52 anos separam a primeira vez que o Brasil enfrentou uma seleção africana em Copa do Mundo — foi em 1998, contra o Marrocos, num Estádio de Lyon onde a Seleção Brasileira venceu por 3 a 0 com gols de Ronaldo, Bebeto e Rivaldo — do momento em que os dois países voltam a se cruzar, agora com muito mais peso histórico sobre os ombros marroquinos. O amistoso marcado para 13 de junho de 2026 não é um jogo qualquer de preparação: é o ensaio geral de um confronto que será válido pela primeira rodada do Grupo C da Copa do Mundo, ao lado de Escócia e Haiti. E o técnico do Marrocos, Mohamed Ouahbi, decidiu que não esperaria o apito inicial para começar a jogar.
A provocação de Ouahbi e o que ela revela sobre o projeto marroquino
Na coletiva desta terça-feira, 26 de maio de 2026, Ouahbi foi direto ao ponto quando perguntado sobre a estratégia para o confronto com o Brasil:
"Só porque estamos jogando contra o Brasil não significa que vamos passar o tempo todo defendendo. Quer que eu diga ao Ancelotti como vamos jogar? Acho que ele não vai dizer como vai jogar."
A ironia contida na frase tem uma função técnica, não apenas retórica. Ouahbi, que assumiu o comando da seleção marroquina em março de 2026 após passagens pelo sub-20 e sub-23 do país — categoria em que foi campeão mundial —, está sinalizando uma identidade tática que rompe com o estereótipo do futebol africano recuado e reativo. Nos dois jogos mais recentes sob seu comando, o Marrocos empatou em 1 a 1 com o Equador e venceu o Paraguai por 2 a 1. Nesta terça-feira, a seleção goleou o Burundi por 5 a 0, resultado que, embora contra adversário de nível inferior, aponta para uma equipe com volume ofensivo real.
O precedente de 2022 que nenhum analista pode ignorar
Há um paralelo histórico inevitável. Na Copa do Mundo do Catar, em 2022, o Marrocos realizou a melhor campanha de uma seleção africana em toda a história dos Mundiais. Eliminaram a Bélgica na fase de grupos, depois derrubaram a Espanha nas penalidades — após empate em 0 a 0 no tempo regulamentar e na prorrogação — e então afastaram Portugal por 1 a 0, com gol de Youssef En-Nesyri, nas quartas de final. A derrota para a França, por 2 a 0, na semifinal, encerrou uma trajetória que redefiniu o que se espera do futebol africano em torneios de alto nível.
Aquela campanha foi construída sobre uma estrutura defensiva sólida — Yassine Bounou foi eleito o melhor goleiro do torneio — mas também sobre transições rápidas e capacidade de pressionar adversários tecnicamente superiores. O treinador era Walid Regragui, que montou um bloco compacto capaz de sufocar a saída de bola espanhola e explorar espaços nas costas da linha defensiva portuguesa. Ouahbi herda esse legado e parece disposto a expandi-lo, não apenas repeti-lo.
Lembro de ter escrito, em dezembro de 2022, que o Marrocos havia feito o equivalente futebolístico de O Senhor dos Anéis: uma jornada que ninguém acreditava possível, executada com disciplina coletiva quase épica. Três anos e meio depois, o roteiro está sendo reescrito — desta vez com um técnico que quer adicionar mais gols à narrativa.
O que o Brasil de Ancelotti terá pela frente em 13 de junho
Carlo Ancelotti, que desde 2025 comanda a Seleção Brasileira, terá no amistoso de 13 de junho uma amostra real do adversário que encontrará na estreia da Copa. O Marrocos ainda fará dois jogos antes desse encontro: contra Madagascar no dia 2 de junho e contra a Noruega no dia 7. A partida contra os noruegueses, em especial, será um termômetro mais confiável do nível técnico da equipe de Ouahbi, já que a Noruega possui jogadores como Erling Haaland e Martin Ødegaard em seu elenco.
Do ponto de vista histórico, o Brasil tem um aproveitamento de 100% contra o Marrocos em Copas do Mundo — aquela vitória por 3 a 0 em 1998 é o único encontro oficial entre as seleções no torneio. Mas o futebol de 2026 não é o de 1998, e o Marrocos de Ouahbi não é o mesmo que saiu da fase de grupos daquela edição sem vencer nenhum jogo. A seleção africana acumulou, desde 2022, uma consistência defensiva e uma capacidade de organização tática que a coloca entre as 10 melhores seleções do mundo nos rankings da FIFA.
Para o Brasil, o amistoso serve como laboratório de leitura de jogo. Ancelotti precisará observar como sua equipe reage a uma pressão alta organizada — característica que Ouahbi já demonstrou valorizar — e como os laterais brasileiros se comportam quando o adversário não recua automaticamente. A provocação do técnico marroquino, portanto, não é apenas palavrão de vestiário: é uma declaração de intenção tática que merece ser lida com atenção.
O grupo C e o peso do jogo de estreia na Copa
O Grupo C da Copa do Mundo de 2026 reúne Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti. Em termos de nível técnico, o confronto entre Brasil e Marrocos é o mais equilibrado do grupo e, muito provavelmente, o que definirá quem lidera a chave ao final da primeira rodada. Uma derrota brasileira na estreia — ou mesmo um empate — abriria uma pressão desnecessária sobre o elenco de Ancelotti já nos primeiros dias do torneio.
O histórico das Copas mostra que seleções que perdem a estreia têm aproveitamento médio de apenas 22% nas edições de 1998 em diante — dado que inclui eliminações precoces de Alemanha em 2018 e Espanha em 2002. O Brasil não perde a partida de abertura de uma Copa desde 1966, quando foi derrotado pela Hungria por 3 a 1. Manter esse histórico diante de um Marrocos que não quer apenas se defender é a primeira tarefa de Ancelotti — e o amistoso de 13 de junho começa a responder essa questão 13 dias antes do apito inicial da Copa.











