O placar de 0 a 4 contra a Costa do Marfim ainda ecoa nos corredores da federação sul-coreana. Foi em março, durante a janela FIFA, e veio acompanhado de um 0 a 1 para a Áustria — sequência que jogou o técnico Hong Myung-bo numa crise de credibilidade raramente vista num ciclo tão próximo de Copa do Mundo. O amistoso desta quarta-feira (4 de junho) contra El Salvador, no America First Field, em Salt Lake City, Utah, não é apenas um jogo de aquecimento: é a última chance de responder perguntas que o Mundial vai cobrar com juros.
O que os dois resultados de março revelam sobre a Coreia do Sul
Há uma métrica que os analistas de dados utilizam para medir a qualidade defensiva de uma equipe além do simples número de gols sofridos: o PPDA (passes permitidos por ação defensiva), que indica o quanto um time pressiona o adversário na saída de bola. Quanto menor o índice, mais agressiva é a pressão. Nas partidas contra Costa do Marfim e Áustria, a Coreia do Sul registrou PPDA acima de 14 — em termos simples, deixou o rival construir sem ser incomodado por longas sequências de passes. Para uma equipe que vai enfrentar México, África do Sul e República Tcheca no Grupo A, esse número é um alarme.
A vitória por 5 a 0 sobre Trinidad e Tobago, no último fim de semana, amenizou o ambiente, mas a qualidade do adversário exige cautela na leitura. Ainda assim, foi a maior goleada dos sul-coreanos desde o 7 a 0 sobre Singapura, em junho de 2024, nas eliminatórias asiáticas. Hong Myung-bo precisava de um resultado assim para estabilizar o grupo antes do embarque definitivo para a Copa.
"Quando uma seleção entra numa Copa com duas goleadas sofridas no currículo recente, o que ela busca no último amistoso não é gol — é estrutura. É ver se o bloco defensivo responde automaticamente, sem precisar pensar", observou um analista tático consultado por reportagem publicada pelo SportNavo.
Nas eliminatórias, a Coreia do Sul construiu um retrospecto robusto: 16 partidas sem derrota, com 11 vitórias, 5 empates e 40 gols marcados. Esses números garantiram a 11ª participação consecutiva em Copas do Mundo — série que começou em 1986, no México, e nunca foi interrompida. A consistência classificatória, porém, contrasta com a fragilidade exibida contra seleções de nível intermediário europeu.
El Salvador como adversário e o que o histórico dos confrontos diz
O único precedente direto entre as duas seleções nesta década ocorreu em junho de 2023, em Daejeon, e terminou em empate por 1 a 1 — resultado que, à época, foi lido como mero ruído estatístico, mas que hoje assume outro peso. El Salvador não se classificou para a Copa de 2026 após terminar em último lugar no Grupo A das eliminatórias da CONCACAF, com apenas uma vitória em seis partidas, atrás de Panamá, Suriname e Guatemala.
O técnico salvadorenho Hernán Darío Gómez — o mesmo colombiano que já comandou Equador e Panamá em Mundiais — montou uma equipe que, apesar da ausência na Copa, tem mostrado reação em 2026: empate em 2 a 2 com a República Dominicana e vitória por 1 a 0 sobre Martinica. El Salvador ocupa a 100ª posição no ranking FIFA, o que situa o confronto numa faixa em que a Coreia do Sul (entre as 25 primeiras do mundo) deveria impor superioridade sem dificuldade — mas o 1 a 1 de 2023 lembra que papel não joga futebol.
Para Hong Myung-bo, o jogo serve para afinar o esquema que vai usar na estreia do Mundial. O capitão Son Heung-min, que chegou à Copa de 2022 com uma fratura na face e mesmo assim jogou com máscara de proteção, é o símbolo da resiliência sul-coreana. Na Copa do Catar, a equipe avançou às oitavas ao vencer Portugal por 2 a 1 na última rodada da fase de grupos, em resultado que eliminou o Uruguai. Mas caiu diante do Brasil por 4 a 1. A memória desse confronto certamente habita o vestiário ao montar o plano para enfrentar adversários de alto nível.
O que ainda falta resolver antes da estreia contra a República Tcheca
A República Tcheca estreia no Grupo A em 11 de junho, e é justamente contra ela que a Coreia do Sul abre sua campanha. Os tchecos chegam ao Mundial com uma geração experiente no futebol europeu — Tomáš Souček, do West Ham, e Patrik Schick, do Bayer Leverkusen, são referências num time que combina fisicalidade com transição rápida. Exatamente o perfil que expôs as fragilidades sul-coreanas em março.
O que Hong Myung-bo precisa resolver no America First Field vai além do marcador final. A posicionamento da linha defensiva durante as transições, a dinâmica entre os meias e a capacidade de Son criar em espaços reduzidos são as três variáveis que o treinador vai observar com mais atenção nos 90 minutos contra El Salvador. Uma vitória confortável, com clean sheet, representaria o melhor cenário possível — não pelo placar em si, mas pelo que ele comunica internamente ao grupo antes do maior desafio da temporada.
O jogo desta quarta-feira tem início às 22h (horário de Brasília), com transmissão ao vivo pelo SporTV. Caso a Coreia do Sul vença com margem e desempenho sólido, Hong Myung-bo poderá apresentar a Copa do Mundo com o grupo reunificado após a turbulência de março. Caso repita o empate de 2023 contra o mesmo adversário, as perguntas que chegaram ao Utah vão embarcar junto para a fase de grupos.









