"Nunca vi um centroavante brasileiro com essa consistência de gols em tão pouco tempo desde Ronaldo no pré-Copa de 1998." A frase não é de um torcedor exaltado — é a avaliação que circula nos bastidores da CBF entre membros da comissão técnica que acompanham Pedro desde março. E os números justificam o espanto.

Quem se beneficia diretamente

Desde o amistoso do Brasil contra a Croácia, disputado em 31 de março, Pedro marcou oito gols em dez jogos pelo Flamengo — o melhor índice entre todos os atacantes cotados para a Copa do Mundo. O que impressiona ainda mais é o intervalo entre cada gol: um a cada 76 minutos. Para efeito de comparação histórica, Ronaldo Fenômeno chegou à Copa de 1998 com média semelhante pelo Inter de Milão, e ninguém discutia sua titularidade. No domingo 4 de maio, Pedro balançou as redes no clássico Flamengo 2 x 2 Vasco, no Maracanã — com Carlo Ancelotti na arquibancada, caderno na mão.

Vinicius Jr. também saiu bem da semana: dois gols contra o Espanyol, totalizando quatro tentos em sete partidas desde o amistoso. O camisa 7 do Real Madrid está praticamente confirmado na lista, mas a forma recente reforça o que já era consenso. Igor Thiago, do Brentford, aparece logo atrás na tabela de eficiência — três gols em apenas quatro jogos, com um gol a cada 120 minutos, o segundo melhor índice do grupo. Sua vitória por 3 a 0 sobre o West Ham no sábado colocou seu nome de volta na pauta.

Conforme levantamento do SportNavo, Matheus Cunha, João Pedro e Luiz Henrique marcaram duas vezes cada no período. O atacante do Chelsea fez uma bicicleta contra o Nottingham Forest na segunda-feira — mesmo com derrota dos Blues, o gol entrou para o repertório de argumentos a favor de sua convocação. Endrick, do Real Madrid, também anotou dois gols e ainda distribuiu duas assistências, superando Rayan em volume de participações diretas.

Quem perde

Gabriel Martinelli é o nome que mais preocupa. Em sete partidas pelo Arsenal desde o amistoso contra a Croácia, o atacante não marcou nenhum gol — sua única contribuição foi uma assistência. No sábado, não saiu do banco contra o Fulham. A ausência de gols num momento em que todos os concorrentes estão em ritmo de artilharia cria uma desvantagem objetiva, independentemente do histórico que Martinelli construiu nas convocações anteriores de Ancelotti.

Neymar também não foi a campo no fim de semana — o Santos o poupou do confronto contra o Palmeiras. Aqui a situação é diferente: não se trata de má fase técnica, mas de uma gestão de carga que pode ser interpretada de formas distintas por Ancelotti. O italiano precisa de evidências de ritmo, e o camisa 10 do Santos acumula ausências em campo justamente quando a janela de observação está se fechando.

Decidiu. Ou melhor: a ausência de gols decidiu por Martinelli o que nenhuma análise tática conseguiria reverter em duas semanas.

O efeito dominó nas próximas semanas

A convocação está marcada para 18 de maio. Isso significa que os atacantes têm, na melhor das hipóteses, mais dois ou três jogos para alterar a percepção de Ancelotti. A dinâmica lembra o que acontece num sprint dos 100 metros rasos — não é quem liderou nos primeiros 80 metros que necessariamente cruza a linha na frente, mas quem manteve a cadência até o fim. Pedro liderou os 80 metros. Agora precisa dos 20 finais.

A análise do SportNavo aponta que Ancelotti já visitou o Maracanã pessoalmente para observar Pedro — gesto que, na história recente da Seleção, costuma preceder uma convocação. Tite fez o mesmo com Gabigol em 2022 antes de incluí-lo na lista da Copa do Qatar. Naquele torneio, Gabigol não marcou nenhum gol em campo. A presença física do técnico no estádio não é garantia de vaga, mas é um sinal que o mercado de apostas já precificou.

Rayan, do Lyon, marcou dois gols no período, mas com menor impacto em termos de assistências e participações em grandes jogos. Luiz Henrique fez um golaço pelo Zenit contra o CSKA Moscou, mas joga na Rússia — campeonato fora do radar europeu que Ancelotti acompanha com menos regularidade.

O quadro geral que se desenha

Historicamente, o Brasil levou à Copa de 2002 três centroavantes de referência — Ronaldo, Edilson e Luizão. Em 2006, Parreira apostou em Ronaldo, Adriano e Fred. Em 2014, Felipão escalou Fred como titular mesmo com Hulk e Jo disponíveis. A escolha do centroavante titular nunca foi simples para a Seleção, e os dados desta reta final não simplificam a equação — eles a tornam mais rica e mais difícil ao mesmo tempo.

Pedro soma oito gols em dez jogos, Vini Jr. quatro em sete, Igor Thiago três em quatro. Endrick e Matheus Cunha têm dois cada, com perfis completamente distintos. A lista de Ancelotti comporta, no máximo, quatro ou cinco atacantes puros. Com a convocação em 18 de maio, Pedro tem pelo menos mais um jogo pelo Flamengo no Brasileirão 2026 para consolidar o argumento que já construiu com os números — e Ancelotti, ao que tudo indica, não precisará de muito mais para tomar a decisão que o Maracanã já sugeriu.