Quando Oscar Schmidt retornou ao Brasil em 1995, após 13 anos brilhando nas quadras europeias, trazia consigo mais do que medalhas e recordes. O 'Mão Santa' nutria um sonho ambicioso que surpreenderia muitos: tornar-se presidente da República. Essa faceta política do maior cestinha da história do basquete mundial revela uma dimensão pouco conhecida de sua trajetória, marcada por alianças controversas, frustrações eleitorais e um desencanto que o fez abandonar definitivamente a política.
Da Secretaria de Esportes às ambições presidenciais
Em 1997, Oscar assumiu a Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação de São Paulo, na gestão de Celso Pitta. A nomeação representava o primeiro passo de um projeto político cuidadosamente planejado. Durante seus 13 anos na Europa, especialmente nas oito temporadas pelo Juvecaserta e três no Pavia, entre 1982 e 1995, o atleta havia amadurecido a ideia de ingressar na vida pública brasileira.
"Eu queria ser presidente da República. Passei 13 anos na Europa pensando o que fazer depois e pensei em ser presidente. Voltei com essa intenção", revelou Oscar ao jornalista César Filho em 2023.
A popularidade conquistada nas quadras parecia um trampolim natural para a política. Oscar detinha números impressionantes: 49.737 pontos em 1.615 jogos durante a carreira, além de ser o maior pontuador da história dos Jogos Olímpicos, com 1.093 pontos em cinco participações consecutivas. Seu feito mais emblemático, os 46 pontos na vitória histórica contra os Estados Unidos no Pan-Americano de 1987, em Indianápolis, havia transformado o Brasil numa potência respeitada no basquete mundial.
A aliança com Paulo Maluf e a campanha frustrada
Em 1998, Oscar abandonou a Secretaria de Esportes para se candidatar ao Senado pelo PPB (atual Progressistas), apadrinhado por Paulo Maluf. A aliança com o controverso político paulista representava uma aposta na máquina eleitoral malufista, que historicamente mobilizava importantes recursos e bases eleitorais na capital paulista.
A campanha, no entanto, enfrentou desafios que a popularidade esportiva não conseguiu superar. O cenário político de 1998 estava marcado pela consolidação do Plano Real e pela disputa presidencial entre Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Na corrida pelo Senado em São Paulo, Oscar encontrou pela frente Eduardo Suplicy, do PT, político experiente e com sólida base eleitoral na capital.
Segundo levantamento do SportNavo, a derrota para Suplicy representou mais do que um revés eleitoral: foi o momento de inflexão que levou Oscar a questionar profundamente sua vocação política. A popularidade nas quadras, que o havia tornado um dos atletas mais admirados do país, não se traduziu automaticamente em votos suficientes para garantir uma cadeira no Senado.

O desencanto com a política brasileira
As frustrações vivenciadas durante sua breve passagem pela administração pública contribuíram decisivamente para o afastamento de Oscar da política. Em entrevistas posteriores, ele descreveu um ambiente marcado por interesses pessoais em detrimento do bem comum.
"Depois, fui candidato ao Senado e falei que não era lugar para mim. Meu pai me ensinou outras coisas e só faltava sujar a imagem do meu pai. Os caras pensam mais neles do que nos próximos. Esse é um dos motivos que parei", desabafou o ex-atleta.
O relato de Oscar ilustra uma realidade comum entre personalidades públicas que tentam migrar do esporte para a política no Brasil. A transição entre o ambiente meritocrático das quadras e a complexa dinâmica político-partidária frequentemente resulta em choques de expectativa e métodos de trabalho.
Após abandonar definitivamente a política, Oscar direcionou suas energias para uma carreira bem-sucedida como palestrante, realizando mais de mil eventos ao longo dos anos. Paralelamente, encerrou sua carreira de jogador no Flamengo, em 2003, conquistando duas edições do Campeonato Carioca (1999 e 2002) e consolidando sua imagem como ídolo rubro-negro.
O legado político não concretizado
A tentativa política de Oscar Schmidt ocorreu num momento de transformação do cenário eleitoral brasileiro. A década de 1990 assistiu à emergência de diversas personalidades públicas na política, desde artistas até esportistas, refletindo uma busca da sociedade por renovação e figuras com credibilidade fora do establishment político tradicional.
Sua experiência antecipou debates que se tornariam centrais nas décadas seguintes sobre o papel de celebridades na política brasileira. A diferença entre popularidade e capacidade de mobilização eleitoral, tema recorrente em análises eleitorais contemporâneas, encontra no caso de Oscar um exemplo emblemático dos desafios enfrentados por personalidades do esporte.
Oscar Schmidt faleceu nesta sexta-feira (17), aos 68 anos, no Hospital Municipal Santa Ana, em São Paulo, após lutar contra um tumor cerebral por mais de 15 anos. Seu velório será restrito à família, conforme desejo dos parentes, encerrando a trajetória de um dos maiores ícones do esporte brasileiro, cuja breve incursão política permanece como um capítulo fascinante de sua biografia multifacetada.

