Dois times com a mesma pontuação entram em campo nesta quinta-feira (25) com objetivos opostos: um precisa vencer para sobreviver, o outro avança mesmo sem fazer nada. Esse é o paradoxo que o Levi's Stadium, em Santa Clara, vai resolver às 23h (horário de Brasília), quando Copa do Mundo coloca Paraguai e Austrália frente a frente na última rodada do Grupo D — com o Brasil assistindo de perto ao resultado.

O Grupo D e a matemática que define quem avança

Líderes do Grupo D, os Estados Unidos já estão classificados e aguardam um adversário vindo dos terceiros colocados. A disputa real é pela segunda vaga: Paraguai e Austrália chegam à rodada final empatados em pontos, mas com uma diferença estrutural que altera completamente o comportamento esperado de cada seleção. Os paraguaios possuem leve vantagem no saldo de gols — o que significa que o empate, na prática, sentencia a eliminação da equipe de Gustavo Alfaro. Para a Austrália, aquele mesmo empate é suficiente para garantir a segunda colocação. O técnico Tony Popovic entra em campo, portanto, numa posição que os economistas chamariam de vantagem de posição negociadora: pode jogar no limite, administrar o risco, explorar o contra-ataque.

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Há também a possibilidade, prevista no regulamento da Fifa, de avançar como um dos melhores terceiros colocados — o que deixa a janela entreaberta para quem perder, mas é uma aposta de alto risco, dependente de resultados em outros grupos.

Alfaro sem Almirón e a dor de uma ausência que pesa

O técnico Gustavo Alfaro não poderá contar com Miguel Almirón, peça central no setor ofensivo paraguaio, para o confronto decisivo. A ausência obriga o treinador a remodelar o meio-campo num jogo em que a iniciativa ofensiva é obrigação, não opção. Maurício, do Palmeiras, surge como candidato a preencher a lacuna. Mas a principal esperança criativa do Paraguai continua sendo o jovem Julio Enciso, cujo repertório técnico e capacidade de desequilíbrio individual podem criar situações de gol mesmo diante de uma Austrália organizada taticamente.

Nas palavras do técnico Alfaro, a vitória sobre a Turquia na rodada anterior devolveu ânimo ao grupo — uma afirmação que, lida com atenção, revela também o quanto o ambiente estava pressionado antes daquele resultado. Decidiu.

A Austrália, por sua vez, vem de derrota para os Estados Unidos na segunda rodada, mas carrega a memória positiva da estreia, quando goleou a Turquia por 2 a 0. Tony Popovic deve manter a base que funcionou naquele jogo, apostando na disciplina tática e na transição rápida — o mesmo modelo que levou os Socceroos às oitavas de final na Copa do Catar em 2022.

O Brasil observa Santa Clara de longe — mas com atenção total

A Seleção Brasileira encerrou sua fase de grupos com uma vitória por 3 a 0 sobre a Escócia na última quarta-feira (24) e aguarda a definição do segundo colocado do Grupo F — que sairá do confronto entre Japão e Suécia, no AT&T Stadium, em Dallas, às 20h. O jogo contra o classificado do Grupo F está marcado para segunda-feira, 29 de junho, às 14h.

O resultado em Santa Clara, no entanto, não é indiferente ao Brasil. Dependendo de como a chave se reorganiza com os melhores terceiros colocados, o vencedor entre Paraguai e Austrália pode se tornar o adversário brasileiro nas oitavas. Trata-se de uma variável que as comissões técnicas monitoram com o mesmo cuidado que um gestor de portfólio acompanha o câmbio: o impacto direto só se materializa depois, mas a leitura precisa ser feita agora.

Do ponto de vista estratégico, os perfis são distintos. O Paraguai é uma equipe sul-americana com lógica de jogo familiar ao Brasil — pressão, intensidade física, transições verticais. A Austrália representa um modelo diferente: bloco baixo, saída rápida, aproveitamento de espaços. Ambos os cenários têm suas complexidades específicas para uma seleção que, até aqui, não foi testada por adversários de alto nível técnico.

Uma Copa que se define no detalhe e cobra o preço da imprecisão

Há uma analogia útil no xadrez: a posição de Zugzwang, em que qualquer movimento que o jogador faça piora sua situação. O Paraguai está exatamente nessa condição — precisa agir, mas agir errado é fatal. A Austrália, em contrapartida, pode se dar ao luxo de esperar, de pressionar sem se expor, de transformar a passividade em estratégia.

O confronto também ilumina uma questão mais ampla sobre o formato desta Copa do Mundo com 48 seleções: a ampliação do torneio, criticada por parte dos analistas como diluição da qualidade, criou uma fase de grupos em que a matemática dos terceiros colocados redistribui incentivos de forma nem sempre intuitiva. Equipes que perdem jogos podem avançar; equipes que empatam podem ser eliminadas. Esse ambiente de incerteza calculada é, ao mesmo tempo, o maior atrativo e a maior vulnerabilidade do novo modelo.

O duelo em Santa Clara começa às 23h desta quinta-feira (25). Se o Paraguai vencer, enfrenta a possibilidade concreta de cruzar com o Brasil nas oitavas, no dia 29 de junho. Se a Austrália segurar o resultado, são os Socceroos que entram nessa equação — e Tony Popovic terá repetido, pela segunda Copa consecutiva, o feito de levar a seleção australiana ao mata-mata.