Há uma planilha no computador de Marcos Guilherme, o Marcão, que guarda mais do que números: guarda a trajetória profissional do filho, o centroavante Pedro, do Flamengo. Desde o dia 24 de janeiro de 2017 — quando Pedro marcou pelo Fluminense na vitória por 3 a 2 sobre o Criciúma, pela Primeira Liga —, o pai não perdeu uma anotação sequer. Hoje, essa planilha registra 205 gols, os dois mais recentes marcados contra o Atlético-MG no último domingo.
Do caderno à planilha, um arquivo que virou legado
O que começou como um caderninho de anotações a lápis ganhou sofisticação com o tempo. "Fiquei com medo de perder, aí passei para planilha. No computador você salva, faz backup e recupera se precisar", explicou Marcão. Os registros incluem data, local, adversário e até a parte do corpo usada no gol — cabeça, pé direito, pé esquerdo, de dentro ou fora da área, de pênalti. A prática, segundo ele, já existia desde a infância de Pedro, quando o menino marcava gols com cinco anos de idade nas categorias de base.
"Ele sempre foi de fazer muitos gols e bonitos, desde pequeno. Já tinha noção que faria bastante. É uma marca da carreira dele desde pequenininho, com cinco anos quando começou. E tinha essa expectativa de contabilizar", afirmou Marcão.
Dos 205 gols catalogados, a distribuição revela um jogador que evoluiu progressivamente: 167 pelo Flamengo, 31 pelo Fluminense, 1 pela Fiorentina, 5 pela Seleção Olímpica e 1 pela Seleção Brasileira principal. É um retrato fiel de quem chegou ao clube certo na fase certa da carreira.
Pedro no ranking histórico rubro-negro
Com 167 gols pelo Flamengo, Pedro ocupa atualmente a sexta posição na artilharia histórica do clube, em companhia de nomes como Dida e Romário — lista restrita que resume décadas de glórias rubro-negras. No topo, isolado, está Zico com 508 gols. A distância entre Pedro e o Galinho de Quintino é de 341 gols. Para um centroavante de 27 anos que atravessa uma das melhores fases de sua carreira, a pergunta que se impõe é inevitável: esse número é alcançável?
Levantamento do SportNavo mostra que, nas últimas três temporadas completas pelo Flamengo, Pedro acumulou médias que oscilaram entre 35 e 45 gols por ano, considerando todas as competições. Tomando como base uma média conservadora de 30 gols por temporada apenas pelo clube — abaixo do seu desempenho recente —, o atacante precisaria de mais 11 anos jogando no mesmo nível para alcançar Zico. Isso significaria bater a marca com 38 anos de idade, uma projeção que beira o impossível dada a natureza física da posição de centroavante.
A grandeza de Zico e a realidade dos números
Zico construiu seus 508 gols pelo Flamengo ao longo de aproximadamente 17 anos com a camisa rubro-negra, em três períodos distintos entre 1968 e 1989. Parte significativa desses gols foi marcada em uma época em que o calendário brasileiro era diferente e o futebol nacional enfrentava outros parâmetros de competição. Ainda assim, a marca resistiu a mais de três décadas sem ser ameaçada de perto por nenhum atacante da história do clube — o que já é uma evidência da sua excepcionalidade.

"Anoto data, local, adversário, parte do corpo que fez o gol… As informações que acho interessante. Quantos gols de cabeça? De perna esquerda? Quantos no Brasileiro? Copa do Brasil? Quantos na pequena área? De fora da área? De pênalti?", descreveu Marcão sobre sua metodologia de registro.
A análise do SportNavo, cruzando os dados históricos do clube com o ritmo atual de Pedro, aponta que o artilheiro rubro-negro tem chance real de encerrar sua carreira entre os três maiores da história do Flamengo — uma conquista que, por si só, já seria monumental. Ultrapassar Zico, no entanto, dependeria de uma combinação improvável de longevidade, saúde perfeita e permanência exclusiva no clube por pelo menos mais uma década.

Desfalques na Libertadores e o peso de Pedro no ataque
A boa fase do centroavante chega em momento delicado para o técnico Leonardo Jardim. O Flamengo visita o Estudiantes nesta quarta-feira (29), às 21h30 (horário de Brasília), no Estádio Jorge Luis Hirschi — conhecido como 'UNO', em La Plata — pela terceira rodada da fase de grupos da Libertadores, precisando manter a liderança do Grupo A. Para o duelo, dois jogadores importantes estão confirmados fora: Paquetá, que se recupera de um edema na coxa esquerda, e Pulgar, tratando uma lesão no ombro. Ambos realizam trabalhos individualizados e estão fora das atividades com o elenco.
O departamento médico adota cautela com Paquetá, cujo retorno estava previsto para esta semana mas foi adiado pelo desgaste físico acumulado. Pulgar, por sua vez, tem perspectiva de retornar apenas no dia 7 de maio, quando o Flamengo enfrenta o Independiente Medellín pela Libertadores — e ainda desfalcará o Rubro-Negro antes disso, diante do Vasco, pelo Brasileirão, por cumprir suspensão automática. Com dois meio-campistas importantes fora, o peso do ataque recai ainda mais sobre Pedro — e sobre a planilha que o pai atualiza com orgulho a cada jogo.









