A mansão em Santos estava cheia. Amigos de infância, familiares, a esposa Bruna Biancardi, o cantor Thiaguinho, o jogador de vôlei Bruninho e membros da equipe pessoal ocupavam os cômodos enquanto a televisão transmitia o anúncio de Carlo Ancelotti. Quando o nome do camisa 10 do Santos foi pronunciado, o silêncio durou uma fração de segundo — e então veio o choro. Neymar Júnior, 33 anos, estava na sua quarta Copa do Mundo.

A primeira pessoa que ele abraçou não foi a esposa. Foi Rafael Martini, o fisioterapeuta que o acompanha desde a primeira passagem pelo Santos e que conduziu o processo de recuperação das seguidas lesões dos últimos três anos. O gesto diz muito sobre o que essa convocação representa: não é apenas futebol. É a conclusão de um processo clínico e emocional que começou com o rompimento do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, em outubro de 2023, em Montevidéu, durante jogo das Eliminatórias.

O argumento de Ancelotti que dividiu os especialistas

A convocação não foi unânime — e o debate técnico que ela gerou é legítimo. O colunista Rodrigo Mattos, do Canal UOL, foi direto ao ponto no programa Cartão Vermelho:

"Neymar não mereceu porque ele não estava entre os 26 melhores jogadores brasileiros. Só isso. Mas também não deixarei de gostar do trabalho do Ancelotti por causa disso. Ele apresentou razões plausíveis, que são mais extracampo, como estar bem fisicamente e ser bom para o grupo. Razões essas que, embora eu entenda como plausíveis, não concordo. Eu não o teria chamado, mas nem por isso acho que a decisão tenha sido estapafúrdia."

A avaliação de Mattos captura com precisão o dilema central. Ancelotti não convocou Neymar pela régua técnica pura dos últimos meses — convocou por uma combinação de fatores que inclui forma física recuperada, influência no vestiário e o peso simbólico de um jogador com 12 partidas disputadas em Copas, oito gols marcados e três assistências. Segundo apuração do SportNavo, havia inclusive tensão até o último momento por conta de uma contusão sofrida contra o Coritiba no domingo, 17 de maio, o que manteve a dúvida sobre a gravidade do problema físico até a divulgação da lista.

Mattos também apontou o ambiente gerado em torno da convocação como prejudicial ao trabalho do técnico italiano.

"O que foi criado ali trouxe uma pressão muito forte no técnico, que na minha visão é indevida. O ambiente deveria ser mais neutro para ele fazer a convocação. Eu o vi meio tenso. Ele disse que não e repetiu depois no Jornal Nacional. Mas as pessoas que vi próximas a ele disseram que ele estava tenso, sim."

Neymar entra para um grupo de apenas nove nomes na história

Independentemente do debate sobre merecimento imediato, a dimensão histórica da convocação é inegável. Com a presença confirmada no torneio de 2026, Neymar se torna o nono jogador da história a disputar quatro edições da Copa do Mundo com a Seleção Brasileira. A lista é curta e seleta: Castilho (1950, 1954, 1958 e 1962), Djalma Santos (1954, 1958, 1962 e 1966), Nilton Santos (1950, 1954, 1958 e 1962), Pelé (1958, 1962, 1966 e 1970), Emerson Leão (1970, 1974, 1978 e 1986), Cafu (1994, 1998, 2002 e 2006), Ronaldo (1994, 1998, 2002 e 2006) e Thiago Silva (2010, 2014, 2018 e 2022).

Para ter noção da raridade desse feito, a diferença entre os que chegaram a três Copas e os que chegaram a quatro é, proporcionalmente, da distância entre Recife e Porto Alegre — centenas de atletas na base, pouquíssimos no topo. Dos oito que o antecederam nessa lista, metade integra o panteão dos maiores jogadores da história do futebol mundial. Ronaldo, por exemplo, somou 15 gols em Copas — o recorde histórico do Brasil —, enquanto Pelé acumulou 12 gols em quatro edições. Neymar, com oito gols em três participações anteriores, ainda tem espaço para avançar nessa estatística.

A reação emocional e o que ela revela sobre o atleta

O vídeo publicado no canal oficial de Neymar no YouTube documentou cada detalhe dos bastidores. Após o abraço com Martini, o atacante telefonou para Raphinha, do Barcelona, também confirmado por Ancelotti. A conversa foi curta e objetiva. Junto à esposa, Neymar fez uma promessa: "Nós vamos ganhar essa p…". Depois ligou para o pai.

"Nós conseguimos, pai. Deu certo. Que alívio. Muito feliz", disse Neymar, em lágrimas, ao telefone.

O pai, Neymar Santos Sr., respondeu com uma publicação no Instagram que mesclou desabafo e gratidão. "Filho, poderia escrever sobre as dores e as dúvidas que nos assombraram desde aquela lesão em Montevidéu... ou poderia lembrar de alguns comentários que tivemos que ler/ouvir calados durante o processo. Mas hoje é um dia feliz", escreveu. A referência à lesão de Montevidéu — outubro de 2023, durante o Brasil 2x0 Uruguai pelas Eliminatórias — é precisa: foi o ponto de virada que colocou em risco não apenas a Copa de 2026, mas a continuidade da carreira.

O próprio atacante resumiu o significado da convocação com clareza: "É difícil não se emocionar. Com tudo que a gente passou, com tudo que eles viram eu passar… e eu chegar… conseguir, né, disputar mais uma Copa do Mundo. É incrível. É um choro de muita felicidade." Também agradeceu publicamente aos torcedores que o apoiaram durante o período de recuperação e expressou o objetivo coletivo: "Agora somos todos um só. Temos mais uma Copa do Mundo pra disputar. Com certeza daremos a vida pra trazer uma copa pro Brasil."

O que Neymar precisa entregar para justificar a aposta de Ancelotti

A convocação está feita. O debate sobre se ela foi tecnicamente correta continuará nos próximos dias — e provavelmente até o início do torneio. Mas o campo é o único árbitro definitivo. Neymar chega à Copa de 2026 com o menor volume de minutos jogados entre suas quatro participações: as seguidas lesões no joelho esquerdo e na panturrilha limitaram drasticamente sua presença em campo desde 2023. O Santos, clube pelo qual voltou a jogar em 2025 após o período no Al-Hilal, tem administrado sua carga com cautela.

Ancelotti, ao justificar a convocação com critérios de forma física e contribuição ao grupo, assumiu uma responsabilidade clara: se Neymar não render dentro de campo no torneio, a decisão será relembrada como erro de avaliação. Se render — especialmente em jogos decisivos, como fez em 2014 contra Camarões (dois gols e uma assistência) e em 2022 contra a Coreia do Sul (um gol e uma assistência) —, o técnico italiano terá provado que o olhar clínico sobre o estado do atleta foi mais preciso do que as métricas de mercado. O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 na fase de grupos, com o torneio sendo disputado em território norte-americano, canadense e mexicano a partir de junho.