria voltar ao Tricolor mesmo tendo sondagens de clubes dispostos a pagar mais. Em contrapartida, recebeu garantias sobre reforços na próxima janela e sobre o projeto esportivo do segundo semestre.
Dorival entra para um grupo seleto na história do clube: ao lado de Vicente Feola, Jose Poy e Muricy Ramalho, é um dos poucos técnicos com ao menos três passagens pelo Morumbi. Seus números acumulados já somam 92 jogos pelo Tricolor — 42 vitórias, 22 empates e 28 derrotas. A comissão técnica que retorna com ele inclui os auxiliares Lucas Silvestre e Pedro Sotero e os analistas Guilherme Lyra e João Marcos Soares, o que garante continuidade de método num momento em que o elenco precisa de estabilidade mais do que de inovação.
A questão Arboleda, portanto, não é uma distração periférica. É o primeiro teste prático do método Dorival nesta terceira passagem. Se o zagueiro aceitar a conversa, a reintegração dependerá do que ele próprio demonstrar dentro de campo nos treinos — o treinador não sinalizou perdão automático, mas tampouco fechou a porta. Se a separação for definitiva, o São Paulo precisará resolver o setor defensivo na janela de transferências com o mercado já em funcionamento. A resposta a essa equação chegará antes do que parece: a reapresentação do elenco, prevista para a semana que vem, já colocará os dois lados face a face.









