Todo mundo sabe que o placar ficou zerado no Estadio Centenario. O que pouca gente percebeu é que o empate entre Montevideo City Torque e Palestino, na noite desta quarta-feira pela quarta rodada da Copa Sudamericana, foi construído nos bastidores de uma batalha tática que começou antes mesmo do apito inicial — e que revelou muito sobre os projetos financeiros e esportivos das duas agremiações neste torneio.
O momento que decidiu o jogo
O intervalo foi o divisor de águas desta partida. O Palestino entrou em campo para o segundo tempo com uma alteração cirúrgica: Ronnie Fernández, atacante com contrato válido até dezembro de 2026 e salário estimado em torno de US$ 45 mil mensais, foi substituído por César Munder logo aos 46 minutos. A troca não foi por lesão — foi leitura de jogo.
O técnico palestino optou por reforçar a linha de contenção, recuando o bloco e apostando na solidez defensiva para garantir ao menos um ponto fora de casa. A estratégia funcionou. O Torque, que jogava diante de sua torcida no histórico Centenário, não encontrou espaços e viu o empate sem gols se consolidar como o resultado mais honesto da noite.
Como o jogo chegou até esse instante
O primeiro tempo foi marcado por tensão física e duas advertências que moldaram o comportamento das equipes. Aos 30 minutos, Ramiro Lecchini, volante do Torque, recebeu cartão amarelo após falta dura no meio-campo — um sinal claro de que a partida não seria decidida pela técnica, mas pelo desgaste.

Oito minutos depois, aos 38, foi a vez de Francisco Montes, do Palestino, ser advertido. O defensor chileno, peça fundamental no esquema de contenção visitante, precisaria administrar o restante da partida sob risco de suspensão. Esse fator condicionou o comportamento do time nas ações seguintes, tornando o bloco defensivo ainda mais cauteloso.

Com os dois times amarelados nos setores de marcação, o jogo perdeu fluidez. O Torque tentou pressionar com posse de bola no campo adversário, mas o Palestino soube usar as pausas e os cortes para desorganizar o ritmo uruguaio. Nenhuma das equipes criou chances claras de gol antes do intervalo.
O que aconteceu depois
Com Munder em campo, o Palestino passou a explorar saídas rápidas em contra-ataque, mas sem profundidade suficiente para ameaçar o goleiro do Torque. O time uruguaio, por sua vez, manteve a posse sem objetividade — muita circulação horizontal, poucos passes verticais que comprometessem a linha defensiva adversária.
O Centenário, estádio com capacidade para mais de 60 mil pessoas e palco histórico do futebol sul-americano, assistiu a uma partida de baixa intensidade ofensiva. Nenhum dos treinadores conseguiu imprimir ao jogo o ritmo necessário para desequilibrar. O 0 a 0 foi o resultado mais coerente com o que as equipes produziram nos 90 minutos.
Individualmente, nenhum jogador se destacou de forma positiva. Lecchini e Montes foram os nomes mais citados — pelos motivos errados. O Torque desperdiçou a oportunidade de usar o fator casa para ampliar sua pontuação no grupo.
O cenário pós-partida
Com o empate, Montevideo City Torque e Palestino seguem na disputa pelo grupo da Copa Sudamericana sem conseguir se descolar dos demais concorrentes. O ponto conquistado pelo time chileno fora de casa tem valor estratégico: evita a derrota, preserva a invencibilidade e mantém a equipe com margem de manobra para as rodadas finais da fase de grupos.
Para o Torque, o resultado é frustrante. Jogar no Centenário com apoio da torcida e não vencer um adversário que optou pelo recuo tático é um sinal de limitação ofensiva que o departamento de futebol do clube precisa endereçar. O clube uruguaio tem orçamento modesto para os padrões da competição — estimado em torno de US$ 8 milhões anuais — e depende de rendimento coletivo para avançar de fase.
O Palestino, clube com raízes na comunidade árabe do Chile e orçamento anual em torno de US$ 12 milhões, segue sua campanha na Sudamericana com pragmatismo. A próxima rodada será decisiva para ambas as equipes definirem se brigam pela classificação ou apenas pela sobrevivência no torneio.
Um ponto em Montevidéu. O Palestino foi lá e buscou.









