Duas vezes à frente do placar contra o Internacional no Mané Garrincha, com um jogador a mais na estreia da Sul-Americana contra o Magallanes — e o Botafogo não conseguiu converter nenhuma dessas situações em vitória. O empate por 2 a 2 diante do Inter na 13ª rodada do Brasileirão não foi um acidente isolado: é a cristalização de um padrão que atravessa competições e técnicos diferentes, expondo uma fragilidade estrutural que o clube ainda não encontrou resposta para corrigir.
O mesmo roteiro, vezes sem conta
No Mané Garrincha, o meia Danilo — que vive boa fase e coleciona elogios por presença na área e poder de finalização, chegando a ser especulado para a seleção de Carlo Ancelotti — abriu o placar com um chutaço no ângulo de Anthoni. O Botafogo esteve na frente, cedeu o empate em minutos, voltou a marcar e, uma vez mais, deixou o adversário igualar. O técnico Franclim Carvalho havia mantido o time-base, inclusive com Barboza atuando normalmente mesmo em meio a negociações com o Palmeiras — sinal de que o problema não é de elenco disponível, mas de gestão do jogo após o gol.
A cena se repetiu de forma ainda mais constrangedora na Sul-Americana. Contra o Magallanes, no Chile, o Botafogo abriu o placar com Tiquinho Soares logo no início, aproveitando vacilo do goleiro Gastón Rodriguez. O adversário empatou ainda no primeiro tempo com Canales. A partir dos cinco minutos do segundo tempo, os alvinegros jogaram com um a mais após a expulsão de Carlos Villanueva — e ainda assim cederam o segundo gol do Magallanes, desta vez após falha de Tchê Tchê na saída de bola. O clube marcou com Eduardo, mas não conseguiu segurar a vantagem numérica para garantir os três pontos.

"O Botafogo até criou oportunidades claras de gol e conseguiu marcar com Eduardo, mas cedeu chances demais ao adversário", registrou análise publicada pelo Terra sobre a estreia na Sul-Americana.
Fragilidade defensiva pós-gol como denominador comum
A apuração do SportNavo junto a dados das últimas rodadas mostra que o padrão de colapso defensivo imediatamente após balançar as redes é recorrente no trabalho de Franclim Carvalho. O trio de volantes com Medina, Edenilson e Danilo tem se mostrado equilibrado na construção — foi de Medina a inversão para Mateo Ponte que originou o segundo gol de Danilo contra o Inter —, mas o bloco defensivo se abre nos minutos seguintes a cada marcação, deixando linhas expostas que adversários com pouca criação conseguem explorar.
Júnior Santos, escalado como referência ofensiva contra o Internacional, viveu noite para esquecer: ficou impedido em lance importante, não conseguiu chegar em outras situações e desperdiçou oportunidade clara dentro da área. A ausência de um atacante que consiga segurar a bola e dar respiro à equipe quando o adversário pressiona após o gol sofrido é um buraco tático que Franclim ainda não tapou.
"O que aconteceu na sequência também [se repetiu]. O jogo em Brasília não foi o primeiro do trabalho de Franclim em que a fragilidade defensiva do Botafogo custou pontos quase que imediatamente após a equipe balançar as redes", observou análise do ge após o empate com o Internacional.
A sombra de 2021 volta a pairar sobre General Severiano
A situação adquire contornos mais graves quando colocada em perspectiva histórica. Levantamento do portal O Gol, citado pelo Lance!, mostra que a sequência de cinco derrotas consecutivas que inclui as quedas para Fluminense, Grêmio, Vasco, novamente Fluminense e Flamengo iguala uma marca que não se via desde dezembro de 2020 e janeiro de 2021 — período que antecedeu o rebaixamento do clube para a Série B do Campeonato Brasileiro. Na ocasião, foram seis derrotas seguidas. Na era SAF, a pior série anterior era de quatro tropeços consecutivos.
A diferença de contexto é relevante: em 2021, o clube estava em colapso financeiro e institucional. Hoje, com a estrutura da SAF e um elenco montado para brigar por títulos, a repetição do padrão negativo tem outra leitura — não é falência de projeto, mas ausência de soluções táticas e mentais para momentos de vantagem. O técnico Martin Anselmi, que comandava o time na sequência de cinco derrotas em clássicos, acumulou pressão crescente por ajustes que não apareceram.
O que precisa mudar para o Botafogo parar de ceder pontos
A análise do SportNavo sobre os dados coletados nas últimas seis rodadas aponta para três vetores de falha que se repetem: reposicionamento tardio do bloco defensivo após o gol, ausência de circulação de bola para reduzir o ritmo do adversário e erros individuais em saídas de bola — como os de Tchê Tchê na Sul-Americana — que custam gols em momentos de pressão adversária. Nenhum dos três problemas tem solução exclusivamente técnica; todos passam por ajuste de postura e leitura de jogo.
Com 16 pontos em 13 rodadas do Brasileirão, o Botafogo ainda está a quatro pontos do G-4 e tem um jogo a menos — o que mantém a janela para a Libertadores matematicamente aberta. O clube volta a campo pela Copa do Brasil e tem pela frente a segunda rodada da fase de grupos da Sul-Americana, competição em que um ponto desperdiçado no Chile pode pesar muito ao final da chave. A próxima chance de encerrar a sequência negativa é no Nilton Santos, onde o fator casa precisa ser explorado com mais eficiência do que o Glorioso demonstrou fora dele.









