Há uma certa ironia elegante no fato de que Raúl Jiménez — um homem criado no futebol de Tepeji, no centro do México — seja hoje um dos centroavantes mais consistentes da Premier League. Aos 35 anos, com a camisa 7 do Fulham, ele não apenas persiste; ele produz. E essa distinção, no futebol europeu de alto nível, é tudo.

De Tepeji ao Velho Mundo

Raúl Alonso Jiménez Rodríguez nasceu em 5 de maio de 1991, em Tepeji del Río, estado de Hidalgo. A trajetória profissional que se seguiu foi, sob muitos aspectos, a de um jogador que aprendeu a se reinventar à medida que os contextos mudavam. Sua formação no futebol mexicano o levou ao América, onde conquistou o Campeonato Mexicano no Clausura de 2013 — título que funcionou como cartão de apresentação para o Atlético de Madrid, clube com o qual ergueu a Supercopa da Espanha em 2014.

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A passagem pela Espanha foi um período de adaptação ao pressing alto e à intensidade tática do futebol ibérico, mas foi em Lisboa que Jiménez floresceu de vez. Pelo Benfica, acumulou um palmarès invejável: duas edições do Campeonato Português (2015-16 e 2016-17), a Taça da Liga em 2015-16, a Taça de Portugal em 2016-17 e duas Supertaças Cândido de Oliveira, em 2016 e 2017. Eram anos de gegenpressing à portuguesa, de um futebol vertical que exigia dos atacantes tanto presença na área quanto mobilidade fora dela.

A chegada à Inglaterra e a construção de uma identidade

Cruzar o Canal da Mancha sempre foi, para os atacantes latinos, um teste de identidade. O ritmo físico da Premier League, a intensidade do duelo aéreo, a menor tolerância para o jogo posicional puro — tudo isso exige adaptação. Jiménez, com seus 187 cm e perfil de centroavante completo, encontrou no futebol inglês um ambiente que, paradoxalmente, valorizava exatamente o que ele tinha de melhor: presença física, leitura posicional e capacidade de segurar a bola enquanto os médios chegam.

No Fulham, esse repertório ganhou ainda mais sofisticação. A análise do SportNavo sobre a temporada atual revela números que merecem atenção: em 38 jogos pelo clube londrino, Jiménez marcou 12 gols e distribuiu 3 assistências — uma contribuição direta a 15 gols, volume que poucos atacantes de sua faixa etária conseguem sustentar no palco mais exigente do futebol de clubes.

O que faz Jiménez diferente em campo

Observá-lo jogar é entender a diferença entre um centroavante que marca gols e um que cria situações. Jiménez pertence ao segundo grupo — e é por isso que sobrevive. Seu jogo de costas para o gol é sofisticado o suficiente para funcionar até contra a linha defensiva de times que utilizam blocos médios compactos, característica comum na Premier League. Ele não depende de driblar; depende de posicionar-se antes que o adversário perceba o problema.

Há nele algo do centroavante clássico europeu — o target man que ancora o ataque — combinado com a mobilidade diagonal que o tiki-taka ibérico lhe ensinou a explorar. O resultado é um jogador difícil de categorizar por um único rótulo tático, o que, em 2024 e 2025, é uma vantagem competitiva real.

Uma carreira construída em título após título

O palmarès de Jiménez transcende o âmbito dos clubes. Com a seleção mexicana principal, ele conquistou a Copa CONCACAF em 2015, a Copa Ouro da CONCACAF em 2019 e novamente em 2025, além da Liga das Nações da CONCACAF em 2024-25 — o que o torna um dos mexicanos mais vitoriosos em nível de seleção na história recente. Antes disso, ainda pela seleção sub-23, havia conquistado a medalha de ouro no futebol nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012 — um torneio que o SportNavo considera um dos momentos formativos de toda uma geração de futebolistas mexicanos — e o Torneio Internacional de Toulon no mesmo ano.

Poucos jogadores conseguem conectar uma carreira de clubes vitoriosa em três países distintos — México, Espanha, Portugal e Inglaterra — com uma trajetória tão longeva e representativa pela seleção. Essa coerência ao longo do tempo é, ela própria, uma forma de conquista.

O que esperar nos próximos doze meses

Com 35 anos e uma temporada de 12 gols em 38 jogos na Premier League, Jiménez ocupa uma posição curiosa no espectro de expectativas: é jovem o suficiente para seguir sendo determinante, mas experiente o bastante para gerir seu próprio desgaste com inteligência. A questão não é se ele vai parar, mas como vai escolher os próximos passos.

No Fulham, ele representa uma referência técnica e de vestiário que vai além dos números. Times na faixa mid-table da Premier League raramente prescindem de jogadores com esse duplo valor. Enquanto o clube de Craven Cottage mantiver ambições de consolidação na elite inglesa, o centroavante mexicano terá papel central nessa narrativa. Para a seleção, a Copa Ouro de 2025 já conquistada demonstra que seu ciclo internacional ainda não se encerrou.

Raúl Jiménez é, em muitos sentidos, o arquétipo do futebolista que a América Latina exportou para o futebol europeu nas últimas duas décadas: tecnicamente refinado nos toques curtos, fisicamente adaptado ao duelo direto, e maduro o suficiente para saber quando acelerar e quando segurar. Que ele ainda faça isso sob os holofotes de Craven Cottage, aos 35 anos, diz mais sobre sua carreira do que qualquer título isolado poderia dizer.