— Espera, Oyarzabal acabou de passar o Di Stéfano na lista de artilheiros da Espanha?
— Passou. E o Butragueño também. E o Morientes. E o Sérgio Ramos.
— Cara, quando isso aconteceu?
Aconteceu neste domingo, 21 de junho de 2026, dentro de um Mercedes-Benz Stadium que ainda tentava processar a goleada espanhola sobre a Arábia Saudita. Mikel Oyarzabal, o atacante da Real Sociedad que passou uma temporada inteira reconstruindo o joelho esquerdo após a ruptura do ligamento cruzado em 2022, marcou dois gols na partida e chegou a 27 tentos com a camisa da La Roja — número suficiente para ingressar no seleto grupo dos sete maiores artilheiros da história da seleção espanhola.
O que dois gols contra a Arábia Saudita representam na escala histórica
Há uma tendência recorrente no jornalismo esportivo de tratar recordes individuais como se fossem fenômenos isolados, descolados do contexto institucional em que emergem. O caso de Oyarzabal exige o movimento inverso. Quando ele abriu o placar e depois ampliou para consolidar o 3 a 0 final, não estava apenas acumulando estatísticas — estava cruzando uma fronteira simbólica que separa jogadores relevantes de jogadores históricos dentro de uma das seleções mais bem estruturadas do futebol mundial.
A Federação Espanhola de Futebol movimentou, segundo dados do relatório anual de 2024, mais de 180 milhões de euros em receitas operacionais ligadas à seleção, incluindo direitos de transmissão, patrocínios e bilheteria. Esse aparato institucional produz um contexto de alta pressão para cada convocado — e, nele, Oyarzabal acumulou também 11 assistências, tornando-se um dos jogadores mais participativos da era recente da La Roja.
O técnico Luis de la Fuente, segundo relatos da imprensa espanhola após a partida, destacou que a atuação do atacante deu à equipe a confiança que havia sido abalada na estreia contra o Uruguai, quando a Espanha ficou no empate por 1 a 1. Nas palavras do treinador, Oyarzabal representou naquele jogo exatamente o que a seleção precisava: um jogador capaz de decidir sem depender do brilho individual de outros.
Quem Oyarzabal deixou para trás e o peso desses nomes
A lista dos superados não é trivial. Alfredo Di Stéfano, naturalizado espanhol, é considerado por muitos historiadores do futebol um dos três melhores jogadores de todos os tempos — suas 23 partidas pela La Roja, entre 1957 e 1961, carregam o peso de uma era em que a seleção ainda não havia conquistado nenhum título continental. Fernando Morientes, artilheiro de Champions League pelo Real Madrid, e Emilio Butragueño, símbolo da geração dos anos 1980 que venceu dois Europeus sub-21 consecutivos, também ficaram abaixo dos 27 gols de Oyarzabal.
O caso de Sérgio Ramos merece uma leitura sociológica própria: zagueiro que marcou 23 gols pela seleção, muitos deles decisivos em momentos de Copa do Mundo e Eurocopa, Ramos construiu sua artilharia a partir de uma função primariamente defensiva. Oyarzabal, atacante de ofício, chegou ao mesmo patamar — e foi além — dentro de uma lógica completamente diferente de participação no jogo.
Acima dele na lista histórica permanecem apenas David Villa (59 gols), Raúl González (44), Fernando Torres (38), David Silva (35), Fernando Hierro (29) e Roberto Moreno (28). O recorte revela algo sobre as gerações: os jogadores acima de Oyarzabal, com exceção de Hierro, pertencem à era dourada que produziu três títulos mundiais entre 2008 e 2012 — Copa do Mundo de 2010 e Eurocopas de 2008 e 2012. Oyarzabal constrói seu legado em uma fase de reconstrução identitária da seleção, o que torna seus números ainda mais significativos do ponto de vista analítico.
O que ainda falta resolver para Oyarzabal e para a Espanha nesta Copa
A pergunta que o torcedor faz depois da euforia dos dois gols é inevitável: até onde Oyarzabal pode chegar nesta lista? Com 27 anos de idade e uma Copa do Mundo ainda em andamento, o atacante tem tempo e contexto para ameaçar Roberto Moreno (28 gols) e Fernando Hierro (29) ainda neste torneio — dependendo de quantos jogos a Espanha disputar e de quanto espaço De la Fuente lhe conceder.
Há, contudo, uma dimensão estrutural que a euforia individual não deve obscurecer. A Espanha lidera o Grupo H com 4 pontos após dois jogos — vitória sobre a Arábia Saudita e empate com o Uruguai — e enfrenta os uruguaios novamente na próxima sexta-feira, 26 de junho, às 21h de Brasília, num confronto que definirá a classificação na primeira colocação. Conforme registrado pelo SportNavo, a equipe de De la Fuente ainda busca a consistência defensiva que lhe faltou na estreia, quando sofreu o gol de empate nos acréscimos.
A atuação de Lamine Yamal contra a Arábia Saudita — o jovem de 17 anos marcou seu primeiro gol na competição, após receber assistência do próprio Oyarzabal — acrescenta uma variável geracional à equação. A convivência entre o veterano basco, que voltou de uma lesão grave para se tornar referência histórica, e o prodígio catalão, que ainda está escrevendo as primeiras linhas de sua trajetória, é como uma frente fria encontrando uma massa de ar quente: o resultado pode ser tempestade ou simplesmente a chuva que a Espanha precisava para florescer.
Os números de Oyarzabal — 27 gols, 11 assistências, um joelho reconstruído, uma Copa do Mundo em andamento — não respondem ainda à questão maior sobre onde ele terminará nessa lista histórica. Mas respondem, com clareza suficiente, à pergunta do bar: sim, ele passou Di Stéfano. E fez isso marcando dois gols num jogo que a Espanha precisava vencer.
Na saída do campo, sob as luzes do Mercedes-Benz Stadium, Oyarzabal ajustou a braçadeira no pulso e caminhou em direção ao túnel — 27 gols, e a lista ainda não acabou.








