— Vai convocar o Neymar ou não vai?
— Cara, ele jogou 45 partidas e fez 18 gols. Mas chegou lesionado na véspera.
— Não importa. Sem ele não tem graça.
Essa troca de mensagens se repetiu em grupos de WhatsApp, mesas de bar e comentários de redes sociais ao longo do fim de semana. E é exatamente esse ruído — emocional, comercial e esportivo ao mesmo tempo — que Carlo Ancelotti precisou filtrar antes de bater o martelo. Às 17h desta segunda-feira, 18 de maio, no Museu do Amanhã, na zona portuária do Rio de Janeiro, o técnico italiano revela os 26 nomes que representarão o Brasil na Copa do Mundo 2026.
A pressão que veio de fora do campo
João Adibe, presidente da Cimed — farmacêutica que renovou seu patrocínio com a CBF em 2024 por cerca de R$ 100 milhões ao longo de quatro anos —, usou suas redes sociais para pedir publicamente a convocação de Neymar. O movimento gerou reação imediata: parte da torcida aplaudiu, outra parte questionou a interferência de um patrocinador em decisão técnica. A Cimed é parceira oficial das seleções masculina e feminina desde 2015, o que torna a manifestação de Adibe algo além de um simples post — é um sinal do peso comercial que o camisa 10 ainda carrega para o ecossistema da CBF.
O próprio Neymar alimentou o debate nas últimas horas. Um vídeo de 28 minutos sobre sua infância — no qual ele apresenta o amigo de longa data 'Jotinha' e relembra as peladas na várzea onde seu pai jogava — acumulou mais de cinco milhões de visualizações em poucos dias.
"Vai ser um episódio diferente", disse o jogador na abertura do conteúdo, que funcionou como um mergulho afetivo no passado justo quando o futuro imediato está em xeque.O timing não foi acidental: o vídeo viralizou no mesmo fim de semana da última partida antes da convocação.
Os números de Neymar e o problema da véspera
Do ponto de vista estatístico, a temporada 2026 do Santos apresenta um Neymar funcional, mas não dominante: 45 jogos oficiais, 18 gols e nove assistências. Para um jogador de 34 anos retornando de lesão grave, o volume é razoável. O problema está no contexto mais recente — e na ausência de minutos sob Ancelotti.
Segundo levantamento da revista Placar, o técnico italiano convocou 58 jogadores em 12 meses de trabalho e testou praticamente todos eles. Neymar — assim como Pedro, do Flamengo — nunca foi chamado por Ancelotti nesse ciclo, o que torna qualquer convocação agora uma aposta sem referência empírica recente. Para comparação: Casemiro acumulou 720 minutos em campo na era Ancelotti; Vinicius Junior somou 641 minutos e dois gols; Rodrygo e Raphinha também têm histórico de minutos e desempenho catalogados pelo staff técnico.
Na derrota do Santos por 3 a 0 para o Coritiba, no último domingo (17), Neymar sentiu dores na panturrilha direita — a mesma região que já o tirou de campo em momentos críticos — e foi substituído em meio a uma confusão com a arbitragem. O quarto árbitro errou a substituição; Neymar protestou com veemência e acabou advertido com cartão amarelo. O episódio, às vésperas da convocação, reacendeu a discussão sobre temperamento e disponibilidade física — dois critérios que Ancelotti, historicamente criterioso na gestão de elenco, leva a sério.
O desânimo que os dados confirmam
A pesquisa Ipsos-Ipec, divulgada nesta segunda-feira com base em 2.000 entrevistas realizadas entre 8 e 12 de abril em 130 municípios, coloca em perspectiva o ambiente em que essa convocação acontece. Apenas 16% dos brasileiros estão "muito animados" com a Copa do Mundo 2026 — queda expressiva em relação aos 33% registrados antes do Mundial do Catar, em 2022. Entre os homens, o recuo foi ainda mais acentuado: de 40% para 18%. Entre jovens de 16 a 24 anos, o entusiasmo caiu de 44% para 28%.
O sentimento mais citado pelos entrevistados quando perguntados sobre a Copa foi esperança, com 27%. Mas logo atrás vieram vergonha (14%) e decepção (13%) — números que revelam uma relação mais ambivalente do torcedor brasileiro com a seleção do que o discurso oficial costuma admitir. Mesmo assim, 63% dos entrevistados pretendem acompanhar os jogos, com os homens chegando a 70%. Sobre chances de título, 67% acreditam que o Brasil tem "alguma chance", mas apenas 18% apostam em "muitas chances" — ante 80% que acreditavam no hexacampeonato antes de 2022.
O que Ancelotti herda desta convocação
A CBF transformou o anúncio em megaevento — 700 jornalistas credenciados, shows e discursos no Museu do Amanhã, projetado pelo arquiteto Santiago Calatrava e inaugurado em 2015 na Praça Mauá. A escolha do local carrega intenção simbólica clara: unir passado e futuro do futebol brasileiro num espaço que discute inovação e identidade nacional. O problema é que o debate mais quente do dia não é sobre o futuro — é sobre se um jogador do passado recente ainda tem lugar no presente.
Após a divulgação da lista, o cronograma é rigoroso: apresentação na Granja Comary em 27 de maio, amistoso contra o Panamá no Maracanã em 31 de maio, embarque para os Estados Unidos em 1º de junho e amistoso final contra o Egito em 6 de junho, em Cleveland. A estreia oficial na Copa — contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova York — está marcada para 13 de junho. Neymar convocado ou não, é nesse jogo, diante dos marroquinos, que Ancelotti vai precisar de respostas concretas dentro de campo.









