Diz-se que o futebol mexicano tem um dos torcedores mais ruidosos e apaixonados do mundo. Tem, de fato. O que essa narrativa omite é que parte desse barulho carrega, há duas décadas, uma carga discriminatória que a própria Copa do Mundo não conseguiu silenciar — e que hoje obriga a Federação Mexicana de Futebol (FMF) a convocar ídolos de 1986 para tentar fazer o que multas e portões fechados não fizeram.
O grito que nasceu num torneio pré-olímpico e virou símbolo involuntário
O cântico "eeeeeh, puto" — proferido toda vez que um goleiro adversário repõe a bola em jogo — foi registrado pela primeira vez em partidas oficiais durante o torneio pré-olímpico de 2004. Não surgiu de uma torcida organizada com manifesto ideológico. Surgiu como acontecem muitos rituais de arquibancada: pela repetição, pelo contágio, pelo prazer coletivo de uma sincronia sonora. Como o trânsito da Avenida Paulista às 18h, que ninguém planejou mas todos alimentam, o grito se tornou parte da paisagem antes que alguém decidisse questioná-lo.
Durante dez anos, o cântico circulou sem consequências institucionais relevantes. Foi na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, que o episódio ganhou visibilidade global — e a Fifa passou a tratá-lo como caso de discriminação. O marco punitivo mais concreto veio em 2018, na Rússia: após a partida do México contra a Alemanha, a Fifa multou a FMF em 10.000 francos suíços, equivalentes a aproximadamente 10.000 dólares da época. Um valor que, para uma federação que movimenta dezenas de milhões de dólares anuais em direitos de transmissão e patrocínios, tem impacto simbólico quase nulo.
Multas que não doem e portões que não educam
A trajetória das sanções aplicadas à FMF revela um problema estrutural na governança esportiva: punições financeiras calibradas para o porte econômico de federações menores perdem qualquer poder dissuasório quando aplicadas a entidades com receitas robustas. A Fifa, ao longo dos anos, também recorreu ao recurso de mandar o México jogar com portões fechados — medida que penaliza o torcedor que não grita tanto quanto aquele que grita. A lógica punitiva coletiva raramente produz mudança de comportamento individual.

A Concacaf e a FMF chegaram a estabelecer um protocolo de três fases para seus torneios: primeiro, a interrupção da partida; depois, a retirada temporária dos jogadores para os vestiários; por fim, a suspensão definitiva do jogo. O protocolo existe no papel desde há alguns anos. Sua aplicação efetiva, contudo, tem sido irregular — e a ameaça de uma partida suspensa numa Copa do Mundo, com toda a pressão política e econômica envolvida, é uma decisão que nenhum árbitro tomará levianamente.
Na avaliação do SportNavo, o problema central não é a ausência de regras, mas a ausência de consequências percebidas como reais pela massa de torcedores que perpetua o cântico. Quando a punição recai sobre a federação ou sobre o espetáculo em abstrato, o indivíduo que grita não sente nenhum custo pessoal.
Hugo Sánchez, Aguirre e a aposta na autoridade simbólica
A campanha lançada pela FMF em maio de 2026 divide-se em duas etapas. Na primeira, entre 21 e 31 de maio, figuras como Fernando Quirarte e Luis Flores — membros do elenco histórico da Copa de 1986 — veiculam mensagens em plataformas digitais. Na segunda etapa, de 1º a 30 de junho, entram em cena os nomes de maior apelo: Hugo Sánchez, o maior artilheiro da história da seleção mexicana, e Javier Aguirre, atual técnico do El Tri.
"Esta campanha visa conscientizar os torcedores sobre a importância de apoiar a seleção mexicana com 'a ola', em vez de fazê-lo com cânticos discriminatórios, os quais estão sujeitos a sanções da Fifa", anunciou a FMF em comunicado oficial.
A escolha de ícones de 1986 não é casual. Aquela geração representa o ápice histórico do futebol mexicano — as quartas de final disputadas em casa, a geração de Sánchez no Real Madrid, a identidade nacional construída em torno daquele torneio. Apelar a esses personagens é uma tentativa de criar uma dissonância cognitiva no torcedor: como você pode desonrar o legado desses homens com um grito que envergonha o país no palco mais visto do mundo?
As mensagens serão veiculadas nos três últimos amistosos de preparação da seleção: contra Gana em 22 de maio, em Puebla; contra a Austrália em 30 de maio, em Pasadena; e contra a Sérvia em 4 de junho, em Toluca. O México estreia na Copa do Mundo de 2026 em 11 de junho, no Estádio Azteca, diante da África do Sul — uma partida com altíssima carga simbólica, num estádio com capacidade para mais de 80.000 pessoas, transmitida para dezenas de países.
O que a sociologia do esporte diz sobre campanhas de conscientização
Pesquisas sobre mudança de comportamento em contextos de torcida — como os estudos conduzidos pelo Centre for Sports Business da Universidade de Salford, no Reino Unido — indicam que campanhas de curto prazo têm eficácia limitada quando o comportamento-alvo está ritualizado há anos. A mudança sustentável exige intervenção no processo de socialização esportiva: nas escolinhas, nas transmissões de TV, no discurso dos narradores e comentaristas.
O caso inglês com o racismo nas arquibancadas, que levou décadas de trabalho coordenado entre federações, clubes, governo e organizações como o Kick It Out, oferece um parâmetro de escala temporal realista. Não se trata de pessimismo — trata-se de calibrar expectativas. Uma campanha de 40 dias com rostos conhecidos pode iniciar uma conversa. Não encerra o problema.
O México chega à Copa do Mundo de 2026 como co-anfitrião, com jogos no Azteca, no Estadio Akron e no Estadio BBVA, sob escrutínio internacional máximo. A FMF sabe que uma única transmissão global com o grito audível pode gerar manchetes que nenhum departamento de marketing apaga. O cálculo institucional, portanto, é legítimo — mesmo que insuficiente como política de longo prazo. O jogo de estreia contra a África do Sul, marcado para 11 de junho no Azteca, será o primeiro teste real de quanto essa campanha de 40 dias conseguiu mover uma tradição de 22 anos.











