Diz-se que Abel Ferreira construiu o padrão de invencibilidade mais difícil de bater na Libertadores entre times brasileiros. Com 17 jogos sem derrota pelo Corinthians... — espera, não. O recorde era do Fluminense, do Palmeiras, de outros tantos. Na verdade, nenhum técnico brasileiro havia chegado a 18. Até quarta-feira passada. E o motivo importa.
O empate do Corinthians diante do Santa Fe, na Colômbia, fechou o número: 18 partidas consecutivas sem derrota na Libertadores para Fernando Diniz. São 14 jogos pelo Fluminense — entre o título de 2023 e a fase de grupos de 2024 — mais 4 pelo Timão em 2026. O treinador superou Abel Ferreira, que havia chegado a 17 partidas invicto pelo Palmeiras entre as edições 2023 e 2024, segundo dados da plataforma Superscore.
Como Abel chegou a 17 — e por que Diniz foi além
Abel Ferreira acumulou, na verdade, três sequências distintas de invencibilidade pela Libertadores com o Palmeiras: 16 jogos entre 2021 e 2022, logo ao chegar ao clube; 17 entre 2023 e 2024; e mais 11 confrontos entre 2024 e 2025, sequência interrompida pelo vice-campeonato contra o Flamengo no ano passado. São números que deixam qualquer analista de dados respeitoso.
Diniz, por sua vez, construiu a marca de forma diferente — atravessando dois clubes, dois contextos táticos e três anos de competição. Reparemos no detalhe: a invencibilidade não se concentrou em uma única campanha avassaladora. Ela sobreviveu a uma troca de clube, algo que raramente acontece com marcas desse tipo.
O modelo tático que sustenta a sequência de Diniz
O futebol de Diniz é reconhecível por métricas específicas. No Fluminense campeão de 2023, o time apresentava um dos maiores índices de progressive passes da competição — passes que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário. O modelo pressupõe circulação intensa e linhas de passe trianguladas, o que naturalmente aumenta o xG (expected goals) criado por sequências de trocas curtas.
- PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva): times de Diniz tendem a pressionar alto e reduzir o PPDA adversário, forçando erros no campo de construção do oponente — quanto menor o número, mais intensa a pressão aplicada.
- xA (expected assists): a criatividade das jogadas combinadas gera muitas assistências esperadas mesmo quando a bola não entra, o que explica a consistência ofensiva sem depender de um único finalizador.
- Defensive actions no terço médio: o modelo de Diniz busca recuperar a bola longe do próprio gol, reduzindo a exposição defensiva mesmo em momentos de pressão adversária.
No Corinthians de 2026, a identidade ainda está em construção — quatro jogos é uma amostra pequena —, mas o time lidera o grupo com 10 pontos em 4 partidas, à frente do Santa Fe (7 pontos), Platense e Peñarol (3 cada). A vaga nas oitavas já está garantida, com duas rodadas ainda por disputar.

Diniz entre os maiores da história do torneio
A lista dos técnicos brasileiros com maiores sequências invictas na Libertadores, segundo a apuração do SportNavo com base nos dados da Superscore, coloca Diniz em uma companhia de peso. Tite aparece com 16 partidas sem derrota entre 2011 e o título do Corinthians em 2012. Felipão, Rogério Ceni, Luxemburgo, Telê Santana e Muricy Ramalho também figuram entre os nomes históricos do ranking.
"O empate garantiu a classificação do Timão para as oitavas de final da Libertadores e estabeleceu uma marca histórica", registrou a plataforma Superscore ao confirmar os 18 jogos de Diniz sem derrota no torneio.
A comparação com Tite é particularmente interessante. O gaúcho de Caxias do Sul construiu sua sequência em torno de um sistema mais vertical e físico, com Corinthians de 2012 apostando em transições rápidas e solidez defensiva. Diniz, ao contrário, constrói pela posse e pela pressão alta — estilos opostos, resultado idêntico em termos de invencibilidade.
O que vem pela frente no mata-mata da Libertadores
Com a classificação antecipada, Diniz tem a possibilidade rara de usar as duas rodadas finais da fase de grupos para testar variações táticas e poupar jogadores antes das oitavas. O Corinthians foi o primeiro time brasileiro a garantir vaga no mata-mata desta edição — vantagem logística e psicológica considerável.
O adversário nas oitavas ainda não está definido, mas a liderança do grupo coloca o Timão em posição favorável no chaveamento. Se a sequência de 18 jogos vai continuar crescendo, depende de como Diniz vai adaptar o modelo de jogo à intensidade do mata-mata continental. A história mostra que sequências longas raramente chegam a 25 sem algum ajuste no meio do caminho. O número a gravar agora é 18 — e o próximo adversário do Corinthians na Libertadores dirá se ele vira 19.









