A água fria do Índico bateu nas pedras de Margaret River com a força de sempre. Mas quem dominou a abertura da janela de competição nesta quinta-feira, 16 de abril de 2026, foi o Brasil — seis surfistas avançaram às oitavas de final da etapa australiana da WSL, consolidando uma presença que já não surpreende ninguém no circuito mundial, mas que ainda impressiona pela consistência.
Ítalo Ferreira, Samuel Pupo, Gabriel Medina, Yago Dora, Miguel Pupo e João Chianca seguem vivos na etapa de Western Australia. O destaque imediato é o duelo entre Ítalo e Chianca nas oitavas — uma bateria que, independentemente do resultado, garante ao Brasil presença nas quartas de final. Ítalo avançou com margem mínima sobre o marroquino Ramzi Boukhiam: 13,47 a 13,33, diferença de apenas 14 centésimos. Chianca, por sua vez, despachou Jake Marshall por 12,70 a 12,00.
O que está em jogo agora em Margaret River
Yago Dora, atual campeão mundial e líder do ranking, estreou com vitória sobre o australiano Jacob Willcox por 13,67 a 12,93 e enfrentará Connor O'Leary nas oitavas. Gabriel Medina, tricampeão, venceu o mexicano Alan Cleland por 13,16 a 8,50 e mede forças agora com Jack Robinson, bicampeão da etapa em 2024. Samuel Pupo foi o primeiro brasileiro a avançar no dia, somando 15,50 contra 11,60 de Cole Houshmand, e aguarda Kanoa Igarashi. Miguel Pupo, líder do ranking após o título em Bells Beach, não deu chances ao australiano Morgan Cibilic: 12,83 a 6,90.
Três brasileiros foram eliminados antes das oitavas: Matheus Herdy, Filipe Toledo e Alejo Muniz. Toledo, que já havia sido eliminado em El Salvador pelo novato Alan Cleland, vive momento irregular na temporada — distante do nível que o levou ao título mundial.
A estrutura que transforma ondas brasileiras em campeões mundiais
Ter três campeões mundiais ativos na elite — Medina, Toledo e Ítalo Ferreira — não é coincidência. O Brasil construiu nas últimas duas décadas um ecossistema de formação que começa nas praias do litoral nordestino, passa pelas ondas de Saquarema e chega ao profissionalismo com suporte técnico e patrocinadores de peso. O SportNavo mapeou ao longo desta temporada como marcas como Rip Curl, Vans e patrocinadores nacionais investem em estrutura de viagem, treinamento físico e análise de performance para os atletas brasileiros no tour — um diferencial que surfistas de países com menor mercado simplesmente não têm acesso.
Ítalo Ferreira, campeão olímpico em Tóquio e vencedor em Teahupoo em 2024, já demonstrou domínio em ondas de tubo pesado ao registrar somatório de 14,90 na etapa taitiana, com notas 7,50 e 7,40. Em Bells Beach, foi ele quem fez o maior somatório do primeiro round masculino da temporada. A consistência em diferentes tipos de onda é o que separa os brasileiros do restante do pelotão.
"O Brasil chegou a todas as finais em El Salvador desde a primeira edição de Punta Roca na WSL."
Esse dado, registrado pela WSL, traduz uma regularidade que vai além de talentos isolados. Em Saquarema, etapa que o Brasil recebe como sede, Ítalo venceu Connor O'Leary e Seth Moniz com 12,43 pontos logo na abertura. Em Raglan, na Nova Zelândia, Medina somou 15,20 para eliminar o havaiano Eli Hanneman. Em Bells Beach, Samuel Pupo venceu sua bateria sem dificuldades. A máquina não para.
O que muda no mapa da temporada a partir das oitavas
Com seis brasileiros nas oitavas de Margaret River, o Brasil praticamente garante que ao menos dois ou três atletas cheguem às semifinais — o que impacta diretamente a classificação para o WSL Finals. Yago Dora, já garantido na decisão final da temporada, tenta manter a liderança do ranking e precisa chegar à final da etapa australiana para consolidar a posição de número 1 sem depender de outros resultados.
A presença de Medina nas oitavas também é significativa para o ranking. O tricampeão enfrentará Robinson, surfista que conhece Margaret River como poucos — bicampeão da etapa em 2024, o australiano terá vantagem de leitura de onda. Medina, no entanto, já demonstrou nesta temporada que a lycra amarela não o intimida: em Raglan, foi o primeiro brasileiro a se classificar, vencendo com 15,20 pontos.
O duelo Ítalo x Chianca nas oitavas é o mais aguardado. João Chianca, de Saquarema, tem surfado com crescente consistência no tour e representa a nova camada de talentos que o Brasil insere no circuito. Ítalo, por sua vez, chega com a experiência de quem já venceu em condições extremas — de Teahupoo às ondas pesadas de Margaret River.
"Medina enfrentará o compatriota Filipinho nas oitavas [em Raglan]. Os dois já se encontraram nesta temporada, na etapa da Gold Coast, quando Filipinho levou a melhor."
O Brasil tem, neste momento, seis surfistas vivos em Margaret River e ao menos quatro com chances reais de semifinal. As oitavas começam na próxima janela de competição, com a etapa australiana aberta até o fim de abril. O verde e amarelo não veio para passear na Western Australia.









