Se a Copa do Mundo começasse hoje, Piquerez estaria fora. Não por falta de vontade, não por descuido — mas porque o tornozelo esquerdo ainda não suporta a carga de uma partida de alto nível. Essa é a realidade crua de uma segunda-feira de maio no CT do Palmeiras: o lateral uruguaio trabalha com bola na Academia de Futebol, supervisionado pela fisioterapia do clube, mas ainda a semanas de distância do gramado competitivo.
A resolução, no entanto, chega com os números no calendário. O Mundial abre em meados de junho. Piquerez está na sétima semana de recuperação. A janela é estreita, mas matematicamente viável — e essa é exatamente a aposta que o jogador e sua comissão médica decidiram fazer.
A lesão que dividiu opiniões dentro do vestiário uruguaio
O episódio que desencadeou toda essa corrida contra o relógio aconteceu em amistoso entre Uruguai e Inglaterra. Piquerez sofreu lesão ligamentar no tornozelo — o tipo de trauma que, dependendo do grau de comprometimento estrutural, normalmente encaminha o atleta direto para a sala de cirurgia. A decisão de não operar foi deliberada e calculada.
Do ponto de vista biomecânico, lesões ligamentares de grau moderado respondem ao tratamento conservador quando há suporte muscular adequado e protocolo de fortalecimento progressivo. Piquerez, aos 26 anos, tem histórico de resistência física e musculatura periarticular desenvolvida — variáveis que pesam na decisão clínica. A escolha pelo tratamento conservador encurta o prazo de afastamento em relação à intervenção cirúrgica, que adicionaria entre quatro e seis semanas de imobilização pós-operatória.
O próprio jogador colocou em palavras o estado atual da recuperação:
"Logo depois da cirurgia, já comecei minha recuperação. Estou indo para a sétima semana e entrando na etapa mais importante antes de poder voltar aos gramados. Estou indo muito bem e espero continuar dessa forma para poder voltar a estar com o elenco."
Há uma imprecisão que circulou nas notícias sobre o caso e merece atenção: Piquerez não realizou cirurgia, mas o jogador mencionou o termo em sua fala — o que gerou leituras contraditórias. A linha oficial do clube e do estafe do atleta aponta para recuperação conservadora, sem procedimento invasivo.
O precedente de Vitor Roque e o que os dados dizem sobre retorno ao futebol de alto nível
Piquerez não está sozinho nessa corrida. O atacante Vitor Roque, também do Palmeiras, apresenta diagnóstico idêntico — lesão ligamentar no tornozelo — e segue o mesmo cronograma de afastamento até a pausa para o Mundial. A coincidência é relevante porque cria, dentro da Academia de Futebol, um ambiente de reabilitação paralela que facilita o monitoramento comparativo de ambos os casos.
A literatura esportiva sobre retorno ao futebol após lesão ligamentar sem cirurgia aponta janela de dois a três meses para atletas de elite com suporte multidisciplinar intensivo. Sete semanas já cumpridas posicionam Piquerez na fase de transição entre o trabalho de fortalecimento isolado e a reintegração progressiva ao treino coletivo — exatamente o estágio descrito nas atividades com bola desta segunda-feira.
O SportNavo acompanhou casos similares nos últimos dois ciclos de Copa: defensores laterais que optaram pelo tratamento conservador em lesões ligamentares de grau II conseguiram retornar ao futebol competitivo entre 55 e 70 dias após o diagnóstico. Piquerez está dentro dessa curva — desde que não haja recidiva.
O que Bielsa precisa e o que Piquerez pode oferecer
Marcelo Bielsa constrói o Uruguai em torno de laterais com capacidade de sobreposição intensa e participação na saída de bola. O sistema bielsistaexige que o lateral-esquerdo funcione quase como um terceiro volante na fase defensiva e como um extremo invertido na transição ofensiva — demanda física que não admite atleta com restrição de mobilidade no tornozelo.
Piquerez é peça central nesse modelo. Sua capacidade de cobrir a linha de pressão alta e ainda aparecer nos terços finais como opção de profundidade faz dele um perfil difícil de substituir no esquema uruguaio. Bielsa, por sua vez, é notoriamente criterioso em relação a atletas que chegam ao torneio sem minutos competitivos recentes — mas fontes próximas ao atleta indicam que ele estará na lista final mesmo que não esteja em condição ideal para o início do Mundial.
"Hoje assisti a uma parte do treino e a verdade é que isso me deixa com muita saudade de fazer o que eu gosto. Graças a Deus está indo tudo bem e estou mais perto dessa etapa, de estar com meus companheiros e ajudar o time."
A fala revela algo taticamente relevante: Piquerez ainda não está integrado ao grupo. Assistiu ao treino como observador. Isso significa que a reintegração coletiva — fase crítica para testar a estabilidade do tornozelo em situações de disputa e mudança de direção — ainda não foi iniciada.
A janela final e os riscos que ninguém está calculando em voz alta
O risco real não é chegar à Copa. É chegar à Copa e agravar a lesão numa partida de fase de grupos. Atletas que retornam de lesão ligamentar sem completar o ciclo de propriocepção avançada têm índice de recidiva entre 15% e 25% nos primeiros 30 dias de atividade competitiva — dado consistente em estudos da UEFA Medical Committee publicados entre 2020 e 2023.

A decisão de não operar comprime o risco imediato de perder o torneio, mas distribui esse risco ao longo das partidas. Se Piquerez jogar com o tornozelo em 80% da capacidade estrutural, qualquer disputa de bola em alta intensidade pode representar uma sobrecarga capaz de romper o que o tratamento conservador consolidou.

O Palmeiras, por sua vez, monitora o calendário com atenção: o clube só terá Piquerez disponível de volta ao Brasileirão após o Mundial, o que significa que o lateral precisará de pelo menos uma semana de treinos coletivos antes de ser considerado para qualquer lista de convocação da Seleção Celeste.
Na Academia de Futebol nesta segunda-feira, Piquerez tocava a bola com o pé esquerdo, sob a luz fria do CT paulistano, enquanto o grupo principal trabalhava no campo ao lado. Dois campos, dois ritmos, uma mesma contagem regressiva.









