32 hectares. Esse é o tamanho do Columbia Park Training Facility, o centro de treinamento do New York Red Bulls que a Seleção Brasileira escolheu como base para a Copa do Mundo de 2026 — mais do que o dobro da área da Granja Comary, em Teresópolis, que por décadas foi o quartel-general do futebol brasileiro. A comparação não é casual: ela revela a escala do investimento feito para sediar o maior torneio do planeta, e o cálculo frio que levou a CBF a cruzar o Atlântico e se instalar em Morris Township, Nova Jersey.
O gramado que a Universidade do Tennessee desenvolveu para a Copa
O CT foi inaugurado nesta semana após uma reforma que consumiu mais de US$ 100 milhões — aproximadamente R$ 500 milhões ao câmbio atual. São oito campos de futebol no total, cinco deles equipados com tecnologia de aquecimento subterrâneo e um com gramado sintético. Mas o que diferencia a estrutura para o Brasil são dois campos específicos, preparados pela FIFA com o mesmo tipo de grama que será utilizado nos estádios do Mundial — uma variedade desenvolvida pela Universidade do Tennessee para suportar as condições climáticas dos locais de jogo nos Estados Unidos. O cuidado com esse gramado é tão rigoroso que, durante a visita da equipe de reportagem da Globo ao local, nenhum jornalista foi autorizado a pisar no campo, ainda em fase de desenvolvimento.
Quando Carlo Ancelotti visitou as instalações ainda em obras, no segundo semestre de 2025, a decisão foi tomada quase imediatamente. "Eu não tive que convencer o Brasil para vir para cá — eles viram e quiseram vir", afirmou o representante do New York Red Bulls responsável pela negociação. A frase resume o poder de sedução de uma estrutura que se apresenta como "a instalação de treinamento de futebol mais inovadora da América do Norte". O prédio principal tem 8,2 mil metros quadrados de área construída — ligeiramente abaixo dos 8,5 mil metros da Granja Comary, mas com uma densidade tecnológica incomparavelmente superior.
O que a Seleção ganha dentro dos 8,2 mil metros quadrados do CT
A delegação brasileira não utilizará a totalidade do complexo — e nem precisa. Os dois campos reservados exclusivamente para o grupo de Ancelotti são acompanhados de uma ala inteira de vestiários, academia, área de recuperação, reabilitação e tratamento médico. A hidroterapia merece atenção especial: há piscinas de imersão quente e fria, uma piscina para fisioterapia com temperatura controlada e sauna. Para quem acompanha a evolução da preparação física no futebol de alto rendimento, a diferença em relação ao que existia em Copas anteriores é abissal.
Quando se analisa a Copa de 1994, ganha pelos brasileiros nos Estados Unidos após 24 anos de jejum, os próprios campeões reconhecem que o ambiente fechado e controlado de preparação foi decisivo. Passados 32 anos, a CBF replicou essa lógica com recursos do século XXI: todo o CT possui cobertura wi-fi de alta velocidade para coleta de dados de desempenho por sistemas de rastreamento em tempo real, além de salas de reunião e estudo onde a comissão técnica pode trabalhar a análise de vídeo com a mesma qualidade de um laboratório de performance europeu. A proximidade geográfica também pesou: o CT fica a aproximadamente 30 minutos do Estádio MetLife, em East Rutherford, palco da estreia do Brasil no dia 13 de junho, contra o Marrocos — e também da grande final, em 19 de julho.
O hotel que bloqueia o mundo para deixar os jogadores dormirem
A 15 minutos do CT, dentro de um campus corporativo da Verizon em Basking Ridge, fica o hotel The Ridge — escolhido pela CBF como sede da concentração durante todo o torneio. O hotel, com 171 quartos, foi inteiramente reservado para a delegação brasileira: durante a Copa do Mundo, nenhum outro hóspede ou visitante circulará pelo espaço. Os quartos foram projetados com isolamento acústico reforçado, iluminação que simula o ciclo natural do dia e estímulos visuais reduzidos. O ambiente é cercado por bosques e áreas verdes, considerado pelos especialistas em medicina esportiva como propício à recuperação física e mental entre jogos.
Quando a delegação chegou nesta semana, os jogadores encontraram nos quartos uma surpresa preparada pela CBF: artes personalizadas com o desenho de cada atleta vestindo a camisa amarela e a frase "Bate no peito" — trilha sonora oficial da Seleção para 2026. Marquinhos, capitão da equipe, compartilhou a imagem nas redes sociais. Matheus Cunha, que disputará sua primeira Copa após perder a de 2022 por lesão, escreveu: "Sonhe, acredite, realize!". As paredes do hotel e do CT foram decoradas com fotografias do livro Raízes do Futebol, do fotógrafo brasileiro Sam Robles, com imagens de crianças jogando nas ruas do Brasil — uma tentativa deliberada da CBF de reconectar os jogadores à origem do que os trouxe até ali.
A cadeia de vantagens que o ambiente certo pode produzir em campo
A estrutura tecnológica do The Ridge vai além do conforto físico. O hotel oferece redes privadas de alta velocidade para envio rápido de imagens aos jogadores, salas multimídia para análise de vídeo e um anfiteatro com padrão de cinema destinado às reuniões táticas — o tipo de recurso que Carlo Ancelotti, acostumado às instalações de Real Madrid e Bayern de Munique, considera não negociável. A CBF também estabeleceu um manual de conduta interno para a concentração, com restrições ao uso de redes sociais e controle rigoroso de quem entra no hotel. Familiares não têm acesso livre — a entrada é liberada em datas específicas, sempre após os jogos.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo dos últimos meses, a preparação logística desta Copa contrasta com episódios históricos de improvisação que marcaram campanhas brasileiras anteriores. Na Copa de 2014, jogada em casa, o Brasil enfrentou críticas sobre a qualidade dos campos de treino em algumas cidades-sede. Em 2018, na Rússia, o CT em Sochi foi elogiado, mas a estrutura do hotel gerou reclamações de jogadores. Desta vez, a CBF optou por um complexo recém-inaugurado, negociado com antecedência suficiente para que a comissão técnica acompanhasse as obras e fizesse exigências específicas — entre elas, a reserva exclusiva dos dois campos com gramado oficial da FIFA.
O Brasil estreia em 13 de junho, contra o Marrocos, no MetLife Stadium — o mesmo estádio que receberá a final em 19 de julho. A estrutura está montada, os campos estão prontos, o gramado cresceu sob controle científico — falta o jogo começar.











