Confesso: em 2022, escrevi que Neymar não resistiria ao peso emocional de mais uma Copa. Errei. Ele chegou ao Qatar com 30 gols em Copas — mais do que Ronaldo Fenômeno, Zico ou Romário — e só parou por conta de uma lesão no tornozelo direito sofrida na estreia contra a Sérvia, em 24 de novembro daquele ano. Hoje, diante de um novo capítulo que começa com um vídeo viral e termina com uma convocação para o que será o seu quarto e último Mundial, reconheço que a equação é mais complexa do que qualquer meme consegue capturar.

O vídeo de 30 segundos que resumiu 15 anos de escrutínio público

Na tarde de 18 de maio de 2026, quando Neymar acompanhava a lista de convocados de Carlo Ancelotti em sua mansão em Santos, uma câmera captou o momento em que Bruna Biancardi tentou se aproximar do marido para comemorar. A cena, que circulou rapidamente pelas páginas de fofoca — especialmente pelo perfil @gossipdodia no Instagram —, foi lida por parte dos internautas como frieza ou indiferença. "Ela quase implorando um abraço", escreveu um usuário. "Ele se abraçando", ironizou outro.

O que o vídeo não mostrou foi o que veio logo depois: Neymar abraçou o fisioterapeuta Rafael Martini e o preparador físico Ricardo Rosa — profissionais que trabalham com ele desde os tempos de Santos, há mais de uma década — e chorou. "Eu que tenho que te agradecer", disse ele, em prantos, ao preparador físico. A sequência emocional completa, publicada pelo próprio atacante em seu canal no YouTube no dia seguinte, oferece um contexto radicalmente diferente do recorte que viralizou.

Biancardi, por sua vez, usou o Instagram para responder às críticas com um desabafo que vale como documento afetivo:

"Amor, eu vi e vivi com você os dias difíceis, o cansaço escondido atrás do seu sorriso, as dores que você suportou em silêncio e no nosso quarto, as renúncias que você fez, vi você continuar quando estava cansado... mesmo quando desistir parecia mais fácil."
O texto não é de uma mulher que implora atenção — é de alguém que conhece de perto o custo físico e psicológico de uma carreira que, em 2026, ainda não terminou.

Cada Copa de Neymar teve sua polêmica antes do primeiro apito

A Copa do Mundo de 2014, disputada em casa, começou com Neymar sendo o centro gravitacional de um país inteiro — e terminou com ele de maca, chorando, após a fratura da terceira vértebra lombar sofrida no duelo contra a Colômbia, em 4 de julho, nas quartas de final. Antes disso, porém, a imprensa já debatia sua vida noturna, sua relação com patrocinadores e seu comportamento nas redes sociais. O Brasil marcou 7 gols nos quatro jogos em que ele atuou e apenas 1 nos dois seguintes, sem ele.

Em 2018, na Rússia, a polêmica pré-Copa foi protagonizada pelas simulações de quedas — o chamado "choro no chão" — que renderam edições em vídeo e manchetes internacionais. Ainda assim, Neymar terminou o torneio como artilheiro da Seleção Brasileira naquela edição, com 2 gols em 5 jogos, antes da eliminação para a Bélgica por 2 a 1 nas quartas. No Qatar, em 2022, a polêmica pré-torneio foi sua ida a uma festa em Paris dias antes da convocação. Ele marcou 3 gols em 4 partidas antes da lesão no tornozelo.

O padrão é a própria polêmica: em cada edição, uma narrativa extracampo domina o noticiário antes do torneio, e em cada edição, Neymar produz dentro de campo o suficiente para que o debate seja reaberto. Seus 79 gols em 125 partidas pela Seleção — marca que o torna o maior artilheiro da história do futebol masculino brasileiro em jogos oficiais — não existem apesar das polêmicas, mas em paralelo a elas.

A síntese que o debate nas redes nunca alcança

A interpretação dominante sobre Neymar é conhecida: talento desperdiçado por comportamento irresponsável, figura que prioriza a imagem pessoal em detrimento do coletivo. Essa leitura tem sustentação factual — a lesão no ligamento cruzado anterior e no menisco do joelho direito, sofrida em outubro de 2023, foi seguida por um período de recuperação lento, com aparições em eventos sociais que alimentaram a crítica de que ele não estava comprometido com a volta ao futebol.

A contra-leitura, igualmente documentada, é que nenhum jogador brasileiro chegou a quatro Copas do Mundo com a carga de expectativa que Neymar carrega desde os 22 anos. Para efeito de comparação histórica: Pelé disputou três Copas (1958, 1962, 1966 e 1970), mas teve o peso do status de maior jogador do mundo distribuído ao longo de mais de uma década. Neymar foi declarado o herdeiro de Pelé antes de completar 25 anos, e nunca saiu desse papel.

Gabigol, que acompanhou a convocação ao lado do ídolo em Santos — os dois atuam juntos no clube desde o início de 2026 —, resumiu o que muitos técnicos e companheiros de Seleção repetem em privado:

"Eu te amo. Você merece. Não é por nome. Você merece."
A frase de Gabigol não é bajulação de vestiário. É o reconhecimento de que Neymar retornou ao Santos, trabalhou com os mesmos profissionais que o acompanham desde a adolescência — Martini e Rosa —, e se colocou em condições físicas de ser convocado por Ancelotti para um torneio que começa em junho de 2026 nos Estados Unidos, México e Canadá.

A síntese honesta é esta: Neymar não é vítima das redes sociais, mas também não é o vilão que os memes constroem. Ele é um atleta de 34 anos, com 79 gols oficiais pela Seleção, que chega à sua última Copa carregando o peso de um país que quer o hexa e a leveza de quem, segundo suas próprias palavras ao ser convocado, viveu cada renúncia em silêncio. O vídeo de 30 segundos com Bruna Biancardi não define nenhum dos dois lados dessa equação — e a Copa começa com o Brasil estreando no Grupo D em 14 de junho de 2026, contra o México, em Los Angeles, jogo em que Neymar poderá responder a todas as interpretações com aquilo que sempre soube fazer: jogar bola.