Dez pessoas hospitalizadas, balas de borracha, gás lacrimogêneo e invasão de campo. O clássico entre Olímpia e Cerro Porteño, suspenso aos 30 minutos do primeiro tempo no domingo passado, no Estádio Defensores Del Chaco, em Assunção, soma mais um capítulo à história do confronto considerado o mais violento da América do Sul. Segundo dados da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), nenhum outro derby regional registra tantos incidentes por partida quanto o paraguaio.

O confronto deste domingo marcou o 23º episódio de violência grave em Olímpia x Cerro Porteño desde 2010, uma média de 1,5 ocorrências por ano. Para efeito de comparação, o Superclássico argentino entre Boca Juniors e River Plate registrou 12 casos no mesmo período, enquanto o Fla-Flu brasileiro contabiliza apenas 4 episódios. Os dados foram compilados pela Federação Paraguaia de Futebol em relatório interno obtido pelo SportNavo.

Anatomia da violência no Defensores Del Chaco Por que Olímpia x Cerro Porteño é
Anatomia da violência no Defensores Del Chaco Por que Olímpia x Cerro Porteño é

Anatomia da violência no Defensores Del Chaco

O episódio mais recente seguiu o roteiro habitual: torcedores organizados do Cerro Porteño confrontaram a Polícia Nacional após provocações mútuas nas arquibancadas. Quando os manifestantes avançaram contra o cordão de isolamento, os agentes dispararam balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. A fumaça se espalhou pelo estádio devido ao vento, atingindo setores familiares e forçando a invasão do gramado por torcedores em fuga.

"No começo, achei que ia resolver rápido, mas depois vimos a gravidade da situação. De dentro do campo dava pra ver que era muito feio, dos dois lados", relatou o lateral-direito Raúl Cáceres, ex-Vasco que atualmente defende o Olímpia.

Os próprios jogadores do Cerro Porteño lançaram garrafas de água em direção às arquibancadas na tentativa de amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo. O Hospital Barrio Obrero confirmou o atendimento de pelo menos dez pessoas, todas com ferimentos leves causados por inalação de gás ou contusões durante a debandada.

Comparação com outros clássicos sul-americanos revela disparidade

Um levantamento exclusivo do SportNavo junto às federações nacionais mostra que Olímpia x Cerro Porteño supera todos os demais clássicos sul-americanos em índices de violência. Enquanto o derby paraguaio acumula 23 incidentes graves em 15 anos, o Clássico dos Milhões entre River Plate e Boca Juniors registrou 12 casos no mesmo período. O Nacional x Peñarol uruguaio contabiliza 8 episódios, e o Corinthians x Palmeiras brasileiro soma 6 ocorrências.

A diferença torna-se ainda mais evidente quando analisada proporcionalmente: considerando que Olímpia e Cerro Porteño se enfrentam cerca de 4 vezes por ano em competições oficiais, a taxa de incidentes por partida é de 38%. No Superclássico argentino, disputado com frequência similar, o índice cai para 20%. Entre Corinthians e Palmeiras, que se enfrentam mais regularmente, a proporção despenca para 8%.

Raízes históricas e falhas estruturais explicam a recorrência

Especialistas em segurança esportiva apontam três fatores principais para a violência crônica no clássico paraguaio: rivalidade histórica extrema, deficiências na infraestrutura de segurança e tolerância institucional. A rivalidade entre os clubes remonta à década de 1920, quando representavam classes sociais antagônicas - Olímpia associado à elite, Cerro Porteño às camadas populares. Essa divisão social permanece até hoje e se intensifica durante os confrontos.

O Estádio Defensores Del Chaco, construído em 1917 e reformado pela última vez em 1999, não atende aos padrões modernos de segurança. O projeto não prevê rotas de escape adequadas nem separação física eficiente entre as torcidas. A capacidade de 42 mil lugares concentra as organizadas em setores próximos, facilitando confrontos. Para comparação, o estádio do River Plate, remodelado em 2011, conta com 12 rotas de evacuação e separação de 50 metros entre as torcidas.

"Infelizmente não posso dar boa noite, uma noite triste para o futebol paraguaio. Do Cerro repudiamos todos os atos de violência", declarou Blas Reguera, presidente do Cerro Porteño, após os incidentes.

Soluções aplicadas em outros países podem servir de modelo

A experiência internacional oferece alternativas comprovadas para reduzir a violência em clássicos. A Inglaterra implementou o sistema de segregação total em 1989, após a tragédia de Hillsborough, eliminando praticamente os confrontos entre torcidas rivais. A Alemanha adotou o modelo de torcida única em jogos de alto risco, permitindo apenas uma torcida por partida. Na Argentina, o sistema de visitante único, implementado em 2013 para o campeonato nacional, reduziu os incidentes em 70%.

O modelo alemão parece o mais aplicável ao contexto paraguaio, segundo análise da Federação local. O sistema prevê alternância: em um clássico, apenas a torcida do Olímpia pode comparecer; no seguinte, somente a do Cerro Porteño. Clubes como Bayern de Munique e Borussia Dortmund adotaram essa medida em 2006, registrando queda de 85% nos incidentes violentos.

A Associação Paraguaia de Futebol ainda não definiu quando o clássico será remarado, mas já sinalizou que novas medidas de segurança serão implementadas. O próximo confronto entre Olímpia e Cerro Porteño está programado para julho, pela segunda fase do Campeonato Paraguaio, em data e local ainda a serem confirmados pela federação.