O Brasil venceu por 6 a 2. Alisson não cometeu erro algum. E ainda assim saiu do Maracanã sob vaias. Esse paradoxo, vivido neste domingo, 31 de maio, resume algo que vai muito além de um amistoso de preparação — e que pode pesar dentro de campo quando a Copa do Mundo começar de verdade, no dia 13 de junho, contra Marrocos.

O gol que não foi culpa dele — e a memória que pesou mais

O Panamá marcou em cobrança de falta. A bola desviou antes de entrar. Alisson foi para o lado certo, tocou no jogador, e o gol aconteceu. Não houve hesitação. Não houve erro de posicionamento. Houve uma bola desviada — o tipo de lance que escapa do controle de qualquer goleiro no planeta. Mesmo assim, parte da arquibancada reagiu com vaias.

Walter Casagrande, no Canal UOL, foi direto ao ponto:

"Eu acho porque é muito óbvio que ele tá marcado da eliminação de 2018 contra a Bélgica e da eliminação contra a Croácia. A falta bateu, ele tava chegando na bola. Ele foi pro lado certo. Pegou no cara e entrou. Então é óbvio que aquelas vaias não faziam sentido."

O torcedor não estava julgando o lance de hoje. Estava cobrando uma dívida de anos. E essa é a diferença entre crítica técnica e pressão emocional acumulada.

Taffarel também chegou marcado — e levantou a taça

A cena tem precedente. Antes da Copa de 1994, nos Estados Unidos, Cláudio Taffarel carregava o mesmo rótulo que Alisson carrega agora: o goleiro que não pega pênalti. O comentarista Julio Gomes lembrou o episódio com precisão:

"Antes da Copa de 94, o que o público brasileiro falava do Taffarel? 'Ah, o cara não pegou pênalti. O cara não pegou o pênalti.' Não é a especialidade dele. Tem alguns goleiros que são especialistas em pênalti. O Alisson não é um especialista. Agora, cobrar o goleiro por isso..."

Taffarel foi para os Estados Unidos com a desconfiança da torcida nas costas. Voltou com a taça. A memória coletiva do futebol brasileiro é curta quando o time perde — e seletiva quando ganha.

O risco real não é técnico, é psicológico

Casagrande tocou no ponto que ninguém quer admitir abertamente: o perigo das vaias não está na qualidade de Alisson entre as traves, mas no que aquilo faz com a cabeça de um atleta na véspera de uma Copa do Mundo.

"Me preocupa só pela cabeça dele. Hoje, ganhou de 6 a 2 no Panamá, um jogo que não conta nada, absolutamente nada. Ele saiu, no primeiro tempo ele deve estar pensando: 'Pô, os caras estão me vaiando por quê? O que eu fiz?'"

Alisson tem 32 anos, é titular do Liverpool há anos e foi eleito o melhor goleiro do mundo em 2019. Não é um atleta frágil. Mas nenhum profissional é impermeável ao ruído de 70 mil pessoas num estádio que deveria ser sua casa.

O que a Seleção precisa resolver antes de Nova Jersey

Carlo Ancelotti escalou Alisson sem hesitação para o amistoso deste domingo — a formação foi confirmada na véspera: Alisson; Wesley, Bremer, Léo Pereira e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Matheus Cunha, Raphinha e Vinicius Jr. A confiança da comissão técnica no goleiro é pública e clara.

O problema não está no vestiário. Está nas arquibancadas — e no eco que elas deixam. A Seleção ainda enfrenta o Egito no dia 6 de junho, em Cleveland, antes de estrear na Copa contra Marrocos, no dia 13, em Nova Jersey. São dois jogos para Alisson construir uma relação diferente com quem vai torcer por ele.

Taffarel virou herói em Pasadena. Alisson tem a chance de escrever o mesmo tipo de história — desde que o barulho de hoje não ocupe espaço onde deveria estar a concentração.

A torcida vaiou o goleiro errado no dia errado. Agora é trabalho do goleiro certo provar isso no momento certo.