A última vez que o Botafogo viveu uma oscilação tão abrupta entre o amor e a fúria de sua torcida foi em 1995, quando o clube caiu para a Série B e parte dos alvinegros incendiou o portão do estádio enquanto outra parte fazia cordão de solidariedade em torno dos jogadores. Três décadas depois, o roteiro se repetiu em versão contemporânea — e com aeroporto como palco.

A madrugada de apoio que o Galeão não esquece

Na madrugada do dia 31 de agosto de 2023, entre 200 e 300 torcedores alvinegros foram ao Aeroporto do Galeão aguardar o desembarque do elenco após a derrota de 2 a 1 para o Defensa y Justicia, que eliminou o Glorioso da Copa Sul-Americana. A iniciativa partiu do Movimento Ninguém Ama Como a Gente, organizada responsável pela produção audiovisual nas arquibancadas. Com sinalizadores acesos e fogos, os presentes entoaram o canto que virou símbolo da noite: "1, 2, 3, nós estamos com vocês". O diretor André Mazzuco, visivelmente emocionado, registrou o momento nas redes sociais.

"1,2,3, nós estamos com vocês! Muito obrigado torcida pela maravilhosa recepção! Inesquecível! Estaremos sempre juntos! Até o fim!" — André Mazzuco, diretor do Botafogo, via Twitter

O próprio clube publicou vídeo da chegada com a legenda "É o Maior Amor do Mundo". Naquele momento, o Botafogo liderava o Campeonato Brasileiro com 11 pontos de vantagem sobre o Palmeiras, segundo colocado. O clássico contra o Flamengo pela 22ª rodada estava marcado para o sábado seguinte, e a torcida já cantava guerra desde o saguão do Galeão.

O Santos Dumont e a cena que envergonhou o futebol carioca

Dias depois, o cenário no aeroporto Santos Dumont foi radicalmente diferente. Após a eliminação na primeira fase da Copa do Brasil diante do Aparecidense-GO — derrota por 2 a 1 em Goiás —, cerca de 40 torcedores foram ao desembarque com cartazes de protesto. O elenco tentou driblar o grupo, mas os manifestantes entraram no meio do trânsito e cercaram o ônibus. Ao menos três pedras e um cone foram arremessados contra o veículo. Segundo a assessoria do clube, nenhum jogador ficou ferido.

No saguão interno, as exigências eram variadas: havia cartazes pedindo reforços, mudança no comando técnico de Felipe Conceição, auditoria nas contas do clube e até o retorno do técnico Cuca. O protesto durou tempo suficiente para registrar imagens que circularam amplamente — e para selar o destino de Zé Ricardo.

"Soube que é um time forte" — Yony González, atacante do Fluminense, ao comentar o próximo adversário de seu time na Copa do Brasil, em contraste direto com a surpresa que o Aparecidense representou para o Botafogo naquela fase.

A demissão de Zé Ricardo e a perseguição no aeroporto

A eliminação precoce na Copa do Brasil custou o emprego a Zé Ricardo. O técnico foi demitido logo após o jogo e, no retorno ao Rio, foi perseguido por torcedores no próprio aeroporto Santos Dumont. As imagens do episódio, divulgadas pelo Globo Esporte, mostraram o treinador sendo cercado em momento de extrema tensão. A cena remete a capítulos sombrios da história do futebol brasileiro — e lembra o roteiro de Tropa de Elite não pelo heroísmo, mas pela violência que emerge quando a pressão ultrapassa qualquer limite razoável.

A demissão de Zé Ricardo foi a consequência direta de uma sequência de resultados insatisfatórios que culminou na queda para o Aparecidense, clube goiano sem expressão nacional, ainda na primeira fase de uma competição que o Botafogo precisava disputar para complementar sua receita. A eliminação representou perda financeira imediata e simbólica.

Dois aeroportos, uma torcida e o abismo entre eles

O contraste entre as duas cenas — o Galeão da madrugada solidária e o Santos Dumont das pedras — expõe uma fratura que não é exclusividade do Botafogo, mas que no clube alvinegro ganha contornos especialmente agudos por causa da história recente. Um grupo de 200 a 300 pessoas acordou de madrugada para apoiar o time eliminado da Sul-Americana porque enxergava no Brasileirão uma campanha histórica. Outro grupo de 40 torcedores foi ao Santos Dumont com pedras porque enxergou na Copa do Brasil a gota d'água de uma gestão que não convencia.

A diferença entre os dois episódios não é apenas de tamanho — é de contexto. No primeiro, o Botafogo era líder isolado do Brasileirão com 11 pontos de vantagem e a eliminação continental parecia um tropeço tolerável. No segundo, a queda na Copa do Brasil era mais um sinal de uma equipe sem rumo claro, com técnico questionado e diretoria sob pressão. A torcida, em ambos os casos, agiu como termômetro fiel do momento institucional do clube.

Com a saída de Zé Ricardo, o Botafogo precisava reorganizar o comando técnico e retomar o foco no Campeonato Brasileiro — competição em que, naquele momento, ainda tinha chances reais de título após 28 anos de jejum. O próximo compromisso era o clássico contra o Flamengo, em Volta Redonda, pela semifinal da Taça Guanabara, no sábado seguinte — um jogo em que o empate já classificava o rival rubro-negro para a decisão, e só a vitória servia ao alvinegro. Quarenta e oito horas para reconstruir alguma coisa depois de uma noite que custou um técnico, uma classificação e parte da credibilidade de um clube que, naquela temporada, havia chegado a 11 pontos de vantagem no Brasileirão.