Um técnico que jamais convocou Pedro foi à Arena da Baixada especialmente para vê-lo jogar. Esse paradoxo define a noite de domingo em Curitiba com precisão cirúrgica — e a convocação desta segunda-feira (18) é onde ele se resolve.
A última parada antes da lista definitiva
Carlo Ancelotti desembarcou em Curitiba acompanhado do coordenador-geral da CBF, Rodrigo Caetano, em voo particular, sem passar pelo saguão do aeroporto Afonso Pena. Direto para a Arena da Baixada, onde o presidente do Athletico, Mario Celso Petraglia, preparou uma homenagem com a entrega de uma camisa ao treinador italiano. A partida, válida pela 16ª rodada do Brasileirão 2026, foi a última observação presencial de Ancelotti antes de convocar os 26 jogadores que representarão o Brasil na Copa do Mundo.
Desde que assumiu o comando da Seleção, Ancelotti percorreu estádios pelo país acompanhando partidas do Brasileirão, Copa do Brasil e Libertadores. Esta foi sua primeira visita a Curitiba. A pré-lista enviada à FIFA contém 55 nomes, e sete deles vestem o manto rubro-negro: os zagueiros Léo Ortiz e Léo Pereira, os laterais Alex Sandro e Danilo, o meia Lucas Paquetá e os atacantes Samuel Lino e Pedro.
O peso histórico de cada camisa na pré-lista
Danilo e Alex Sandro chegam à véspera da convocação com a vaga praticamente consolidada. Danilo, que já disputou as Copas de 2018 (Rússia) e 2022 (Qatar), onde capitaneou o Brasil em fases eliminatórias, acumula mais de 90 partidas pela Seleção e representa estabilidade na lateral direita. Alex Sandro, por sua vez, esteve em 2018 e retorna ao ciclo principal após temporada sólida no Flamengo, cobrindo a lacuna histórica da lateral esquerda brasileira — posição que desde Roberto Carlos, artilheiro da defesa com 11 gols em Copas, nunca encontrou um sucessor de nível similar.
Léo Pereira tem grandes chances de compor a zaga. O defensor, que passou pela Copa América de 2024 com atuações seguras, tornou-se titular absoluto no Flamengo e referência na marcação individual — dado relevante para um torneio em que o Brasil, nas últimas três edições (2014, 2018 e 2022), sofreu ao menos 7 gols em fase eliminatória. Léo Ortiz e Samuel Lino, segundo análise das fontes consultadas, devem ficar de fora da lista final dos 26.
Quando joga com espaço entre as linhas, Léo Pereira resolve a saída de bola com passes precisos para o meio-campo. Quando joga comprimido, ele recorre à leitura posicional que aprendeu na escola do Athletico antes de migrar para o Rubro-Negro — característica que Ancelotti valoriza em zagueiros que funcionam dentro de uma linha de quatro.
Pedro e a ausência que pode terminar esta segunda-feira
Nenhum nome nessa lista carrega mais tensão dramática do que Pedro. O centroavante de 27 anos é o artilheiro do Flamengo na temporada 2026 e nunca foi convocado por Ancelotti em nenhuma das chamadas anteriores — fato que, por si só, tornaria sua presença na pré-lista de 55 nomes uma declaração de intenção do treinador italiano.
Para contextualizar a lacuna: nas últimas três Copas do Mundo disputadas pelo Brasil, o centroavante titular acumulou participações decisivas. Ronaldo marcou 8 gols em 2002, sendo artilheiro do torneio; Adriano e Robinho dividiram a função em 2006 sem eficiência similar (Brasil eliminou na quartas com apenas 7 gols em 5 jogos); e em 2022, Richarlison foi o nome mais próximo do perfil de 9 fixo, com 3 gols incluindo o voleio contra a Sérvia. Pedro, que marcou 17 gols pelo Flamengo no Brasileirão 2024 e lidera a artilharia do clube em 2026, tem números comparáveis — mas nunca teve a chance de apresentá-los com a camisa amarela.
Quando faz movimentos de ruptura entre os zagueiros adversários, Pedro cria o espaço que Ancelotti costuma explorar com o falso 9 ou com meias chegando por trás. Quando domina de costas para o gol, ele protege a bola e distribui para os extremos com competência técnica acima da média para um centroavante de área.
Segundo a avaliação da comissão técnica de Ancelotti, Pedro está entre os 55 atletas da pré-lista enviada à FIFA, mas não foi convocado pelo treinador nenhuma vez — tornando a partida contra o Athletico sua última oportunidade de mostrar serviço antes da lista definitiva.
Paquetá lesionado e o quebra-cabeça do meio-campo
Lucas Paquetá, o sétimo nome do Flamengo na pré-lista, não deve ter estado em campo contra o Athletico por conta de lesão — o que torna sua situação distinta dos demais. O meia de 27 anos, que marcou 7 gols e distribuiu 9 assistências pela Seleção em suas últimas 30 partidas, tem presença praticamente certa na convocação final independentemente do resultado do jogo de domingo, desde que supere a questão física a tempo do início do torneio.
A presença de Ancelotti na Arena da Baixada também serve a um segundo propósito, de prazo mais longo: o treinador italiano renovou contrato com a CBF até a Copa do Mundo de 2030, e o Athletico tem em seu elenco o zagueiro Arthur Dias, de 19 anos, apontado pela própria comissão técnica como selecionável para o próximo ciclo. Sem estar na pré-lista de 55 nomes para 2026, o jovem defensor pode ter sido observado com olhar prospectivo.
A convocação final ocorre nesta segunda-feira (18), no Rio de Janeiro. Ancelotti retornou à capital fluminense logo após o apito final em Curitiba, utilizando o hangar particular próximo ao aeroporto Afonso Pena. Pedro, Léo Pereira, Alex Sandro, Danilo e Paquetá acordam com o nome na boca do técnico — cada um com probabilidades distintas, todos aguardando a mesma lista.
Na Arena da Baixada, depois que as luzes do campo se apagaram, um homem de terno cruzou o gramado em direção ao corredor de saída sem dar uma única entrevista. Ele já tinha o que precisava.









