Lamine Yamal voltou a ser alvo de ofensas racistas durante a partida entre Barcelona e Atlético de Madrid, no último fim de semana. O episódio marca mais um capítulo de uma série preocupante que tem o jovem atacante de 17 anos como protagonista involuntário. Desde sua estreia no time principal catalão, em abril de 2023, Yamal já registrou pelo menos quatro ocorrências similares em estádios espanhóis.

Perfil de risco multiplicado

Três fatores convergem para transformar Yamal em alvo preferencial dos episódios de racismo no futebol espanhol. Primeiro, sua idade: aos 17 anos, representa a nova geração de atletas negros que conquistam espaço no futebol europeu. Segundo, seu desempenho excepcional: 12 gols e 13 assistências em 34 jogos nesta temporada pelo Barcelona. Terceiro, sua origem marroquina-espanhola, que o posiciona como símbolo da diversidade cultural.

Os dados da Liga Espanhola revelam padrão similar entre os atletas mais visados. Vinicius Jr., do Real Madrid, registrou 11 episódios de racismo em duas temporadas. Pedri, também do Barcelona, mas de origem espanhola, nunca foi alvo de ofensas raciais, apesar de estatísticas comparáveis: 8 gols e 9 assistências na mesma temporada.

Resposta institucional insuficiente

A LaLiga aplicou multas que variam entre 6.000 e 65.000 euros por episódios de racismo, valores considerados baixos pelos especialistas. O protocolo atual prevê identificação de torcedores através de câmeras de segurança, mas a efetividade permanece questionável. Apenas 23% dos casos resultaram em punições individuais nos últimos dois anos.

"Os protocolos existem no papel, mas a implementação falha na prática. Precisamos de punições mais severas e consistentes", declarou Javier Tebas, presidente da LaLiga, em entrevista recente.

O Barcelona acionou o departamento jurídico em todos os episódios envolvendo Yamal, mas apenas dois casos chegaram aos tribunais. A morosidade do sistema judiciário espanhol contribui para a sensação de impunidade entre os agressores.

Comparação com outros mercados

A Premier League implementou sistema de banimento permanente para casos de racismo, resultando em 847 interdições de estádios na temporada 2023-24. Na Alemanha, a Bundesliga criou o programa "Diversity Wins", que reduziu episódios registrados em 34% entre 2022 e 2024. A Série A italiana mantém protocolo de interrupção de partidas, aplicado em sete ocasiões na última temporada.

O futebol espanhol registra média de 2,3 episódios de racismo por rodada, índice superior às outras quatro grandes ligas europeias. França (1,1), Inglaterra (0,8), Alemanha (0,6) e Itália (1,4) apresentam números menores, segundo dados da UEFA.

Yamal representa investimento de 120 milhões de euros em potencial de mercado, segundo avaliação da consultoria Transfermarkt. Sua proteção transcende aspectos humanitários e alcança dimensões econômicas para o Barcelona e o próprio campeonato espanhol.

Mudanças estruturais necessárias

Especialistas apontam três alterações fundamentais para combater o racismo no futebol espanhol. Primeiro, aumento das multas para valores entre 200.000 e 500.000 euros por episódio. Segundo, criação de sistema de identificação biométrica nos estádios, similar ao modelo inglês. Terceiro, estabelecimento de programas educacionais obrigatórios para torcidas organizadas.

"O racismo não é problema individual, mas estrutural. Precisamos atacar as raízes culturais do problema", afirmou o sociólogo Ramon Llopis, da Universidade de Valencia, especialista em violência no esporte.

O governo espanhol estuda projeto de lei que criminaliza ofensas racistas em eventos esportivos, com penas de dois a cinco anos de prisão. A proposta aguarda votação no Congresso desde setembro de 2024.

O Barcelona volta a campo nesta quinta-feira, contra o Athletic Bilbao, no Camp Nou, em partida que pode definir a liderança do Campeonato Espanhol. Yamal deve ser titular na formação de Hansi Flick, mantendo sua sequência de 18 jogos consecutivos como titular da equipe.