A câmera ainda estava enquadrando o canal Gowanus quando a plateia de Cannes já entendia que algo diferente estava acontecendo na tela. Paper Tiger, de James Gray, estreou na competição principal do Festival de Cannes em 16 de maio de 2026 — e saiu de lá com o tipo de recepção crítica que, nos últimos anos, só filmes como Anatomia de uma Queda conseguiram provocar antes de levar o prêmio máximo.

Gray no Queens de 1986 — e por que o cenário importa

Ambientado no Queens em 1986, o filme acompanha dois irmãos — Irwin Pearl, engenheiro de classe média interpretado por Miles Teller, e Gary Pearl, ex-policial vivido por Adam Driver — que se enredam num esquema envolvendo empresários russos e a limpeza do canal Gowanus, em Brooklyn. A premissa soa simples. A execução não é. Gray constrói a tensão com uma paleta de ocres e marrons que parecem eternamente presos numa tarde de outono — o mesmo código visual que ele usou em Era uma vez em Nova York (2013) e Os donos da noite (2007), filmes que também passaram por Cannes sem ganhar o prêmio principal.

Esse é o sexto trabalho de Gray na competição oficial do festival. Seis participações, zero Palmas. O número, sozinho, já cria uma narrativa de dívida histórica que a crítica especializada não ignora. A Deadline foi direta: "Paper Tiger might just change that — big time. He is long overdue." Não é elogio de cortesia. É reconhecimento de padrão.

Driver, Johansson e Teller — três pesos pesados num único ringue

A força do elenco é o argumento mais imediato para colocar Paper Tiger no topo da lista de favoritos. Adam Driver constrói Gary Pearl como um homem que vende sonhos com a naturalidade de quem nunca foi cobrado por nenhum deles — carismático, roguish, perigoso na exata medida em que parece inofensivo. Miles Teller entrega o contraponto: Irwin é o tipo de homem que trabalha duro, paga as contas e acredita que isso basta, até o momento em que percebe que não basta.

Scarlett Johansson, como Hester Pearl, usa óculos e cabelo frisado que, segundo o The Guardian, a fazem parecer "one of the Golden Girls" — e ainda assim carrega cada cena com uma autoridade que poucos atores conseguem sem forçar o tom. A própria Johansson, em entrevista ao The Hollywood Reporter antes da estreia na Croisette, admitiu que queria ter tido mais tempo de tela com Driver:

"I would've loved to have had even more scenework with him, I love working with him."
Os dois se reencontraram pela primeira vez em sete anos depois de Marriage Story (2019), de Noah Baumbach — e a química construída naquele filme claramente não evaporou.

Sobre Miles Teller, Johansson revelou um detalhe que diz muito sobre o clima do set: quando ela precisou sair por algumas semanas para a divulgação de outro projeto, Teller fotografava a estação de maquiagem dela e mandava a foto com a mensagem "Where's Hester?". Esse nível de comprometimento com o personagem aparece na tela.

O que a crítica viu que os números ainda não mostram

A Vanity Fair, que teve acesso exclusivo ao filme antes da estreia, descreveu Paper Tiger como algo que o diretor queria tornar "slightly more operatic, slightly more rooted in melodrama, Hitchcockian, suspense, drama — a little more heightened" do que seu trabalho anterior, Armageddon Time (2022). Gray disse isso em entrevista à publicação — e entregou exatamente o que prometeu.

A Variety apontou que o filme "follows you home", criando uma ansiedade que não se dissolve com os créditos. Essa característica — a de um thriller que funciona como experiência emocional prolongada — é exatamente o que o júri de Cannes costuma premiar. Não é entretenimento que se consome e esquece. É cinema que instala um desconforto.

Na avaliação do SportNavo, o conjunto de elementos que Paper Tiger reúne — diretor com histórico comprovado no festival, elenco de peso com química demonstrada em trabalhos anteriores, narrativa que equilibra tensão de gênero com profundidade emocional — forma um argumento difícil de ignorar quando o júri se reunir para deliberar.

A conexão brasileira e o peso da distribuidora Neon

Há um dado que poucos destacaram fora do Brasil: se Paper Tiger vencer a Palma de Ouro, a conquista terá também uma assinatura brasileira. Rodrigo Teixeira, indicado ao Oscar de 2025 por Ainda Estou Aqui, é um dos produtores do filme — e já trabalhou com Gray em produções anteriores. A parceria não é nova, o que significa que o produto final carrega uma consistência de visão que projetos com produtores novos raramente conseguem.

A distribuidora Neon, responsável pelo lançamento do filme, tem um histórico recente que também pesa na análise. Nos últimos seis anos, a empresa lançou vencedores da Palma de Ouro em sequência — incluindo Valor Sentimental e O Agente Secreto, ambos de 2025. Quando a Neon entra numa competição de Cannes, o mercado presta atenção.

A cerimônia de encerramento do Festival de Cannes 2026 acontece em 23 de maio — Gray tem uma semana para que o peso das críticas e o boca a boca entre os membros do júri façam o trabalho que seis participações anteriores não conseguiram. O filme está pronto. Falta o palco confirmar o que a Croisette já sabe.