Pela primeira vez em toda a história da Superliga Feminina, a grande final será disputada por dois técnicos estrangeiros. No domingo (3), a partir das 10h (de Brasília), no Ginásio do Ibirapuera, o italiano Lorenzo Pintus, do Minas Tênis Clube, e o português Rui Moreira, do Praia Clube, disputam o título da temporada 2025/26 — um marco que vai muito além do protocolo esportivo e sinaliza uma transformação profunda na forma como o Brasil forma e contrata seus comandantes de quadra.
A continuidade da escola italiana na Rua da Bahia
Pintus, 44 anos, não chegou ao Minas como um experimento isolado. Ele é o terceiro italiano consecutivo no cargo, sucedendo Nicola Negro e Stefano Lavarini, ambos campeões da Superliga pelo clube mineiro. A sequência não é coincidência: o modelo de jogo italiano, ancorado na leitura de bloqueio, na construção coletiva do ataque e na variação de tempo de bola — levantamento de tempo rápido, pipe, combinações em zona de conflito —, encontrou no plantel do Minas um laboratório fértil.
Nesta temporada, a primeira experiência profissional de Pintus fora da Itália, onde trabalhou em clubes como Busto Arsizio, Casalmaggiore e Cuneo, rendeu resultados concretos: 31 vitórias em 38 partidas, título do Campeonato Mineiro, vice-campeonato da Copa Brasil e a segunda melhor campanha da fase classificatória da Superliga. Nos playoffs, o time eliminou Maringá e Osasco em sequência. Segundo análise exclusiva do SportNavo, a eficiência de bloqueio do Minas nos jogos decisivos ficou consistentemente acima de 18% de pontos diretos por set — índice que o coloca entre as melhores defesas de linha de frente da temporada.
"Pintus trouxe uma identidade tática muito clara, com movimentações ensaiadas que dificultam a leitura do bloqueio adversário", observou uma analista de desempenho credenciada pela CBV durante as semifinais.
Rui Moreira e o processo de reconstrução aurinegro
O caminho de Rui Moreira até a final foi menos linear. O técnico português de 40 anos chegou ao Praia Clube para substituir Marcos Miranda e tornou-se o primeiro estrangeiro a comandar o clube de Uberlândia. Em sua bagagem, trabalhos com as seleções adulta e de base de Portugal, tanto no masculino quanto no feminino — uma pluralidade de repertório que se refletiu na adaptabilidade tática ao longo da temporada.

A primeira metade do campeonato foi turbulenta: o Praia perdeu o título do Campeonato Mineiro, ficou fora do pódio no Mundial de Clubes e chegou a ameaçar ficar fora do top 4 da fase classificatória, terminando na quarta posição. Sob pressão da torcida, Moreira não alterou o núcleo do projeto. Nos playoffs, o time eliminou Sesi Bauru e, depois, o Sesc RJ Flamengo em duas séries de três jogos — ambas decididas com variações no saque viagem e ajustes no posicionamento de recepção que neutralizaram os sistemas ofensivos adversários. O Praia somou 40 partidas na temporada.
"A evolução do grupo ao longo dos playoffs mostra que o processo estava certo, mesmo quando os resultados não eram os esperados", afirmou Rui Moreira em entrevista após a classificação para a final.
O Ibirapuera e o peso histórico do palco
A final de domingo será a terceira vez que o Ginásio do Ibirapuera recebe a decisão da Superliga Feminina. O espaço já foi palco de duas atuações antológicas. Em 2012/13, a canadense Sarah Pavan, então no Rio de Janeiro (atual Sesc RJ Flamengo), marcou 22 pontos na virada sobre o Osasco por 3 sets a 2 — saindo de 0 a 2 para fechar em 3 a 2, com parciais 19/25, 25/20, 25/15 e 15/9. Na temporada passada, também no Ibirapuera, Natália Zilio entrou em transe pelo Osasco: 25 pontos no jogo, que terminou 3 a 1 sobre o Sesi Bauru. A ponteira levou o MVP da Superliga, enquanto a líbero Camila Brait — aposentada recentemente — foi eleita a melhor jogadora da final.
O histórico do ginásio acrescenta pressão técnica real sobre as delegações. No vôlei de alto rendimento, a gestão de intensidade em sets disputados — especialmente quando o placar atinge a zona de conflito entre 20 e 24 pontos — costuma ser determinada pelo grau de controle tático do banco de reservas. Pintus e Rui Moreira serão testados exatamente nisso.
O que a final revela sobre o vôlei feminino nacional
A chegada de dois técnicos europeus à grande final não é um acaso de calendário. Reflete uma tendência de profissionalização da gestão técnica nos clubes de elite, com investimento em metodologias de análise de dados, periodização de carga e especificidade no treinamento de fundamentos como o bloqueio duplo e a cobertura de ataque. O levantamento do SportNavo aponta que, das últimas seis edições da Superliga Feminina, quatro foram decididas por equipes com comissões técnicas que incluíam ao menos um profissional estrangeiro.
A bola sobe no Ibirapuera neste domingo às 10h. Pintus busca igualar os compatriotas Lavarini e Negro na galeria dos campeões do Minas. Rui Moreira persegue algo inédito: tornar-se o primeiro técnico português a conquistar a Superliga Feminina do Brasil — e abrir, com isso, um capítulo que o vôlei nacional ainda não escreveu.








