A última vez que o Flamengo quebrou o recorde de contratação mais cara do futebol brasileiro com um ex-jogador da própria base foi na compra de Arrascaeta, em 2019, por 15 milhões de euros ao Cruzeiro — valor que hoje Paquetá supera em quase três vezes. Sete anos depois, o clube rubro-negro desembolsou 42 milhões de euros (R$ 260 milhões) ao West Ham para repatriar o meia que havia sido vendido ao Milan, em 2018, por 35 milhões de euros. A aritmética revela algo relevante: somadas compra e venda, as duas operações envolvendo Lucas Paquetá movimentaram 77 milhões de euros — cerca de R$ 478 milhões na cotação atual, conforme levantamento publicado pelo Times Brasil.
O que mudou
Paquetá assinou contrato de cinco anos com o Flamengo e chega como meia-armador ou segundo volante, duas funções que já estão ocupadas por atletas de alto custo no elenco. Reparemos no detalhe: Gerson foi adquirido pelo Cruzeiro por 27 milhões de euros junto ao Zenit antes de retornar ao Fla, e Arrascaeta ainda carrega na folha um salário compatível com seu status de referência técnica do time. Matheus Gonçalves, revelado na base, vinha sendo o nome em ascensão para o setor.
A chegada de Paquetá não elimina nenhum dos três do elenco, mas hierarquiza. Com 19 partidas disputadas pelo West Ham na temporada 2025/2026 — cinco gols e uma assistência —, o meia retorna em forma e com currículo europeu fresco. A análise do SportNavo indica que Arrascaeta, funcionando mais como meia ofensivo pelo lado esquerdo, é o que menos perde espaço diretamente; Gerson e Matheus Gonçalves, porém, passam a disputar a segunda vaga de meio-campo com um concorrente de nível salarial e status equivalente.
O técnico precisará escolher entre ao menos três configurações táticas plausíveis:
- 4-2-3-1: Paquetá e Gerson como dupla de volantes; Arrascaeta livre na meia-esquerda — Matheus Gonçalves relegado ao banco.
- 4-3-3: Paquetá como meia-central, Gerson e Arrascaeta nas extremidades do triângulo — configuração que exige mais mobilidade dos três.
- 4-1-4-1: Gerson como pivô defensivo, Paquetá e Arrascaeta nas meias interiores — esquema que libera Matheus Gonçalves como ala pelo flanco.
Por que agora
O timing da operação tem explicação financeira direta. O Flamengo encerrou 2025 com receita recorde superior a R$ 2 bilhões, conforme balanço confirmado pelo próprio clube. A solidez das contas, construída desde a reestruturação iniciada em 2013 sob Eduardo Bandeira de Mello e consolidada a partir de 2019 com Rodolfo Landim, criou margem para uma janela de janeiro histórica: R$ 341,4 milhões investidos ao todo, segundo levantamento do Gato Mestre, núcleo de dados do Globo Esporte.
Além de Paquetá, o Flamengo formalizou a compra do zagueiro Vitão junto ao Internacional por 10,2 milhões de euros — negócio que incluiu perdão de dívida envolvendo Thiago Maia — e contratou o goleiro Andrew, ex-Botafogo, por 1,5 milhão de euros junto ao Gil Vicente, de Portugal. Os três acordos juntos chegam a R$ 300 milhões; com bônus e acertos complementares, o total da janela supera R$ 341 milhões.
O custo de Paquetá, sozinho, representa mais de 75% do total investido na janela e supera o orçamento integral do Vitória para 2026, fixado em R$ 252,7 milhões líquidos para cobrir futebol masculino, feminino, base, dívidas e despesas operacionais. A discrepância numérica traduz o novo patamar financeiro do Flamengo no cenário nacional.

"Os valores espantam, porém é uma tendência global, o mercado está inflacionado, não é uma exclusividade do futebol brasileiro. Houve um aumento sistemático de direitos de transmissão, são valores muito robustos. É natural que, tendo mais dinheiro, você vai ter transações mais ousadas." — Gabriel Renan, cientista contábil especializado em mercado financeiro, em declaração à PUC-SP.
A operação também teve um custo de oportunidade concreto: o Flamengo tentou contratar Kaio Jorge, mas o Cruzeiro recusou proposta de 22 milhões de euros mais a cessão de Everton Cebolinha, avaliado em 8 milhões de euros. O investimento concentrado em Paquetá inviabilizou outras movimentações na mesma janela.
O que vem em seguida
A diretoria rubro-negra já sinalizou que a próxima janela de contratações — prevista entre julho e setembro, após a Copa do Mundo — será utilizada para reforçar o elenco nas posições que ficaram descobertas. A tentativa frustrada por Kaio Jorge indica que atacante de área segue como prioridade para o segundo semestre.
"Nossa realidade financeira é diferente, não adianta eu ficar pedindo jogador." — Jair Ventura, técnico do Vitória, ao comparar o poder de investimento de sua equipe com o do Palmeiras de Abel Ferreira, que opera com folha estimada em R$ 40 milhões mensais.
No campo tático, Paquetá estreou após o anúncio oficial e já disputou minutos pelo Flamengo no Brasileirão 2026. O valor de mercado do atleta no Transfermarkt, antes da transferência, era estimado em torno de 35 milhões de euros — abaixo dos 42 milhões pagos, o que representa um prêmio de aproximadamente 20% sobre o valor de mercado. O ROI esperado pelo clube depende de três vetores: desempenho esportivo que justifique títulos e prêmios variáveis, valorização do ativo para eventual venda futura, e impacto comercial em cotas de patrocínio e licenciamento. Paquetá, que em 2018 foi vendido por 35 milhões de euros, demonstrou histórico de apreciação patrimonial relevante para o Flamengo calcular o retorno desta operação.
A última vez que o Flamengo quebrou o recorde de contratação mais cara do futebol brasileiro com um ex-jogador da própria base foi na compra de Arrascaeta, em 2019, por 15 milhões de euros ao Cruzeiro — valor que hoje Paquetá redefine em quase três vezes.









