Calculou. O Corinthians abriu 2026 apostando que segurar seus ativos na primeira janela renderia dividendos na Copa Libertadores — e terminou o trimestre com um rombo de R$ 131,1 milhões, número 3,6 vezes maior que os R$ 36,4 milhões previstos no orçamento original. A conta chegou antes do esperado.
O balancete que expõe a estratégia do Corinthians na janela de janeiro
O documento divulgado pelo Corinthians mostra que a diretoria havia projetado R$ 75 milhões líquidos (cerca de 12,5 milhões de euros) com venda de direitos federativos no primeiro trimestre. A receita foi zero. A decisão de não negociar atletas foi deliberada: o clube priorizou manter o elenco competitivo para a fase de grupos da Libertadores, sacrificando o caixa de curto prazo.
Dois negócios chegaram perto de acontecer. A Lazio fez proposta de aproximadamente 20 milhões de euros por Yuri Alberto — recusada pela diretoria. O Milan foi além e avançou concretamente na compra de André, volante de 18 anos, pelo mesmo valor. A venda foi vetada de última hora pelo presidente Osmar Stábile.
"Segundo o balancete, sem os itens não recorrentes, o déficit do trimestre seria de apenas R$ 17,5 milhões" — posição sustentada pela administração do clube para justificar a discrepância com a projeção original.
Os itens não recorrentes somaram R$ 38,6 milhões: R$ 32,5 milhões em premiação pela conquista da Copa do Brasil de 2025, paga ao elenco em janeiro, e R$ 6 milhões para quitar a contratação de Félix Torres — pagamento necessário para derrubar o transfer ban da Fifa e liberar inscrições de novos jogadores.
Os números do trimestre e o que eles revelam sobre a saúde financeira do clube
O Ebitda do período ficou negativo em R$ 8,9 milhões. As despesas financeiras líquidas chegaram a R$ 54 milhões em apenas três meses — valor equivalente a mais de 40% do que o Corinthians arrecadou com patrocínio máster durante todo o ano de 2024. Para cobrir o fluxo de caixa, o clube recorreu a antecipação de recebíveis e ampliou a captação de empréstimos, prática que corrói margem futura.
O contexto de fundo é de uma dívida total de R$ 2,7 bilhões. O principal credor segue sendo a Caixa Econômica Federal: o financiamento da Arena de Itaquera encerrou 2025 em R$ 642 milhões. O clube já havia registrado déficit de R$ 143 milhões no ano passado — mesmo com os títulos do Paulistão e da Copa do Brasil no currículo.
"A ausência de receitas com transferências, combinada com despesas extraordinárias não previstas, explica o desvio em relação ao orçamento" — síntese apresentada pelo clube no balancete trimestral.
O SportNavo apurou que a leitura interna é de que o cenário, embora grave, ainda tem margem de manobra — desde que as vendas da segunda janela aconteçam dentro do prazo e nos valores esperados.
A meta de 25 milhões de euros e quem pode ser negociado na próxima janela
Para fechar o orçamento anual sem rombo, o Corinthians precisa arrecadar 25 milhões de euros (aproximadamente R$ 143 milhões) com venda de jogadores na janela de transferências do meio do ano. O número não é pequeno: equivale a quase quatro vezes o que o clube arrecadou com a venda de Giovane ao Burnley em 2023.
Yuri Alberto e André continuam como os ativos de maior valor de mercado no elenco. A proposta da Lazio pelo camisa 9 e a oferta do Milan pelo volante de 18 anos — ambas na casa dos 20 milhões de euros — mostram que o interesse europeu existe. A questão é se a diretoria vai aceitar negociar com a Libertadores ainda em andamento ou vai repetir o movimento de janeiro.
A pressão financeira torna o veto de Stábile à venda de André cada vez mais difícil de sustentar. Com Ebitda negativo, despesas financeiras de R$ 54 milhões por trimestre e zero de receita com transferências no período, a margem para nova recusa é estreita. Se o clube não atingir a meta de 25 milhões de euros até o fechamento da janela de julho, o déficit anual pode superar o de 2025 — e o clube encerraria dois anos consecutivos no vermelho acima de R$ 130 milhões.
O Corinthians enfrenta o Fluminense no próximo domingo pelo Brasileirão, mas é fora de campo que o resultado mais importante de maio será definido: se algum dos ativos do elenco terá proposta concreta antes que a janela europeia abra em junho.









