Era uma entrevista ao Canal 11, de Portugal. Sem holofote de Copacabana, sem câmera da Globo. Mas a fala que veio de lá atravessou o Atlântico em questão de horas. José Boto, diretor de futebol do Flamengo, rasgou o protocolo e disse em voz alta o que parte considerável do futebol brasileiro sussurrava nos bastidores da Copa do Mundo.

"Gosto muito dele, mas não consegue fazer dois jogos seguidos. É óbvio que ele é o Neymar, mas não consigo entender como um jogador que tem, sei lá, dois jogos nos últimos dois meses, é convocado. E o Pedro, que tem 15 gols e é o artilheiro do Brasileirão, não é convocado. São opções do treinador. E ele vai pagar ou não por elas."

O número que Boto citou ficou aquém da realidade: Pedro acumula 19 gols na temporada e é o vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro de 2026. Do outro lado da balança, Neymar chegou à Copa com o Santos depois de meses de escassez de minutos e, até o jogo contra o Haiti na sexta-feira (19), ainda não havia pisado em campo pela Seleção.

O que os números de Pedro dizem que a convocação ignorou

Falar que Pedro está em boa fase é subestimar o que ele está fazendo neste Brasileirão. A análise de desempenho vai muito além da contagem de gols — e é aí que a ausência dele na Copa começa a parecer difícil de justificar tecnicamente.

  • xG (expected goals) acumulado: Pedro vem superando consistentemente seu xG na temporada, o que indica que ele não apenas finaliza muito, mas finaliza bem — chutes de posição qualificada, dentro da área, com o pé dominante.
  • Ações defensivas: um dado que poucos citam, mas que Ancelotti valoriza em centroavantes modernos. Pedro pressiona a saída de bola adversária com frequência acima da média dos atacantes do Brasileirão, contribuindo no PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do Flamengo.
  • Progressive passes recebidos: ele é o atacante que mais recebe passes progressivos no time rubro-negro, o que mostra que os meio-campistas confiam na sua movimentação para abrir espaço e finalizar.

Em termos simples: Pedro não é só um matador de área. Ele é um centroavante que conecta linhas, pressiona defensores e converte oportunidades de alta qualidade. O xG dele na temporada já passou de 14, mas ele marcou 19 — uma diferença de +5 que coloca o camisa 9 do Flamengo entre os atacantes mais eficientes do futebol sul-americano no momento.

O que os números de Pedro dizem que a convocação ignorou Pedro tem 19 gols e Bot
O que os números de Pedro dizem que a convocação ignorou Pedro tem 19 gols e Bot

Neymar na Copa sem jogar e o dilema que Ancelotti criou para si mesmo

A situação de Neymar é delicada por razões que vão além da polêmica com Boto. O camisa 10 do Santos chegou ao Mundial carregando um histórico recente de ausências: menos de dois jogos completos nos dois meses anteriores à convocação, conforme apontado pelo próprio dirigente rubro-negro. Sem ritmo de jogo, ele ficou fora dos dois primeiros compromissos da fase de grupos.

Carlo Ancelotti, porém, não recuou. Após a vitória sobre o Haiti, o técnico italiano revelou que Neymar será relacionado para o jogo contra a Escócia, marcado para a quarta-feira, 24 de junho. O Brasil lidera o Grupo C com quatro pontos — mesma pontuação de Marrocos — e precisa de apenas um empate para avançar à segunda fase.

A lógica de Ancelotti parece ser a seguinte: usar Neymar numa partida em que o Brasil não precisa ganhar a qualquer custo, dando ao camisa 10 os minutos necessários para chegar ao mata-mata em ritmo. É uma gestão de risco calculada. Mas, como disse Boto, "ele vai pagar ou não por elas".

O problema é que essa aposta tem custo de oportunidade. Cada minuto que Neymar ocupa no grupo é um minuto que Pedro — em forma, em ritmo, com 19 gols nas pernas — não tem. No futebol contemporâneo, há um ditado que se aplica bem aqui: quem não tem cão caça com gato. Só que, no caso da Seleção, o cão está em casa e o gato ainda está se recuperando.

A leitura de conjunto e o que está em jogo para a Seleção

A crítica de Boto não é isolada. Ela representa uma tensão real que existe dentro do futebol brasileiro entre a narrativa sentimental em torno de Neymar e a frieza dos dados que sustentam Pedro como a escolha mais lógica para este momento.

Do ponto de vista tático, a ausência de um centroavante de referência com ritmo de jogo afeta diretamente métricas coletivas da Seleção. O xA (expected assists) dos meias, por exemplo, tende a ser subaproveitado quando não há um atacante de área capaz de converter oportunidades de alta probabilidade — exatamente o que Pedro faz de forma consistente no Flamengo.

Contra o Haiti, o Brasil venceu, mas sem brilho ofensivo que justificasse plenamente as escolhas de Ancelotti. A Seleção criou chances, mas o aproveitamento ficou abaixo do esperado para um time favorito ao título. Com um centroavante em forma como Pedro, parte dessas chances teria virado gol — a matemática do xG não mente.

Neymar na Copa sem jogar e o dilema que Ancelotti criou para si mesmo Pedro tem
Neymar na Copa sem jogar e o dilema que Ancelotti criou para si mesmo Pedro tem

Boto falou o que falou num canal português, longe dos holofotes brasileiros, mas o eco chegou aqui. A polêmica, registrada em reportagem publicada pelo SportNavo, expõe uma questão que vai além de Neymar ou Pedro: até onde a lealdade a um nome histórico pode sobrepor a meritocracia numa Copa do Mundo?

A resposta começa a ser escrita na quarta-feira, quando o Brasil enfrenta a Escócia. Se Neymar entrar e decidir, Ancelotti terá seu argumento. Se a Seleção travar, o nome de Pedro vai ecoar mais alto — e a crítica de Boto vai parecer cada vez menos polêmica e cada vez mais profética. É o mesmo cenário que a Argentina viveu em 2010, quando Maradona insistiu em Riquelme e o time parou nas quartas — só que agora a aposta é diferente: o nome no centro da discussão ainda pode entrar em campo e mudar tudo.