O choro de Neymar quando ouviu seu nome na lista de Carlo Ancelotti, nesta segunda-feira (18), parou o centro do Rio de Janeiro. Na plateia do Museu do Amanhã, havia quem gritasse como em 2014 e quem torcesse o nariz como em 2023. Essa ambiguidade resume o maior dilema tático da Copa do Mundo 2026: como encaixar o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira em um esquema que, na prática, já funciona sem ele?
O que Ancelotti disse e o que os números revelam
Ancelotti foi deliberadamente ambíguo na coletiva pós-convocação — e a ambiguidade foi estratégica.
"Escolhemos o Neymar não porque pensamos que vai ser um bom reserva, mas porque pode agregar com suas qualidades à equipe. Que jogue um minuto, cinco minutos, que não jogue, que jogue 90 minutos. Quantos minutos? Não sei. Qualidade de minutos? Creio que temos que focar na qualidade dos minutos, de maneira coletiva no campo", afirmou o italiano.Mas, em ligação feita na última quinta-feira (15), Ancelotti e o diretor Rodrigo Caetano foram diretos com o atacante do Santos: a base do time não inclui seu nome. A conversa existiu porque havia preocupação real com o estado psicológico de Neymar — um episódio em que ele agrediu o companheiro de clube Robinho Jr. havia chegado à CBF de forma negativa.
Os dados físicos enviados pelo Santos à comissão técnica sinalizaram condição mínima para o Mundial, mas um edema na panturrilha direita, sofrido na derrota por 3 a 0 para o Coritiba no último domingo (17), forçou a decisão de preservá-lo completamente até 27 de maio, data de apresentação na Granja Comary. Neymar não jogará mais pelo Santos antes da Copa — ficará fora das partidas contra San Lorenzo (20/5), Grêmio (23/5), Deportivo Cuenca (26/5) e Vitória (30/5).
Vini Jr., Rodrygo e Endrick formam um trio que não precisa de tutela
Rodrygo e Endrick — este emprestado ao Lyon pelo Real Madrid até meados deste ano — chegam à Copa do Mundo com a autoridade de quem disputa Champions League toda temporada. Vini Jr., com 24 anos, é o jogador mais temido da Europa. Rodrygo, 24, opera como segundo atacante ou ponta direita com desenvoltura. Endrick, 18, já declarou que quer explorar "o melhor de cada um" ao lado de Neymar, mas a realidade é que o jovem atacante é apontado como candidato a titular durante a preparação — e não como substituto do veterano.
A matemática é implacável: Ancelotti tem pelo menos seis atacantes para três vagas — Vini Jr., Rodrygo, Endrick, Raphinha, Luiz Henrique, Gabriel Martinelli e Matheus Cunha, além de Neymar. O esquema preferido do italiano no Real Madrid era o 4-3-3, com dois pontas abertos e um centroavante. Neymar, que rendeu melhor centralizado nas últimas temporadas — como o próprio Ancelotti sinalizou na entrevista —, não tem posição garantida em nenhuma das três vagas desse sistema. Raphinha, 29, e Vini Jr. dominam as pontas há mais de dois anos. Rodrygo atua como meia-atacante ou segundo homem de ataque com naturalidade que Neymar, em sua condição física atual, não consegue replicar.
Para ter uma referência histórica: Neymar chega à estreia contra Marrocos, no MetLife Stadium em Nova Jersey no dia 13 de junho, com 34 anos e 128 dias — superando Bebeto, que disputou seu último Mundial, na França em 1998, com 34 anos e 114 dias. Bebeto, sexto maior artilheiro da Seleção com 39 gols, era titular incontestável naquele torneio. Neymar, com 79 gols — dois a mais que Pelé —, chega como dúvida na escalação. A média de idade dos outros nove maiores artilheiros históricos do Brasil quando se despediram dos Mundiais é de apenas 29,6 anos.
O precedente de Zico em 1986 e o que falta resolver antes de 13 de junho
A história do futebol brasileiro tem exemplos de craques que serviram à Seleção em papéis reduzidos no ocaso da carreira — com resultados variados. Zico disputou a Copa de 1986, no México, com 33 anos, marcou 48 gols com a camisa amarela ao longo da carreira e foi figura central mesmo sem o mesmo fôlego físico de outrora. Mas Zico chegou ao México com regularidade de jogos, algo que Neymar — que tratou um edema e ficará parado por ao menos dez dias — não tem. Ronaldo Fenômeno, por comparação, ficou fora da lista de 2010 por problemas físicos semelhantes, mesmo tendo recuperado algum nível com o Corinthians naquele ano.
Na avaliação do SportNavo, o dilema de Ancelotti é menos tático do que gerencial. O italiano — único treinador da história a conquistar cinco títulos de Champions League, duas com o Milan e três com o Real Madrid — sabe administrar egos de vestiário como poucos. Casemiro fez lobby pela convocação do amigo. Endrick sonha em jogar ao lado do ídolo. O grupo quer Neymar. Mas querer não é o mesmo que precisar, e Ancelotti deixou claro que os treinos na Granja Comary vão decidir a hierarquia:
"Quero ser claro, honesto e limpo: ele vai jogar se merecer jogar. O treino vai decidir isso. Acho importante não fixar toda a expectativa em cima de um só jogador", disse o técnico.
O que falta resolver até 13 de junho é exatamente isso: se Neymar — em 25 dias de preparação, sem jogos pelo Santos, com um edema em recuperação — consegue convencer Ancelotti nos treinos de que merece sair de campo antes do apito final do árbitro, e não depois. O Brasil estreia no MetLife Stadium, em Nova Jersey, às 19h (de Brasília), contra Marrocos, seleção que eliminou Portugal e Espanha na Copa do Mundo de 2022. A resposta sobre onde Neymar se encaixa neste time virá — ou não — bem antes disso, nas manhãs de treino em Teresópolis.









