O melhor jogador do Brasil em atividade não quis a camisa 10 da Seleção. Raphinha, artilheiro do Barcelona com 27 gols na temporada 2025/2026, tampouco a reivindicou. Matheus Cunha, que soma 18 gols pelo Atlético de Madrid nesta temporada, também não. O número mais emblemático do futebol brasileiro voltará ao peito de Neymar — um atleta que não disputa uma competição de alto nível há quatro anos — não porque alguém o impôs, mas porque ninguém o disputou.
O número que define uma geração inteira
Quatro. Esse é o total de Copas do Mundo que Neymar disputará com a camisa 10, igualando Pelé — que vestiu o número em 1958, 1962, 1966 e 1970. A comparação, porém, para por aí. Pelé venceu três desses torneios. O maior título de Neymar pela Seleção principal segue sendo a Copa das Confederações de 2013, conquistada em casa, num torneio que não conta com as principais potências em ritmo de competição oficial. Nas três Copas anteriores, Neymar chegou às oitavas em 2010, às semifinais em 2014 — encerrando o torneio lesionado antes do 7 a 1 — e às quartas em 2018, eliminado pela Bélgica.
A camisa 10 da Seleção carrega um peso histórico específico: Pelé, Zico, Ronaldinho Gaúcho e o próprio Neymar já a usaram em Copas. Cada um desses nomes chegou ao torneio como o jogador mais dominante do planeta naquele momento. Neymar em 2026 chega de uma lesão no menisco sofrida em outubro de 2023, com passagens pelo Al-Hilal — onde disputou apenas 5 jogos — e retorno ao Santos, clube onde reestreou em 2025 com desempenho irregular na Série A.
Vini Jr. recusou o protagonismo ou nunca o assumiu
A leitura mais fácil é a de que Vinícius Júnior, Raphinha e Matheus Cunha respeitaram Neymar como ídolo de formação. Há algo de verdadeiro nisso. Vinícius tem 25 anos — quando Neymar vivia seu auge no Barcelona entre 2014 e 2017, o atacante do Real Madrid tinha entre 13 e 16 anos. A relação com o camisa 10 é, antes de tudo, a de um fã que cresceu olhando para aquele número.
Mas o dado estatístico que o SportNavo mapeou nesta análise aponta para algo mais estrutural. Vinícius foi o melhor jogador do Real Madrid na temporada 2024/2025, com 24 gols e 11 assistências em todas as competições. Raphinha foi eleito melhor jogador da La Liga em 2025/2026, com aproveitamento de gol a cada 97 minutos. São números de protagonistas absolutos — e nenhum dos dois bateu no peito para reivindicar o símbolo máximo da Seleção.
"Quando um atleta de 25 anos no auge da carreira abre mão de um símbolo como esse, não é humildade — é ausência de identidade com o projeto. Ele sabe jogar bola, mas ainda não decidiu que é o dono da Seleção", avaliou um ex-técnico de base com passagem por clubes da Série A, em conversa reservada com a reportagem.
A análise tem respaldo em dados de formação. Vinícius foi revelado pelo Flamengo, onde integrou o sub-17 e o sub-20 entre 2015 e 2017, transferido ao Real Madrid em 2018 por 45 milhões de euros. Raphinha percorreu um caminho mais longo: Avaí, Vitória, Sporting de Portugal, Rennes e Leeds antes de chegar ao Barcelona em 2022. Matheus Cunha foi formado no Coritiba, profissionalizado aos 18 anos, e passou por Sion, Leipzig, Hertha e Atlético de Madrid. Três trajetórias distintas, três jogadores em nível de excelência europeia — e nenhum com o instinto de assumir a liderança simbólica da Seleção.
O que a camisa 10 de Neymar projeta para a Copa
A decisão — ou a ausência dela — revela um problema que vai além da numeração de camisas. Uma seleção que chega à Copa do Mundo sem um líder que reivindique o protagonismo é uma seleção que ainda não sabe quem é. Ancelotti terá, em campo, ao menos três jogadores com desempenho superior ao de Neymar nos últimos 24 meses. A questão é se algum deles vai se comportar como tal quando o torneio começar.
Neymar completará 34 anos durante a fase de grupos da Copa do Mundo 2026. Nos últimos quatro anos, somou menos de 400 minutos em competições de alto nível — um dado que, em qualquer análise de base, seria suficiente para questionar a titularidade. Mas a camisa 10 não é só sobre minutos jogados. É sobre quem ocupa o centro do projeto, quem responde quando a pressão aumenta, quem a torcida olha nos momentos decisivos.
Se Raphinha, que terminou a temporada 2025/2026 como o jogador mais decisivo da La Liga, não se enxerga como o rosto da Seleção, há um problema de identidade que Ancelotti precisará resolver dentro de campo — porque fora dele, a hierarquia já foi definida sem que ninguém precisasse perguntar. É o mesmo cenário que a Argentina viveu em 2014, quando Messi carregava o peso de uma geração que ainda não havia decidido se queria vencer sem Maradona — só que agora a aposta é diferente: o Brasil chega ao torneio sem nem ao menos ter feito a pergunta.









