"O maior atleta na fase com quem eu trabalhei foi ele." A frase é de Tite — e foi dita em 2026, não em 2022. O ex-técnico da Seleção Brasileira, responsável por duas campanhas mundialistas à frente da Amarelinha, escolheu enaltecer Neymar com a intensidade de quem guarda uma convicção profunda. O problema é que elogio não é convocação, e a Copa do Mundo começa em poucas semanas.

Os números de Neymar no Santos pedem passagem ou pedem paciência

Na temporada 2025/2026, o camisa 10 do Santos acumula 12 gols e 8 assistências — 20 participações diretas em gols num único ciclo. Para um atleta que passou os últimos três anos alternando entre cirurgias, reabilitações e aparições esparsas, isso representa uma retomada estatística inegável. A título de comparação, Neymar teve 13 gols em toda a temporada 2022/2023 pelo Al-Hilal antes de se machucar gravemente no joelho. Ou seja: ele já igualou em volume o que fez num clube bilionário da Arábia Saudita, agora jogando no Brasil, com exposição física diferente e calendário mais denso.

Mas há uma diferença que a análise do SportNavo precisa marcar com clareza: gols no Brasileirão e gols em Copa do Mundo são universos separados por uma distância que vai muito além de quilômetros — algo como a distância entre Manaus e Salvador, mais de 2.700 km de realidade completamente diferente. O nível de pressão, a intensidade física das partidas e o tempo de recuperação entre jogos no torneio são variáveis que 12 gols em campeonato nacional não respondem sozinhos.

Tite elogia, mas a esquiva diz mais do que as palavras

Quando perguntado diretamente sobre levar Neymar à Copa, Tite foi cirúrgico na evasão. "Essa análise é daquela decisão final do técnico", disse ele, lembrando que quem bate o martelo agora é Carlo Ancelotti. Mas o ex-treinador foi além ao reconhecer publicamente o erro de 2022: "Todas as críticas que foram feitas ao Neymar não ser o primeiro [batedor de pênalti] estão corretas. Eu errei." Na eliminação para a Croácia nas quartas de final daquela Copa, Neymar sequer chegou a cobrar — Rodrygo e Marquinhos desperdiçaram antes dele.

"Ele fez coisas impressionantes. A capacidade criativa… Ele tem visão de 270 graus. Escaneia tudo à volta e, de repente, te deixa na cara do gol. Ele é diferente." — Tite, em entrevista ao portal ge

O elogio é poético e genuíno. Mas o que Tite descreveu é o Neymar que ele conheceu — um atleta em plena potência física, com mobilidade e explosão que uma ruptura de ligamento cruzado inevitavelmente compromete em algum grau. A questão que Ancelotti vai precisar responder até 18 de maio, quando divulga a lista, é se o Neymar de 2026 ainda sustenta aquela descrição por 90 minutos num jogo eliminatório… e aí vem o problema.

Beting vê semifinal, não hexa — e isso muda o peso da convocação

O jornalista Mauro Beting, que cobrirá a Copa do Mundo pelo SBT e N Sports, foi direto ao declarar que não acredita no título brasileiro. Para ele, a Espanha de Lamine Yamal é a grande favorita, e o Brasil tem condições de chegar à semifinal — não mais do que isso. "O Brasil vai fazer uma Copa do Mundo boa, para muitos surpreendente. Tem potencial para ir até a semifinal", palpitou o comentarista, pontuando os desfalques de Estêvão e Militão como variáveis que pesam contra a Seleção.

"Acho que a Espanha vai ganhar de Portugal e vai ser bicampeã. Mas sim, o futebol é cada vez mais do coletivo do que das individualidades como Maradona em 1986 e Garrincha em 1962." — Mauro Beting, ao Lance!

A leitura de Beting tem uma consequência direta para o debate sobre Neymar: se o Brasil não é favorito ao título e precisa de um coletivo funcional para surpreender, a convocação de um jogador com histórico recente de fragilidade física se torna um cálculo de risco ainda mais delicado. Escalar Neymar como protagonista num esquema de Copa exige que ele suporte no mínimo quatro jogos em sequência — algo que ele não fez de forma contínua desde 2023.

Há, contudo, um argumento que os números do Santos sustentam com força: Neymar não está sendo convocado para ser o Neymar de 2014 ou de 2018. A função pode ser outra — a de um jogador capaz de decidir 20 minutos de um jogo travado, de converter um pênalti decisivo ou de criar o espaço que Vinicius Jr. e Rodrygo precisam para respirar. Com 8 assistências na temporada, ele demonstra que a visão de jogo que Tite descreveu como "270 graus" ainda está operacional.

Os números de Neymar no Santos pedem passagem ou pedem paciência O que os 12 gol
Os números de Neymar no Santos pedem passagem ou pedem paciência O que os 12 gol

A lista de Ancelotti será divulgada em 18 de maio, e o Brasil estreia na Copa do Mundo no grupo que inclui adversários a definir. Se Neymar estiver nela, os 12 gols e 8 assistências serão citados como prova de recuperação. Se não estiver, serão lembrados como números insuficientes diante de um contexto físico ainda incerto. O técnico italiano, que nunca trabalhou com Neymar em clube, terá de tomar essa decisão com base em dados de preparação física que o público ainda não viu — e essa é a variável que nenhuma estatística do Brasileirão resolve.