O pesadelo se repete a cada edição da Copa Sul-Americana. Santos, Vasco da Gama e Grêmio protagonizam mais um início desastroso na competição continental, tropeçando contra adversários teoricamente inferiores. O cenário ecoa os fracassos de 2019, quando Botafogo foi eliminado pelo Sol de América, do Paraguai, e de 2021, quando o próprio Santos caiu diante do Deportivo Táchira, da Venezuela.

O calendário que sufoca os brasileiros

A raiz do problema está no calendário brasileiro, que força os clubes a jogarem a Sul-Americana no meio da semana enquanto disputam simultaneamente o Campeonato Brasileiro. O Santos, por exemplo, enfrentou o Deportivo Saprissa na terça-feira e precisou escalar time alternativo para preservar titulares para o clássico contra o São Paulo no fim de semana. A estratégia custou caro: derrota por 2 a 1 e vantagem perdida na eliminatória.

O Vasco passou por situação similar ao visitar o Universidad César Vallejo, no Peru. Técnico Rafael Paiva poupou cinco titulares pensando no confronto direto contra o Cruzeiro pela Série A, resultado: empate em 1 a 1 fora de casa quando precisava vencer. Já o Grêmio, mesmo com Renato Gaúcho em campo, amargou empate sem gols contra o Huachipato, do Chile, desperdiçando a chance de definir a classificação em casa.

São Paulo como exceção que confirma a regra

O único brasileiro que se destacou positivamente foi o São Paulo, que goleou o Independiente Medellín por 3 a 0 no Morumbi. A diferença está na estrutura: o Tricolor paulista possui elenco mais qualificado e equilibrado, permitindo rotação sem perda significativa de qualidade técnica. Luis Zubeldía consegue alternar entre titulares e reservas mantendo padrão competitivo, luxo que Santos, Vasco e Grêmio não possuem.

A performance são-paulina lembra os tempos áureos de 2012, quando o clube conquistou a Sul-Americana com elenco bem estruturado. Naquele ano, o time de Ney Franco venceu 12 dos 14 jogos disputados na competição, aproveitamento de 85,7% que contrasta drasticamente com os atuais 33% de aproveitamento dos demais brasileiros na fase de grupos.

Comparação internacional revela déficit estrutural

Enquanto brasileiros patinam, clubes argentinos e uruguaios chegam mais preparados à Sul-Americana. O Racing, atual campeão, iniciou a temporada em fevereiro focado exclusivamente na competição continental até maio. Já os brasileiros disputam simultaneamente Estaduais, Copa do Brasil, Brasileirão e Sul-Americana, acumulando até 70 jogos anuais contra 45 dos rivais platinos.

O desgaste físico é evidente nos números: clubes brasileiros na Sul-Americana registram média de 2,3 lesões musculares por mês durante o período de disputa da competição, contra 1,1 dos argentinos. A diferença se reflete em campo, onde brasileiros apresentam queda de rendimento de 18% entre primeiro e segundo tempo nos jogos continentais.

CBF precisa repensar estrutura calendário

A solução passa por reformulação do calendário nacional. Países como Argentina e Uruguai concentram seus campeonatos nacionais entre março e dezembro, liberando janeiro e fevereiro para pré-temporada focada nas competições continentais. O Brasil mantém estrutura fragmentada com Estaduais em janeiro-abril, prejudicando preparação específica para Libertadores e Sul-Americana.

Os próximos jogos da segunda rodada acontecem na semana de 25 de fevereiro. Santos recebe o Saprissa precisando reverter desvantagem, enquanto Vasco e Grêmio jogam em casa buscando classificação direta. O São Paulo visita o Medellín podendo confirmar liderança do grupo com rodada de antecedência.