Não, Cristiano Ronaldo não é o problema central do Al-Nassr. Mas tampouco é a solução que o clube imaginava quando assinou o contrato milionário em janeiro de 2023. A derrota por 1 a 0 para o Gamba Osaka na final da ACL Two, neste sábado (16), encerra mais um ciclo sem troféu e recoloca no centro do debate uma pergunta que Riade preferia não fazer: o que impede este time de vencer quando mais importa?
A final que resumiu três anos de frustrações no Al-Nassr
O gol de Hummet, marcado na etapa inicial, foi suficiente para os japoneses do Gamba Osaka conquistarem o título da AFC Champions League Two. Simples, objetivo, letal — tudo o que o Al-Nassr não conseguiu ser no momento decisivo. Cristiano Ronaldo tentou cinco finalizações durante a partida. Nenhuma foi convertida. Nenhuma sequer exigiu defesa difícil do goleiro adversário.
O desempenho do camisa 7 na decisão foi sintomático de um padrão que se repete. Anulado na criação de jogadas, desperdiçou bolas em posições favoráveis e acumulou erros de passe que desorganizaram o ritmo ofensivo da equipe. Não é exatamente a imagem que o astro português construiu ao longo de duas décadas no futebol europeu.
Desde que chegou à Arábia Saudita, CR7 não levantou um único troféu com a camisa do Al-Nassr. Três anos. Quatro temporadas disputadas. Zero títulos. O número é tão impactante quanto o salário estimado de 200 milhões de euros anuais que o trouxe ao país do Golfo.
O que os dados revelam sobre CR7 em decisões pelo clube saudita
Há um padrão claro nas grandes decisões do Al-Nassr com Ronaldo em campo. O atacante, que ao longo da carreira marcou em finais da Champions League, da Copa do Mundo de Clubes e de múltiplos campeonatos nacionais europeus, não conseguiu replicar esse instinto assassino nas decisões pelo clube de Riade. A ausência de gols em momentos cruciais não é coincidência — é dado.
O problema, contudo, não se resume ao desempenho individual do português. O Al-Nassr construiu um elenco desequilibrado, excessivamente dependente da genialidade de um único jogador de 41 anos para resolver situações de alta pressão. Quando Ronaldo não aparece — como aconteceu contra o Gamba Osaka —, a equipe carece de um segundo plano capaz de assumir a responsabilidade ofensiva.
Há algo de melancólico nessa dinâmica, algo que lembra o trânsito da Avenida Paulista às 18h: tudo parado, todo mundo esperando que alguém tome a iniciativa, e ninguém efetivamente avançando. O Al-Nassr acumula talentos individuais, mas frequentemente trava coletivamente nas grandes noites.
"Nas palavras de analistas que acompanham a Saudi Pro League de perto, o Al-Nassr tem um dos elencos mais caros da Ásia, mas sua estrutura tática ainda não encontrou o equilíbrio entre servir Ronaldo e funcionar sem ele."
O SportNavo mapeou os confrontos decisivos do clube desde 2023 e identificou uma recorrência: nos jogos de mata-mata e nas finais, o Al-Nassr apresenta queda significativa no volume ofensivo quando o adversário fecha os espaços para Ronaldo. A equipe não tem um segundo criador de nível que force o oponente a escolher onde concentrar a marcação.
O título saudita como última chance de reescrever a narrativa em 2026
Apesar da derrota continental, o Al-Nassr ainda tem uma janela real para encerrar o jejum. Na quinta-feira (21), o clube recebe o Damac — equipe treinada pelo brasileiro Fábio Carille — e precisa apenas de uma vitória simples para conquistar o título da Saudi Pro League 2025/2026. Uma vitória direta, sem depender de outros resultados.
Em caso de empate ou derrota, o cenário se complica: o Al-Nassr passaria a depender de um tropeço do Al-Hilal, atual vice-líder da competição. O rival de Riade tem sido consistente ao longo da temporada e não costuma presentear os adversários com pontos gratuitos.
A janela é estreita, mas existe. E é justamente aí que reside a última chance de Cristiano Ronaldo transformar sua passagem pela Arábia Saudita em algo além de números individuais impressionantes — o atacante acumula dezenas de gols na Saudi Pro League, mas o futebol tem uma memória seletiva para quem não levanta taças.
"Segundo fontes próximas ao clube, a pressão interna para vencer o campeonato nacional nunca foi tão alta. A diretoria do Al-Nassr sabe que uma nova temporada sem título pode reabrir discussões sobre o futuro do projeto."
O jogo contra o Damac, marcado para quinta-feira (21) em Riade, tem peso duplo: é uma decisão de campeonato e, ao mesmo tempo, um teste de caráter para um elenco que voltou da final da ACL Two com mais uma cicatriz. Vencer ali não apagará as derrotas anteriores, mas dará ao Al-Nassr — e a Ronaldo — o argumento mais concreto que têm disponível: o de que, quando o título estava ao alcance, não desperdiçaram a oportunidade.









