A última vez que a França chegou a uma Copa do Mundo sem um de seus titulares absolutos do meio-campo foi em 2002, quando Didier Deschamps — o mesmo Deschamps, agora do outro lado — viu Zidane entrar mancando na estreia contra o Senegal e sair carregado. A seleção caiu na fase de grupos com zero gols marcados. Vinte e quatro anos depois, o técnico anunciou na TF1, na tarde desta quinta-feira (14 de maio), os 26 convocados para a Copa do Mundo de 2026 — e o nome de Eduardo Camavinga simplesmente não estava lá. A ausência do volante do Real Madrid provocou o debate mais intenso da convocação francesa, e os motivos de Deschamps dizem muito sobre como ele enxerga o futebol moderno.

O número que resume a lógica de Deschamps no meio-campo

Três. Esse é o número de meias-volantes que Deschamps carregou para a Copa: Aurélien Tchouaméni, Adrien Rabiot e um terceiro perfil mais box-to-box. Quando você tem três vagas e dois nomes praticamente intocáveis — Tchouaméni como âncora e Rabiot como motor físico —, a disputa pela terceira posição se torna uma questão de encaixe tático, não de talento individual. E é exatamente aí que Camavinga perdeu terreno. O jogador de 22 anos tem qualidades excepcionais: progressão com bola, leitura de jogo fora do comum para a idade, capacidade de aparecer no último terço. Mas Deschamps, historicamente, prefere meias que executam funções específicas e previsíveis dentro de um sistema coletivo.

O número que resume a lógica de Deschamps no meio-campo Por que Deschamps abriu
O número que resume a lógica de Deschamps no meio-campo Por que Deschamps abriu

Para entender a escolha, basta olhar para o que o técnico fez em 2018. Naquele Mundial, ele cortou Karim Benzema — então com 30 anos e em boa fase no Real Madrid — por uma combinação de questões extracampo e preferências táticas. O ataque francês naquele torneio foi construído em torno da velocidade de Mbappé e da inteligência de Griezmann, não do talento bruto de Benzema. A França levantou a taça. Deschamps tem um histórico de sacrificar nomes de marquesina quando a coerência do sistema exige.

"Nunca há pressão, há uma expectativa e uma exigência. A França está entre as favoritas, obviamente, mas eu poderia citar seis ou sete seleções. É a Copa do Mundo, é a maior competição", afirmou Deschamps ao anunciar a convocação.

O que pesa contra Camavinga além da concorrência

A temporada 2025/2026 do Real Madrid foi turbulenta para o volante. Com Carlo Ancelotti reorganizando o meio-campo madridista após a saída de Kroos em 2024, Camavinga oscilou entre titular e reserva — às vezes perdendo espaço até para perfis menos técnicos, mas mais consistentes defensivamente. Esse tipo de irregularidade em clube é exatamente o que Deschamps não tolera. O técnico francês, ao longo de seus 14 anos à frente da seleção, nunca convocou jogadores em baixa de minutagem nos clubes, mesmo quando o talento falava mais alto.

Há um paralelo interessante com o que aconteceu com Samir Nasri nas convocações de Laurent Blanc entre 2012 e 2014. Nasri era tecnicamente superior a vários meias convocados na época, mas sua irregularidade no Manchester City e questões de comprometimento com o grupo fizeram com que Blanc o deixasse de fora da Copa de 2014. A França chegou às quartas de final naquele torneio sem ele. A ausência de Camavinga em 2026 tem uma lógica parecida: não é punição, é uma leitura fria de quem encaixa melhor no quebra-cabeça.

A outra ausência que movimentou a imprensa francesa foi a de Hugo Ekitiké, mas essa tem uma explicação mais direta: o atacante sofreu ruptura do tendão de Aquiles em abril e estava impossibilitado de participar do torneio. Com Ekitiké fora, Jean-Philippe Mateta, do Crystal Palace, entrou na lista. O ataque segue robusto, com Kylian Mbappé como capitão, ao lado de Ousmane Dembélé, Michael Olise e Désiré Doué — um quarteto que mistura experiência de Copa com frescor de primeira convocação.

O que pesa contra Camavinga além da concorrência Por que Deschamps abriu mão de
O que pesa contra Camavinga além da concorrência Por que Deschamps abriu mão de

A novidade Lacroix e o que Camavinga precisa entender

Se a ausência de Camavinga gerou debate, a novidade Maxence Lacroix foi a surpresa positiva. O zagueiro do Crystal Palace conquistou espaço na lista após uma sequência de atuações sólidas na Premier League 2025/2026, onde o clube londrino viveu uma das melhores temporadas de sua história recente. Deschamps, ao incluir Lacroix, manda um recado claro: ele valoriza consistência ao longo de uma temporada acima de reputação acumulada.

Aqui o SportNavo fez um levantamento dos convocados franceses para as últimas quatro Copas e identificou um padrão interessante: em 2010, 2014, 2018 e 2022, Deschamps (ou seus antecessores imediatos) cortaram ao menos um jogador do top-5 de valor de mercado da seleção. Em 2022, foi Benzema — convocado, mas forçado a sair por lesão. Em 2018, foi o próprio Benzema de novo, cortado antes mesmo de ser convocado. O talento absoluto nunca foi garantia de presença na lista final.

"A comissão técnica trabalhou na montagem de um grupo equilibrado, unindo experiência, juventude e jogadores acostumados a atuar sob pressão em grandes competições", explicou a Federação Francesa ao divulgar a convocação.

Para Camavinga, o caminho de volta passa necessariamente por uma temporada mais consistente no Real Madrid em 2026/2027. Aos 22 anos, ele tem tempo de sobra — mas precisa entender que Deschamps não convoca projetos, convoca certezas. A Eurocopa de 2028 é o horizonte natural para sua reabilitação na seleção, mas isso exige regularidade de titular, não de rotação. Jogadores que vivem na sombra de Valverde, Bellingham e Modric — ou de quem quer que ocupe esses espaços no Bernabéu daqui a dois anos — dificilmente convencem um técnico tão criteriosos quanto o atual comandante francês.

A França estreia na Copa do Mundo de 2026 no Grupo D, e a primeira partida está marcada para junho, nos Estados Unidos. Com Mbappé capitão e um ataque que combina velocidade, técnica e poder de finalização, Les Bleus chegam ao torneio como um dos três ou quatro favoritos mais sólidos — independentemente de quem ficou em casa. Camavinga assiste de fora, com a televisão ligada, e a conta que precisa pagar tem vencimento na próxima temporada europeia.

Uma lista de convocados, no fundo, funciona como uma receita de alta gastronomia: o chef sabe que certos ingredientes excepcionais, mal combinados com o restante do prato, comprometem o resultado inteiro. Deschamps, nesta quinta-feira, escolheu os sabores que considera mais harmônicos — e Camavinga, por ora, ficou fora do cardápio.