O basquete mundial perdeu nesta sexta-feira (17) uma de suas figuras mais singulares. Oscar Schmidt, aos 68 anos, deixou um legado construído sobre uma decisão que o diferenciou de qualquer outro atleta da modalidade: recusar propostas milionárias da NBA para jamais abrir mão da camisa da Seleção Brasileira.
Em 1984, após uma campanha impressionante nos Jogos Olímpicos de Los Angeles - onde fez 169 pontos -, Schmidt foi selecionado por uma franquia da NBA. A oferta representava o sonho de qualquer jogador de basquete, mas esbarrou nas regras rígidas da época: quem jogasse na liga americana perderia automaticamente o direito de defender sua seleção nacional.
A escolha que definiu uma lenda
Para Oscar, não havia dilema. O potiguar de 1,98m já havia disputado Moscou-1980 e sabia exatamente o que significava vestir a amarelinha. Entre 1977 e 1996, defendeu o Brasil em 326 partidas oficiais, acumulando 7.693 pontos - marca que permanece inalcançada na história da modalidade.
A decisão de priorizar a seleção ganhou contornos épicos em 1987, durante os Jogos Pan-Americanos de Indianápolis. Na final contra os Estados Unidos, Schmidt fez 46 pontos na vitória brasileira por 120 a 115 - a primeira derrota dos americanos em casa na competição. Segundo levantamento do SportNavo, aquela partida se tornou o momento mais emblemático do basquete sul-americano.
"Ter curado o câncer para mim foi um negócio de outro planeta", afirmou Oscar em entrevista ao Alt Tabet, no Canal UOL, em 2024.
Recordes que transcendem gerações
A trajetória olímpica de Schmidt é única na história do esporte. Participou de cinco edições consecutivas - Moscou-1980, Los Angeles-1984, Seul-1988, Barcelona-1992 e Atlanta-1996 -, estabelecendo o recorde de 1.093 pontos que permanece intocável. Em Seul-1988, anotou 55 pontos contra a Espanha, marca individual que nenhum atleta conseguiu superar em Jogos Olímpicos.
Durante 25 temporadas como profissional, Oscar acumulou 49.703 pontos na carreira, superando Kareem Abdul-Jabbar como maior pontuador da história do basquete. Jogou 11 temporadas na Itália, onde foi eleito melhor jogador estrangeiro em 1985 pelo Gazzetta Dello Sport, antes de retornar ao Brasil em 1995 para defender Corinthians, Flamengo e outros clubes nacionais.
O impacto de uma decisão corajosa
A escolha de Oscar influenciou gerações inteiras de atletas brasileiros. Sua postura demonstrou que era possível construir uma carreira lendária priorizando a seleção nacional, mesmo abrindo mão de oportunidades financeiras incomparáveis. Em 2013, tornou-se o primeiro brasileiro a integrar o Hall da Fama do Basquete Americano, em Springfield.

O técnico Ary Vidal, responsável pela mudança de Oscar da posição de pivô para ala em 1977, presenciou o nascimento de um fenômeno. Aos 19 anos, o jovem de Natal já mostrava o talento que o levaria a conquistar medalhas de bronze no Mundial das Filipinas-1978 e títulos como o Mundial Interclubes de 1979 pelo Sírio.
Diagnosticado com câncer no cérebro em 2011, Oscar venceu a batalha contra a doença e continuou sendo uma referência para o esporte nacional. Sua morte mobilizou clubes como Flamengo, Corinthians, Palmeiras e Vasco, que prestaram homenagens nas redes sociais ao atleta que priorizou o amor ao país acima de qualquer interesse pessoal.
O legado de Oscar Schmidt transcende números e recordes. Sua decisão de recusar a NBA para defender o Brasil em todas as competições internacionais criou um modelo único de amor à pátria no esporte mundial, inspirando atletas que compreendem o verdadeiro significado de representar seu país nos maiores palcos da modalidade.

