Confesso que errei sobre Raphinha em 2023, quando escrevi que ele nunca seria titular consolidado da Seleção. Três anos depois, ele fecha a temporada 2025/26 com 21 gols e sete assistências em 33 jogos pelo Barcelona — e eu preciso revisitar cada palavra daquele argumento. O problema é que revisar o desempenho do gaúcho de Porto Alegre nos clubes europeus não responde à pergunta que persiste com a teimosia de um placar injusto: por que ele e Vinícius Júnior somem quando vestem a amarela?

A pergunta voltou com força total após o amistoso de 26 de maio, em Boston, quando o Brasil perdeu para a França por 2 a 1. Vinícius Jr., que na tarde deste domingo marcou o gol solitário da vitória do Real Madrid sobre o Sevilla — chegando a 22 gols em 53 jogos na temporada pelo clube espanhol — foi amplamente criticado pela imprensa internacional pela atuação contra os franceses: poucos dribles certos, muitas perdas de posse, quase nenhuma efetividade ofensiva. Raphinha, por sua vez, atuou apenas 45 minutos e deixou o campo com dores, sem qualquer influência no jogo. Quem mudou o ritmo do Brasil foi Luiz Henrique, um jogador sem um décimo da badalação dos dois titulares.

Os números que sustentam a grandeza nos clubes

Antes de qualquer análise, os dados merecem ser expostos com rigor. Raphinha, nesta temporada da La Liga 2025/26, é um dos melhores jogadores do mundo na posição — ponto. Dois gols marcados neste domingo na vitória por 3 a 1 sobre o Betis no Camp Nou, um em cobrança de falta e outro aproveitando vacilo da defesa adversária, apenas confirmam uma série estatística que o coloca entre os candidatos à Bola de Ouro: ele e Vinícius Jr. são os únicos brasileiros na lista de 30 indicados divulgada pela France Football. O técnico Hansi Flick, em entrevista coletiva após o jogo, foi direto:

"Ele é muito importante para nós. É incrível. Estou muito contente de que tenha voltado bem, sentíamos a falta dele."

Vinícius, no mesmo domingo, decidiu fora de casa contra o Sevilla pela 37ª rodada do Campeonato Espanhol — 22 gols em todas as competições pelo Real Madrid nesta temporada. Para efeito de comparação histórica: Ronaldo Fenômeno, na temporada 1996/97 pelo Barcelona, marcou 47 gols em 49 jogos. Romário, no auge pelo Barça em 1993/94, foram 30 gols em 33 partidas. Vinícius não está nesse patamar artilheiro, mas sua influência no jogo do Real Madrid vai além do gol — o que torna ainda mais desconcertante o apagão com a amarela.

A contradição que os dados da Seleção não conseguem esconder

Quando faz seu jogo no Real Madrid, Vinícius recebe a bola em velocidade, com espaço nas costas da defesa e um sistema inteiro construído para liberar sua explosão. Quando faz o mesmo movimento pela Seleção Brasileira, encontra um time que ainda busca identidade tática sob Ancelotti, adversários mais organizados defensivamente e companheiros que não leram o mesmo script.

Quando atua pelo Barcelona, Raphinha opera como peça central de um sistema de Flick que o usa tanto como finalizador quanto como criador, com liberdade para aparecer no meio campo e no corredor direito. Quando atua pela Seleção, frequentemente é encaixado em função dos outros, sem a mesma fluidez posicional — e qualquer lesão, como a que o tirou da partida contra a França no intervalo, amplifica o problema.

A comparação histórica é inevitável e, para um jornalista que acompanha a Seleção desde a campanha de 1982, dolorosa. Zico, Sócrates e Falcão também rendiam mais nos clubes do que em Copas — não por falta de talento, mas porque o futebol coletivo da Seleção nunca foi construído em torno de suas características individuais. Em 1982, o Brasil marcou 15 gols em cinco jogos na Copa da Espanha e foi eliminado pela Itália de Rossi (3 a 2) num duelo em que os três craques jogaram bem individualmente, mas o sistema coletivo falhou no momento decisivo. O padrão se repete com frequência perturbadora.

O levantamento que o SportNavo fez das últimas dez convocações da Seleção revela que Vinícius Jr. tem média de 0,4 gols por jogo no Real Madrid nesta temporada, contra 0,18 pela Seleção nas últimas 11 partidas. Raphinha, com 0,63 gols por jogo pelo Barcelona em 2025/26, marca em média 0,22 pela amarela no mesmo período. A queda de rendimento é estatisticamente expressiva, não uma percepção subjetiva.

O que Ancelotti pode — e precisa — fazer diferente na Copa do Mundo

A convocação final de Carlo Ancelotti, anunciada nesta segunda-feira com os 26 nomes para a Copa do Mundo, traz a dupla na lista — como esperado, dado que ambos estavam entre os 55 pré-relacionados. A questão não é se eles vão ao Mundial, mas como o técnico italiano vai usá-los. Ancelotti tem um histórico documentado de extrair grandes atuações de jogadores tecnicamente superiores que passavam por crises de confiança: fez isso com Kaká no Milan em 2006/07 e com Benzema no Real Madrid entre 2021 e 2022, quando o francês venceu a Bola de Ouro.

A programação da Seleção antes da estreia oferece tempo limitado, mas real. Os jogadores se apresentam na Granja Comary em Teresópolis no dia 27, com exceção de atletas envolvidos na final da Liga dos Campeões no dia 30 — caso de Gabriel Magalhães e Marquinhos, do Arsenal e PSG respectivamente. O amistoso contra o Panamá está marcado para 31 de maio no Maracanã, às 18h30, seguido de outro teste contra o Egito em Cleveland no dia 6 de junho. A estreia no Grupo C, contra Marrocos, acontece em 13 de junho, em Nova Jersey, onde o Brasil terá como base o CT do New York Red Bulls.

São dois jogos preparatórios para Ancelotti construir o sistema em torno de Vinícius e Raphinha — ou para descobrir que o problema é mais profundo do que qualquer ajuste tático resolve em duas semanas. A história das Copas do Mundo está cheia de craques que chegaram em forma nos clubes e desapareceram no torneio: van Persie em 2014 foi a exceção gloriosa, não a regra. Mais frequente é o caminho de Ronaldinho Gaúcho em 2006, quando chegou como melhor jogador do mundo e saiu como sombra de si mesmo.

Se Ancelotti conseguir reproduzir em Nova Jersey o ambiente que Flick criou no Camp Nou para Raphinha — ou que Ancelotti mesmo construiu no Bernabéu para Vinícius —, o Brasil terá os dois melhores atacantes do planeta em forma para um Mundial. Se a Seleção chegar ao jogo contra Marrocos com o mesmo sistema genérico que perdeu para a França em Boston, os números históricos sugerem que a dupla voltará a decepcionar precisamente quando o Brasil mais precisar deles. Então fica a pergunta concreta: se Vinícius e Raphinha voltarem apagados contra o Panamá no Maracanã no dia 31, Ancelotti terá coragem de mudar o sistema inteiro a menos de duas semanas da estreia?